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TV russa usa carta satírica para notícia falsa sobre ataque a navio dos EUA

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um incidente entre um destróier dos EUA e um avião da Rússia no mar Negro em 2014 foi usado para armar uma notícia falsa neste ano de um ataque cibernético de Moscou contra um navio militar americano.

A trajetória que levou à difusão da notícia falsa foi montada pelo think tank americano Atlantic Council. O incidente é verdadeiro: de fato um avião militar russo sobrevoou diversas vezes o destróier Donald Cook.

Isso ocorreu em 12 de abril de 2014, um mês depois que a Rússia anexou a Crimeia, região autônoma da Ucrânia, no auge do conflito entre os dois países. Na época, o Pentágono e o Kremlin confirmaram a ocorrência.

A nova versão é de que, ao interceptar o navio, as tropas russas atiraram uma arma eletrônica que desativou todos os sistemas da embarcação. A origem foi uma carta satírica de um escritor russo publicada nas redes sociais.

Dias após a interceptação verdadeira, Dmitri Sedov escreveu um texto imaginando como seria a reação de um dos tripulantes do navio -uma carta de um marinheiro chamado de Johnny a sua namorada, Mary.

Nela, o militar diz que a tropa "se preparava para mostrar aos russos o que os esperava se conseguissem colocar as mãos na segunda metade da Ucrânia", em referência ao oeste do país, dominado pelo governo pró-Europa.

E citou uma arma russa que derruba satélites, o Khibiny, como o equipamento que caiu no convés do navio. O texto foi replicado nos últimos três anos por diversas páginas no Facebook em russo e em inglês.

TV RUSSA

Foi em uma dessas páginas, descrita como pertencente a um marinheiro americano, que o canal estatal Rossiya-1 se baseou para fazer uma reportagem em 15 de abril deste ano sobre a interceptação de 2014.

Nela, a emissora afirma que foi atirado do avião russo uma versão do Khibiny para danificar o radar do destróier. No entanto, a própria fabricante do equipamento, KRET, afirma que não é possível desligar o sistema do navio.

A negativa foi publicada em 2015, mas não impediu a emissora de exibir a reportagem. O canal ainda incluiu uma nota apócrifa de Frank Gorenc, ex-comandante da Força Aérea dos EUA na Europa, confirmando a notícia.

Quatro dias depois a reportagem foi publicada pelos tabloides britânicos "The Sun" e "The Daily Star", dizendo que a Rússia tem uma "bomba eletrônica" capaz de paralisar toda a esquadra da Marinha americana.

O primeiro fez uma versão questionando os erros cometidos pela Rossiya-1, chamando a notícia de "uma bizarra reportagem de propaganda", e ouvindo o Pentágono, que negou a existência do comunicado de Gorenc.

A reportagem também foi repercutida no site da TV americana Fox News, como um exemplo da "hiperbólica mídia russa". A partir daí, foi disseminada por sites conservadores e especializados em teorias da conspiração.

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