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Pavilhão do Brasil evoca país hostil e sombrio

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SILAS MARTÍ, ENVIADO ESPECIAL

VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Lembra uma sala vazia. À primeira vista, o pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza é um cubo branco virado do avesso, atravessado de fora a fora por um piso metálico inclinado, que força o espectador a se curvar sob a viga de concreto que sustenta o prédio. Lá no fundo, mais uma grade filtra a visão do horizonte.

Cinthia Marcelle, artista que representa o Brasil e venceu uma menção honrosa por seu trabalho na mostra italiana, transformou a arquitetura modernista de Giancarlo Palanti e Henrique Mindlin nos Giardini numa espécie de presídio acinzentado.

Limpeza e austeridade se rebelam para emoldurar um espaço instável, de choque e tortura. Nos vãos das grades no chão, as mesmas pedras brancas que cobrem o lado de fora do prédio estão enfiadas à força, um elemento orgânico que distorce a matriz geométrica da arquitetura moderna.

Marcelle evoca todo o repertório do neoconcretismo ao provocar um embate do corpo com a suposta neutralidade de uma arte criada num contexto urbano e industrializado, com a diferença de que a liberdade do corpo dionisíaco de Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica aqui passa pelo prisma de uma violência atualíssima.

Ela, que diz ter pensado o pavilhão como um "terreno baldio, onde tudo pode acontecer sem recalques morais, sem culpas", de fato, está em sintonia com o pensamento de Oiticica e dos situacionistas que inspiraram o artista.

Mas sua instalação atinge outra frequência ao se tornar uma alegoria ou espelho torto do Brasil da ameaça aos direitos sociais, de rebeliões nos presídios e massacres de índios.

Bandeiras brancas, na verdade tecidos de listras pretas apagadas pela artista, tremulam em sarrafos fincados no chão, ecoando a imagem de homens acampados num telhado que surge num vídeo, também no pavilhão, algo entre um naufrágio e uma rebelião.

Das mais fortes representações do Brasil em Veneza na última década, a obra de Marcelle é um retrato contundente e sutil do caos que domina o país, uma constante tão fincada na nossa memória quanto a potência do neoconcretismo.

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