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Museu busca nomes de vítimas do nazismo

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DANIELA KRESCH

JERUSALÉM (FOLHAPRESS) - "Yad Va-Shem": Memorial e nome. A designação oficial do Museu do Holocausto de Israel, tirado de uma passagem bíblica (Isaías 56:5), nunca teve tanto significado.

Pouco mais de sete décadas depois do fim do nazismo, o museu se esforça para compilar os nomes de todos os judeus mortos no genocídio e divulgar cartas ou documentos pessoais para o público. O objetivo é desviar a atenção da história mais crua de grupos de vítimas para a de relatos pessoais, humanizando o peso de um número: 6 milhões.

A preservação e divulgação da memória de cada uma das vítimas se tornaram um dos principais objetivos da instituição em meio ao gradual e inexorável desaparecimento dos últimos sobreviventes.

O principal esforço tem sido feito pelo Projeto de Recuperação de Nomes de Vítimas do Shoá —nome do Holocausto para os judeus—, iniciado há uma década e que ganhou força nos últimos anos.

"Quando não lembramos de toda e qualquer pessoa, o número de vítimas se torna algo sem sentido. Um morto, cinco mortos... Acaba se tornando igual", afirma Sara Berkowitz, diretora do projeto. "O que os nazistas queriam era justamente desumanizar suas vítimas, tirar suas identidades. Mas a memória as imortaliza."

Até 2005, o Hall dos Nomes do Yad Vashem tinha 3 milhões de nomes de vítimas. Agora, já contabiliza 4,7 milhões, um incremento que foi fruto, em parte, de uma busca proativa pelos mortos que nunca foram identificados.

O Projeto Nomes já conseguiu buscar e identificar mais de 800 mil nomes. Mas a expectativa é de que esse número cresça, já que apenas 50% dos dados compilados já foram classificados.

Segundo Sara Berkowitz, o esforço tem como motivação também a crescente onda de negação do Holocausto por antissemitas em geral.

Os novos dados ajudam a confirmar dados já conhecidos e rechaçar informações forjadas (em geral por neonazistas que tentam provar que o Yad Vashem é uma fraude).

"Muitas pessoas dizem: 'Os judeus estão exagerando quando falam em 6 milhões'. Mas, na minha opinião, podemos passar disso. A maioria dos nomes que ainda não sabemos é oriunda da Polônia e da Europa Oriental, principalmente países da antiga União Soviética. Lá, os nazistas e seus simpatizantes não mantinham listas organizadas. Eles chegavam a aldeias, colocavam todos os judeus em algum lugar e ateavam fogo, sem documentar nada", diz.

Quando foi criado, em 1953, o Yad Vashem apelou para que famílias dos sobreviventes preenchessem páginas de testemunho com nomes de seus familiares mortos em campos de concentração, guetos ou outros lugares.

A reportagem descobriu que a primeira página, datada de 1954, foi preenchida em português, por um morador de São Paulo, em nome da polonesa Ester Feigel Gotlieb, que morreu em 1943, nos crematórios de Auschwitz.

Esses formulários continuam a formar a base do banco de dados do museu. Hoje, no entanto, eles podem ser preenchidos pela internet —outro motivo para o aumento no número de nomes compilados. Essa opção tem causado uma revolução na participação ativa de sobreviventes e parentes dos mortos.

Mesmo assim, o museu decidiu investir no Projeto Nomes. Voluntários e funcionários passaram a procurar dados em cemitérios, sinagogas, cartas, diários e outras fontes. As comunidades mais visadas são as de judeus ultraortodoxos, que hesitam em contribuir com autoridades.

Seus líderes preferiram, nos últimos 70 anos, celebrar seus mortos em livros ou placas em sinagogas. Numa sinagoga em Jerusalém, por exemplo, foi encontrada uma árvore estilizada na qual cada "folha" leva o nome de uma vítima do Holocausto. Nenhum dos nomes estava listado no Yad Vashem.

Mas as maiores fontes são, sem dúvida, os cemitérios. As lápides judaicas contam histórias que, por vezes, impressionam até mesmo os profissionais do Yad Vashem.

Além da busca por nomes, o museu passou a utilizar a internet para expor documentos pessoais dos mortos, enfatizando o caráter humano das vítimas. Um dos projetos é o "Last letters" (Últimas cartas), que mostra a última correspondência enviada por pessoas que, em seguida, morreram.

A exibição online conta, hoje, com dez cartas de 1941 (ano em que começou a chamada Solução Final, o extermínio sistemático de judeus) e dez cartas de 1942. São apenas alguns poucos exemplos das milhares de cartas dos arquivos do Yad Vashem.

"É uma perspectiva pessoal. Cada um tem sua caligrafia própria. Às vezes, dá para ver até as lágrimas no papel", afirma a curadora Yona Kobo. "Nosso objetivo é tirar as cartas do arquivo para que as pessoas as vejam, já que não podem vê-las fisicamente por causa das condições especiais de armazenamento. Queremos dar a essas pessoas nome, rosto, história."

Kobo conta que há muitas cartas escritas à beira da morte; mas, nelas, os autores não reclamam. "Só pedem que não se esqueçam delas. Nós não esquecemos."

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