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Morre em SP o espanhol Belarmino Iglesias, do grupo Rubaiyat

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JOSIMAR MELO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O espanhol Belarmino Iglesias -que morreu nesta terça-feira (30) em São Paulo aos 85 anos de falência múltipla de órgãos, depois de anos de movimentos limitados e sem fala ocasionados por um AVC- chegou ao Brasil em 1951 com pouco dinheiro e muitos sonhos.

O primeiro sonho, o de escapar da miséria na atrasada Galícia onde seus pais trabalhavam a terra alheia e viviam na pobreza camponesa e fazer a América. O que fez, como hoje está patente no pequeno império que construiu a partir do restaurante em que entrou para trabalhar (pedindo uma pequena parcela da sociedade como parte do pagamento) em 1957, o Baby Beef Rubaiyat na avenida Vieira de Carvalho, centro de São Paulo.

O segundo sonho, mais íntimo, ele me contou certa vez com olhos úmidos: ao deixar sua terra natal, prometera à mãe que um dia voltaria para comprar aquelas terras onde sua família vertera tanto suor. O que igualmente realizou. Ao cabo de 40 anos ele se apossou da propriedade na colina que domina sua pequena Rosende, o Pazo de Rivas, tornando-se uma versão moderna do senhor feudal numa Galícia que já não tinha mais o atraso de tantos anos antes, mas que ainda mantinha tradições seculares.

"Señor Belarmino, o cavalo do meu vizinho entrou no meu quintal e comeu duas cenouras, o senhor precisa resolver isso", testemunhei o galego retornado ser assediado por uma moradora do vilarejo, onde passeava. Belarmino escutou com a paciência de um bom médico, assentiu com a consternação de um cura, e prometeu solução com a convicção de um político. Mas com um ingrediente a mais, impossível de ter passado despercebido da velha senhora: um sorriso final confiante, cúmplice e tranquilizador.

Um sorriso sedutor que certamente não economizou ao longo de sua carreira, que -como na de qualquer bom restaurateur- sempre foi ingrediente fundamental a temperar a qualidade da cozinha e do salão.

Iglesias foi um sedutor, ou assim sempre pareceu, por menos que eu tenha me privado de sua vida particular. Mas não parava por aí: entre sorrisos galanteadores e uma prosa deliciosa e rica de histórias, foi um realizador. Apenas cinco anos depois de entrar no Rubaiyat, já tinha comprado a parte dos demais sócios.

Num tempo em que churrascarias vendiam filé-mignon e um genérico corte de alcatra, fincava uma nova tradição oferecendo o coração da alcatra, ali chamado de baby-beef (a renovação voltaria anos depois, quando o mesmo nome passou a designar um corte largo de contrafilé).

Antevendo a migração do circuito econômico da cidade, depois abriu outro ponto na região da Paulista e mais adiante na avenida Faria Lima. Depois uma sociedade em Buenos Aires. Depois uma casa em Madri. Nos Jardins, abriu a Figueira.

Já há tempos com o filho mais velho, também Belarmino, no leme, a marca não parou de se expandir, e depois de ter vendido 70% para investidores espanhóis, em 2012, migrou para Brasília e Rio de Janeiro, e começou a ganhar a América Latina (México, Chile).

Parte das carnes que abastecem o grupo vem de fazenda própria. Boa parte dos funcionários começam a vida profissional no grupo, e ali ficam. Na Galícia, a propriedade rural de Pazo de Rivas passou a devolver à comunidade parte do que a injustiça histórica abateu sobre os locais: virou o epicentro de uma fundação de formação profissional gratuita (que tem o nome de Belarmino Fernandez Iglesias), de administração da água para o vilarejo, de produção de vinhos que ambicionam algum dia colocar o lugar no mapa vinícola da Espanha.

Neste ano Belarmino Filho teve a chance de vender a participação restante do negócio. Mas na última hora decidiu o contrário: comprou de volta os 70% de que a família havia aberto mão e que teve que disputar com um grupo investidor norte-americano.

Isso, poucos semanas antes do último suspiro do galego sedutor. Que bem pode ter sido acompanhado de um último sorriso, já não de galanteio nem de boas-vindas aos clientes, mas de felicidade pela missão cumprida: o garoto conquistou a América, que a ele terminou se rendendo.

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