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Na Arábia, Trump insta líderes muçulmanos a 'expulsar' terroristas

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ISABEL FLECK

WASHINGTON, ESTADOS UNIDOS (FOLHAPRESS) - Diante de líderes de mais de 50 países onde muçulmanos são a maioria ou grande parte da população, o presidente Donald Trump cobrou a responsabilidade do grupo em combater o terrorismo e o instou a "expulsar" os terroristas de suas comunidade e do mundo.

"Expulsem-nos dos seus lugares de oração, expulsem-nos de suas comunidades, expulsem-nos de sua terra sagrada, expulsem-nos desta Terra", disse.

No discurso de pouco mais de 33 minutos, feito em Riad ao lado do rei saudita, Salman, Trump adotou um tom de aproximação com os muçulmanos "decentes" e falou que a luta contra o terrorismo é uma "batalha entre o bem e o mal".

"Esta não é uma batalha entre diferentes religiões, seitas ou civilizações. Esta é uma batalha entre criminosos bárbaros que querem destruir a vida humana e pessoas decentes de todas as religiões que querem protegê-la", afirmou.

Trump afirmou que sua meta é criar uma "coalizão de nações que compartilham o objetivo de eliminar o extremismo". No entanto, ele disse em outro momento que os países presentes ali "não podem esperar que o poder americano vá esmagar esse inimigo por elas".

"As nações do Oriente Médio terão que decidir que tipo de futuro querem para si, para os seus países e para os seus filhos", afirmou. "Só podemos superar esse mal se as forças do bem estiverem unidas e fortes - e se todos nesta sala compartilharem e assumirem sua parte diante deste fardo."

Segundo ele, os líderes religiosos devem deixar "absolutamente claro" a seus seguidores que "a barbárie não lhe dará a glória, que a piedade com o mal não lhe dará dignidade" e que se o fiel "escolher o caminho do terror, sua vida estará vazia, sua vida será breve e sua alma será condenada".

"Toda vez que um terrorista mata uma pessoa inocente e invoca falsamente o nome de Deus deveria ser um insulto para toda pessoa de fé", disse.

'EXTREMISMO ISLÂMICO'

Uma das dúvidas sobre o discurso era se Trump usaria o termo "terrorismo radical islâmico", considerado ofensivo e citado vários vezes pelo republicano desde a campanha -inclusive na semana passada.

Segundo a imprensa americana, havia um cuidado na revisão do texto -escrito por Stephen Miller, o mesmo assessor que redigiu os dois decretos assinados por Trump proibindo a entrada de cidadãos de países de maioria muçulmana no país- para que o termo não fosse incluído e para que o presidente adotasse "extremismo islamista".

Trump, no entanto, falou em seu discurso de domingo em "extremismo islâmico" e "terror islâmico".

"Há tanto trabalho a ser feito. Isso significa honestamente combater a crise do extremismo islâmico, e os islamistas e o terror islâmico em todas as suas formas", disse.

Trump também aproveitou o discurso, na Arábia Saudita, que tem o Irã como principal inimigo na região, para condenar Teerã por ajudar o regime de Bashar al-Assad a cometer "crimes indescritíveis".

"Do Líbano, ao Iraque e ao Iêmen, o Irã tem financiado, armado e treinado terroristas, milícias e outros grupos extremistas que espalham o caos e a destruição pela região", disse o americano.

Em outro momento, ele sugeriu que não pensa em intervir na Síria. "Seremos guiados por lições da experiência, não pelos limites do pensamento rígido. E, onde for possível, buscaremos reformas graduais, não intervenções súbitas", disse, numa aparente referência à experiência da intervenção na Líbia, durante o governo Obama, que levou à queda do ditador Muammar Gaddafi, mas que não tirou o país do caos.

OBAMA

As comparações do discurso de Trump com o de Barack Obama aos muçulmanos, feito também nos cinco primeiros meses de seu governo, só que no Egito, começaram antes mesmo de o republicano começar a falar.

Apesar de Trump -que defendeu durante toda a campanha uma completa proibição à entrada de muçulmanos nos EUA e que, como presidente, assinou decretos vetando temporariamente cidadãos de países de maioria muçulman- ter estendido a mão aos muçulmanos "de bem", o tom das falas foi bem diferente.

Obama citou o Corão, reconheceu a "dívida da civilização com o Islã" e falou que nenhum discurso poderia "erradicar anos de desconfiança". O objetivo do discurso foi estabelecer "um novo começo" nas relações entre os EUA e o mundo muçulmano.

Já Trump começou seu discurso citando os acordos comerciais fechados na véspera com a Arábia Saudita e -apesar de dizer que não queria "dar lições"- passou boa parte de sua fala destacando a responsabilidade dos líderes muçulmanos no combate ao terrorismo.

A audiência também era diferente. Ao contrário de Obama, que falou a estudantes e ativistas na Universidade do Cairo, em 2009, Trump teve uma plateia essencialmente formada por membros de regimes africanos e do Golfo -e em que as mulheres presentes podiam ser contadas nos dedos.

Dos seis países cuja entrada de cidadãos está previsto no último decreto de Trump barrado na justiça, quatro foram convidados para a cúpula deste domingo: Iêmen, Líbia, Sudão e Somália.

O presidente do Sudão, Omar al-Bashir, decidiu não participar da reunião.

Irã, o "maior patrocinador do terrorismo", segundo Trump, e inimigo número um da Arábia Saudita ficou de fora do evento, junto com a Síria de Assad.

ENCONTROS

O discurso ocorreu após uma série de encontros bilaterais com líderes de países do golfo Pérsico -Bahrein, Qatar, Omã e Kuait- e com o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi.

Com o emir do Qatar, Tamim bin Hamad al Thani, o presidente americano disse que um dos temas da discussão seria a "compra de muitos equipamentos militares lindos", "porque ninguém faz esses equipamentos como os EUA". "E para nós isso significa empregos, e também significa grande segurança aqui, o que queremos", afirmou Trump.

A Sisi -que já foi recebido pelo republicano na Casa Branca-, o presidente disse que irá "em muito breve" ao Egito e elogiou seus sapatos.

Em troca, recebeu do colega egípcio -contestado em todo o mundo por seu regime autoritário- outro elogio: "Você é uma personalidade única que é capaz de fazer o impossível".

"Eu concordo", respondeu Trump, arrancando risadas dos presentes.

Em todas as conversas, além do secretário de Estado, Rex Tillerson, esteve presente o genro e assessor do presidente, Jared Kushner.

Depois, Trump participou de um encontro com os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo -Arábia Saudita, Bahrein, Kuait, Omã, Qatar e Emirados Árabes Unidos.

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