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Filmes asiáticos equilibram brutalidade europeia em Cannes

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GUILHERME GENESTRETI, ENVIADO ESPECIAL*

CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - A brutalidade une boa parte dos títulos europeus em disputa no Festival de Cannes deste ano: ela aparece na violência psicológica de "The Killing of a Sacred Deer", do grego Yorgos Lanthimos, nas perversidades de "Happy End", do austríaco Michael Haneke, na crueza de "Loveless", do russo Andrey Zvyagintsev, e no humor negro de "The Square", do sueco Ruben Östlund.

Coube aos asiáticos furar essa barreira com a comédia "The Day After", do sul-coreano Hong Sang-soo, e com o melodrama "Radiance", da japonesa Naomi Kawase.

Em seu longa, Hong honra o apelido de "Éric Rohmer da Ásia": seu cinema é calcado em cenas longas, repletas de diálogos e pouquíssimas ações; menos trama, mais foco nas emoções dos personagens.

"The Day After" (o dia seguinte) está ancorado numa trama farsesca. Um editor de livros mantém um caso extraconjugal com uma de suas assistentes. Ao descobrir a traição, sua mulher parte para a vingança, mas toma a nova assistente do marido erroneamente pela ex-amante.

Aos 56 anos, Hong é um dos diretores mais prolíficos em atividade. Esteve na competição do último Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, com "On The Night at Beach Alone", que valeu o Urso de Prata à atriz Kim Min-hee, e três meses depois apresenta dois filmes em Cannes: o outro é "Claire's Camera", fora da disputa.

O diretor explica por que é tão prolífico: começa a filmar sem muito planejamento, com uma breve ideia do que tem em mente, e em poucas locações e com poucas variações no uso da câmera.

"Claire's Camera" é em muitos sentidos o oposto de "The Day After".

A começar, porque mantém com a mostra europeia uma relação metalinguística: traz Isabelle Huppert no papel de uma professora que viaja à cidade de Cannes durante o festival de cinema e acaba se afeiçoando a uma executiva cinematográfica coreana. É também um filme mais solar, que se esbalda na luz mediterrânea da Riviera francesa, enquanto que "The Day After" é monocromático, sisudo.

MELODRAMA JAPONÊS

Luz -ou a falta dela- é um ingrediente central em "Radiance", da japonesa Naomi Kawase, o outro título asiático que faz frente à crueza dos longas europeus. O longa encerrou sua sessão de imprensa sob aplausos entusiasmados dos jornalistas.

A diretora de "O Segredo das Águas" (2014) e "O Sabor da Vida" (2015) retorna a Cannes pela sétima vez, agora com a história do envolvimento entre uma mulher responsável por fazer a audiodescrição de filmes para espectadores cegos e um fotógrafo que está perdendo a visão.

Kawase disse que pensou no mote do filme ao se dar conta do trabalho de audiodescritores em um outro filme seu. "Como eles têm de traduzir sentimentos para pessoas que não conseguem enxergar acabam adquirindo toda uma nova sensibilidade para perceber os filmes", disse.

"Radiance" abre o leque de uma constante temática na obra de Kawase: as diferentes formas de comunicação. Com essa trama e personagens com essa condição, afirmou a diretora, "eu podia falar de amor ao cinema."

*O jornalista GUILHERME GENESRETI se hospeda a convite do Festival de Cannes

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