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Debutantes da região da cracolândia ganham festa de 15 anos dos sonhos

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ELIANE TRINDADE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nathalia Firmino dos Santos fez 15 anos em 24 de dezembro do ano passado. Festejou a data com um bolinho caseiro no barraco que divide com a mãe e dois dos três irmãos na favela do Moinho, no centro de São Paulo.

Também moradora da comunidade, Emmelyn Caroline dos Santos não tem nenhuma memória especial do 15º aniversário, em 17 de agosto de 2016. "Passei o dia trancada dentro de casa. Sou antissocial. Foi uma data normal."

Elas tiveram uma festa de debutante tardia, nesta quarta (14). Uma trégua na dura realidade de quem vive nos arredores da cracolândia.

Elas e outras nove adolescentes do projeto Novos Sonhos, que atende 500 crianças da região da Luz, debutaram em grande estilo, de carona no lançamento do filme "Meus 15 anos", estrelado por Larissa Manoela, que fez sucesso em "Carrossel".

Na segunda (12), as meninas assistiram à uma sessão especial do longa, que entra em cartaz nesta quinta (15). Em seguida, tiveram um encontro de 15 minutos com a atriz, fenômeno teen.

"Eu vivi duas vezes a emoção de ter um 15 anos de sonho. Primeiro, com uma festança no ano passado e agora durante as filmagens", disse a atriz para as 11 garotas que fizeram fila para autógrafos e selfies no lobby de um hotel.

Na ficção, Bia é uma garota solitária e sem vaidade que ganha uma festa de debutante superproduzida, em um sorteio de um shopping.

Na vida real, Larissa Manoela protagonizou um conto de fadas em janeiro de 2016, com carruagem, bufê luxuoso, três trocas de roupa e convites com sapatinho de cristal.

Um mundo cor de rosa bem distante do das fãs/debutantes que estudam em escola pública e driblam cotidianamente a ameaça do crack.

"Minha filha ficou muito triste no dia dos 15 anos. A gente não tinha dinheiro para festa nem presente", relata Maria de Fátima, 50, mãe de Nathalia. Há quatro anos, a passadeira sofre com uma artrose que a impede de trabalhar. A família trocou o bairro da Casa Verde pela favela dominada pelo crack.

"O ruim de morar no Moinho é o sufoco das drogas. Vi minha irmã mais velha ir para esse lado do crack", diz Nathalia. Hoje no segundo ano do ensino médio, ela passou para o turno da noite para procurar trabalho e ajudar a mãe.

Após a noite de Cinderela, a jovem pretende tirar carteira de trabalho e entrar no programa Jovem Aprendiz. Caminho trilhado por Emmelyn.

Há pouco mais de um mês, ela foi contratada por R$ 500 como auxiliar administrativa, o que a ajuda a manter a si e à avó desde que saiu da casa da mãe, grávida do sexto filho.

Emmelyn tem outros cinco irmãos menores, filhos do pai, que se distanciou após se envolver com o tráfico.

O baile extemporâneo é um refresco em uma rotina de sobressaltos, marcada por operações policiais na atual queda de braço entre poder público e traficantes e usuários.

"Depois das últimas batidas, o Moinho está mais calmo", diz Emmelyn. Ela, no entanto, guarda na memória cenas de truculência policial, como a vivida aos 11 anos.

"A polícia entrou na favela tacando bomba. Eu fui pra cima de um policial que estava quase batendo na minha mãe, grávida da minha irmã."

Ela assiste ainda ao drama de pessoas próximas imersas no vício que dá nome à vizinhança. "Tenho um tio e muitos amigos que usam crack."

O passado também deixa suas marcas, em recordações como o incêndio que destruiu a favela em 2015. "Metade do Moinho pegou fogo e nosso barraco junto. Perdemos tudo", lamenta Nathalia.

O relato triste é interrompido para que ela tire uma foto com Larissa Manoela. Na sequência, o papo é de menina. Alguns dos dramas adolescentes do filme, como o primeiro beijo e a popularidade na escola, têm eco entre as "Cinderelas" do centro.

"Meu primeiro beijo foi como no filme. Beijou e tchau. Era um ficante", conta Nathalia, sem namorado para o papel de "príncipe" na valsa. Assim como a debutante da ficção, ela estranhou o look de princesa exigido. "Não gosto de rosa. É coisa de menininha." Mas vai encarar o vestido. "É uma fantasia", resume ela, que sonha em fazer faculdade de educação física.

Já Emmelyn penou para se equilibrar no salto. Identificou-se com a protagonista, que só passa a curtir a festa quando coloca um tênis e tira metade da roupa de gala. "Muita menina tem esse sonho de debutante. Acho legal, mas não era o meu." Apesar do discurso, ela se rendeu: "Agora estou curtindo o vestido, a maquiagem, o anel".

A festa é bancada pela Paris Filme, distribuidora do filme, e por parceiros e voluntários da Novos Sonhos, ONG nascida na Cristolândia, centro de acolhimento ligado à Igreja Batista que atua na cracolândia. "A festa acontece para espantar o baixo-astral e trazer alegria para as meninas neste momento difícil na região", afirma Joana Machado, fundadora da ONG.

Assim como no longa, as 11 debutantes ficaram na dúvida de quem escolher para bailar no Espaço Climbers, na Vila Leopoldina. "Não quis convidar meu ex-namorado. A gente terminou ontem. Gosto dele, mas é muito feio", diz Emmelyn, que escalou um tio.

A maratona do dia de princesa começou às 9h no salão. Às 17h30, elas chegam ao local da festa. É hora de subir no salto e dos últimos retoques. Fazem ginástica para se acomodarem no camarim com suas saias de tule volumosas. Não escondem a ansiedade.

Entram no salão com balões de coração. "Amanhã, a carruagem pode virar abóbora", brinca Taís Tainara de Jesus, a mais falante do grupo. Elas sabem que o sonho tem hora para acabar: 23h30.

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