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ATUALIZADA - Doria diz que 'cracolândia acabou', mas usuários de drogas persistem

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ROGÉRIO PAGNAN E PAULO GOMES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após a megaoperação policial do governo Alckmin (PSDB) na manhã deste domingo (21), o prefeito João Doria (PSDB) anunciou o fim do programa Braços Abertos, da gestão de seu antecessor, Fernando Haddad (PT), e disse que a cracolândia "é passado".

"A cracolândia aqui acabou, não vai voltar mais. Nem a prefeitura permitirá, nem o governo do Estado. Essa área será liberada de qualquer circunstância como essa. A partir de hoje [domingo], isso é passado", disse o prefeito enquanto caminhava pelo antigo "fluxo", onde funcionava a feira livre das drogas.

Depois da ação policial e da visita de Geraldo Alckmin e João Doria à região, porém, os dependentes químicos seguem espalhados pelas ruas do entorno no início da tarde deste domingo. Por volta das 13h, a maior concentração era em um posto de gasolina na esquina da rua Helvétia com a avenida Rio Branco, com cerca de cem usuários.

O comércio e consumo de crack ocorria de maneira irrestrita no local. A menos de cem metros, a Tropa de Choque da PM bloqueava o acesso à rua Helvétia, onde equipes da prefeitura seguiam recolhendo os entulhos.

A reportagem presenciou a venda de crack em ao menos outros dois locais da região, na rua Aurora e mais à frente da avenida Rio Branco, em frente à praça Princesa Isabel –em ocasiões distintas, policiais em carros e motos da Tropa de Choque chegaram a passar lentamente observando a movimentação, sem no entanto fazer qualquer abordagem.

Doria decretou o fim do programa social de Haddad, como já havia anunciado que faria, mas manterá ações do projeto extinto, como auxílio ao dependente químico com emprego, moradia e redução de danos, sob o guarda-chuva de um novo programa, batizado Redenção.

"Não haverá mais pensão ou hotel, nenhuma acomodação desse tipo. Toda a área sofrerá uma amplo projeto de reurbanização", disse Doria.

"Haverá a interdição imediata de todas as pensões e hotéis. Serão bloqueados hoje [domingo]. Na sequência, derrubados. Serão demolidos. O mais rápido possível. Serão demolidos, essa área será reestruturada urbanisticamente com prioridade para habitação popular", completou o tucano.

INICIATIVA

Apesar de o prefeito capitalizar a ação na cracolândia, ela foi quase que exclusivamente desenvolvida nesta manhã pelas secretarias de Segurança e Saúde da gestão Geraldo Alckmin (PSDB). Esse protagonismo de Doria gerou descontentamento entre integrantes do governo estadual.

A participação da prefeitura na ação teve início após a saída das polícias civil e militar, de responsabilidade do Estado. A guarda municipal tentará evitar o retorno dos traficantes ao local.

Em sua fala sobre a cracolândia, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi mais comedido do que o prefeito em falar sobre o fim da feira livre de drogas no local. Disse que a ação policial hoje é o "primeiro passo".

"O trabalho policial é um trabalho que não termina. O problema da droga não é uma coisa simples. Você tem uma questão crônica que precisa ser enfrentada pela polícia, pela área social e pela saúde." Alckmin enalteceu a parceira com a prefeitura e não deixou de atacar o programa anterior, de Haddad, naquela região.

"Acho que a intenção até foi boa, mas o fato de você ter hotel e pensão, e dar dinheiro, mesada para as pessoas, acabou piorando. Por que você concentrou. E o armamento que a gente apreendeu foi em hotéis e pensões", disse Alckmin.

O secretário estadual de Saúde, David Uip, que também acompanhou a operação neste domingo com equipes de saúde, disse que a situação na região estava crítica.

"Eu tive dificuldades de chegar ao prédio do Recomeço. Eu fui ameaçado, as pessoas só me deixaram entrar quando souberam que eu era da Saúde. Nós, Saúde, e Desenvolvimento Social, estávamos com enorme dificuldade até em abordar e tratar as pessoas naquela região, não era permitido. Até um enfermeiro teve o carro queimado. Não estava dando, estava muito difícil. Agora, com a operação, vamos poder trabalhar naquilo que realmente interessa, que é recuperar os usuários de drogas, que precisam ser tratados e vistos como pacientes."

Como balanço da ação da manhã deste domingo (21), que envolveu cerca de 900 policiais, helicópteros e bombas na região da cracolândia, o prefeito elogiou: "sem vítimas, sem violência, com muita eficiência da força policial". Foram presas 38 pessoas, 28 delas no chamado "fluxo".

Segundo o secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, a região será revitalizada e será feito policiamento ostensivo para evitar que os dependentes químicos voltem a ocupar as ruas da área. "Será feito o acolhimento e eles serão enviados para os centros de tratamento", disse.

Ainda segundo o secretário, os hotéis que servem como base para o tráfico na alameda Dino Bueno serão demolidos.

"Eles [traficantes e dependentes químicos] não vão voltar pra cá", disse o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, Filipe Sabará. Os usuários de crack que estavam na região no momento da ação policial seguem espalhados no entorno.

Apesar de inicialmente a gestão Doria ter afirmado que a demolição dos imóveis na cracolândia começaria já às 14h, posteriormente foi informado que apenas dois muros na alameda Dino Bueno seriam derrubados deste domingo. Os muros, já no chão, serviam como paredes falsas para ocultar esconderijos de drogas, conforme informou a assessoria de imprensa do governo municipal.

Não foi especificado quando terá início a demolição dos hotéis utilizados para o tráfico de drogas na alameda, ainda que Doria tenha dito que ela ocorreria "o mais rápido possível". A Guarda Civil Municipal segue bloqueando o retorno dos dependentes químicos ao trecho da Dino Bueno onde havia o fluxo de usuários.

Morador da região central, Fábio Fortes, membro e ex-presidente do Conseg (Conselho de Segurança) da Santa Cecília, critica a decisão da prefeitura de demolir os prédios no entorno da cracolândia. "Vai criar terrenos baldios perigosos", diz ele, reivindicando manutenção de ação que envolva várias secretarias, como saúde, segurança e assistência social.

Em nota, a gestão Haddad atacou as declarações do governador, acusando a polícia de conivência com o tráfico.

"A gestão Haddad tem dúvidas se o governo do Estado de São Paulo terá condições de conter a corrupção que o assola. Assim como acontece com as estatais estaduais que seguem sem ser investigadas (Dersa, Metrô e CPTM), a gestão anterior entende que a Polícia Civil continuará com suas ações irmanadas ao tráfico na área central da cidade. Por quatro anos consecutivos a gestão anterior pediu uma ação efetiva de combate ao tráfico e não foi atendida. Atribuir ao programa Braços Abertos responsabilidade pelo tráfico é covardia."

TROCA DE PLACA

Entre o fim da operação policial e a chegada do governador e do prefeito, o secretário Filipe Sabará retirou, com um funcionário da prefeitura, a placa que identificava a tenda do Braços Abertos para atendimento a usuários de drogas na cracolândia. A ideia de Doria é dar nova roupagem a ações sociais voltadas a dependentes químicos da região.

A hospedagem e a remuneração por trabalhos como varrição serão preservadas, desde que os usuários se comprometam a fazer tratamentos de desintoxicação ligados ao Recomeço, programa da gestão estadual, de seu correligionário Geraldo Alckmin.

Os programas da prefeitura da cidade e do Estado para dependentes de crack se notabilizaram nos últimos anos por terem princípios conflitantes.

O Recomeço, criado em 2013 por Alckmin, propõe tratamentos por internação, às vezes involuntária, e passagens por comunidades terapêuticas.

Já o de Haddad, do início de 2014, preconizava a redução de danos: o dependente deve diminuir o consumo das drogas enquanto aumenta sua autonomia, por meio da oferta de emprego e moradia, muitas vezes na própria região. O programa de Haddad foi regulamentado por decreto em 28 de abril de 2014. O decreto deve ser revogado em breve, bem como um novo deve ser publicado para o programa Redenção, de Doria.

Apesar de avanços lentos e pontuais, ambas as ações de Alckmin e Haddad vinham sendo alvo de críticas, pela impressão de que mesmo com eles, pouco mudou na ocupação do centro de São Paulo por usuários e traficantes de crack.

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