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Bienal de Veneza reúne trabalhos que ignoram dramas atuais e revisitam utopias hippies

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SILAS MARTÍ, ENVIADO ESPECIAL

VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Uma mulher dorme, indiferente à multidão, na entrada da Bienal de Veneza. Sua cama está rodeada de mesas com esboços e cadernos -Dawn Kasper, a artista que cochila, levou seu ateliê inteiro à mais tradicional mostra de arte do mundo, dando a entender que a obra é menos algo físico e mais uma rotina.

Mais adiante, numa espécie de fábrica-performance, quase cem refugiados da Síria, da Nigéria e de Gâmbia trabalham o tempo todo, montando luminárias desenhadas pelo dinamarquês Olafur Eliasson, em contraste gritante com o ócio da americana. Ócio e negócio, aliás, estão nas duas pontas do espectro desta Bienal feita "com os artistas, pelos artistas e para os artistas", nas palavras da francesa Christine Macel, que organizou a 57ª edição da mostra mergulhada no escapismo.

Dramas candentes da atualidade, da crise dos refugiados expostos no quase zoológico de Eliasson às guerras que destroçam lugares não muito distantes da deslumbrante cidade dos canais, estão ausentes dos trabalhos, quando não passam de alvos de alusões um tanto vagas.

"Arte não é um jeito de mudar o mundo. Não tem o papel de sanar seus problemas", diz Macel, em defesa da exposição em cartaz até novembro. "É uma forma de imaginar outra vez o mundo."

Nesse universo paralelo, aliás, não faltam delírios datados ou um tanto ingênuos. As primeiras salas do Arsenale, maior pavilhão da Bienal de Veneza, pisam e repisam a ideia da costura como metáfora de cura — não do mundo, mas de traumas íntimos.

Lá estão trabalhos do taiwanês Lee Mingwei, que faz remendos nas roupas dos espectadores, da italiana Maria Lai, que bordou mapas e livros com linha e agulha, e do filipino David Medalla, que convida o público a costurar cartões de visita numa rede, criando uma espécie de colcha de retalhos da memória.

Esses bordados atingem escala máxima na enorme tenda de crochê criada por Ernesto Neto. Um dos quatro brasileiros na mostra principal, ao lado de Ayrson Heráclito, Erika Verzutti e Paulo Bruscky, ele levou índios do Acre para ocupar o espaço nos dias de abertura da mostra — um eco da visão dos refugiados trabalhando no pavilhão ao lado.

"O problema que temos no mundo é espiritual", dizia Neto, dentro da cabana. "Poderia mostrar fotos de índios massacrados aqui, mas não era a intenção. Estamos trazendo a força da floresta."

Outras forças de outras florestas, rios e montanhas ancoram ainda uma série de obras. Há um excesso de conchas, pedras e ossos de bichos — um turbilhão de natureza arqueológica, que revela a nostalgia de uma Bienal obcecada por utopias hippies.

Há ainda arquivos e registros de ações de grupos como o esloveno OHO, da americana Anna Halprin, do argentino Nicolás García Uriburu, que tingiu de verde fluorescente os canais de Veneza há 50 anos, do performer húngaro Tibor Hajas, do coletivo japonês The Play, entre outros que, na década de 1960, tentavam desestabilizar o mundo da arte dando ênfase ao corpo e seus embates com o espaço natural e construído.

Mas essa potência ficou no passado. As obras do presente criadas para o resto da mostra parecem se estruturar em monumentalidades vazias.

Mesmo quando dotados de plasticidade arrebatadora, caso do labirinto de espelhos da polonesa Alicja Kwade e da instalação da portuguesa Leonor Antunes, que recriou em enormes cortinas metálicas elementos da arquitetura do modernista italiano Carlo Scarpa, esses trabalhos parecem introvertidos, sem diálogo muito nítido com o que está ao redor.

Essas quebras de ritmo acabam dando cara de feira de arte à mais tradicional mostra do planeta, que se torna uma sucessão de obras desconexas disputando a atenção — Macel, no caso, dividiu a exposição de acordo com temas amplos e vagos, como a Terra, medos e até cores, lembrando a lógica de uma loja de departamentos.

EXPLOSÕES KITSCH

Fora lampejos isolados de delicadeza, tudo lembra um desfile — carnavalesco — mal ajambrado. São explosões kitsch como o mural de pompons lisérgicos da americana Sheila Hicks, melhor cenário para selfies da mostra, a gruta em forma de vagina da francesa Pauline Curnier Jardin e o monumento de alumínio da russa Irina Korina, que lembra uma árvore de Natal.

O excesso, no entanto, vira uma arma nos poucos trabalhos mais políticos da Bienal. Petrit Halilaj, jovem artista de Kosovo, criou estranhas fantasias de mariposas espalhadas pelo chão e escalando as paredes do Arsenale, uma alusão à fuga dele e de sua família da guerra em seu país.

Numa enorme projeção, o americano Charles Atlas alude a outros conflitos no horizonte dos Estados Unidos de Donald Trump, mostrando uma coleção de imagens do pôr do sol, bonitas e ao mesmo tempo cafonas, ao som de um discurso sobre a discriminação e o impacto de políticas de austeridade. Quando o dia escurece, a drag queen Lady Bunny aparece no vídeo cantando hits da música disco.

"É um lamento pelo fim do mundo", diz o artista. "Mas um fim do mundo que pode terminar com algo alegre."

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