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ATUALIZADA - 'Foi marcante na minha infância', diz Chico Buarque sobre Candido

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Coerência entre pensamento e a prática que se perdeu muito no mundo contemporâneo. Acho que é o momento de pensar que já tivemos gente muito boa neste país, que trabalhou para construir um país democrático, de pensamento igualitário", afirmou Marina de Mello e Souza sobre a morte do seu pai Antonio Candido, nesta sexta-feira (12).

"Onde as pessoas fossem íntegras e generosas, que pensassem no bem comum, ele era uma pessoa que pensava no bem comum acima de tudo, e nesse momento em que a gente vive, não só no país como no mundo, uma situação de extremo retrocesso e de valores e bens que são muito diferentes do humanismo, ele era um humanista acima de tudo. É importante lembrar que teve gente que dedicou a carreira e o trabalho para construir uma sociedade e mundo melhor", refletiu Marina.

Amigos e colegas de profissão lamentam a sua morte, leia:

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Chico Buarque, filho de Maria Amélia Buarque e Sergio Buarque de Holanda, autor de "Raízes do Brasil", afirmou que o crítico literário é um "intelectual de imensa cultura, homem tão sério quanto engraçadíssimo, Antonio Candido foi o melhor amigo dos meus pais e presença marcante na minha infância".

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Lygia Fagundes Telles, escritora e amiga de Candido, lamentou sua morte: "o Brasil perde o intelectual, o crítico, o escritor (excelente escritor!), o professor, o mestre. Em um momento tão duro como o que passamos, essa despedida é ainda mais triste" e completou que "eu perco o amigo, um grande amigo de toda a vida, de muitas parcerias, um amigo fiel e querido. Uma tristeza enorme sinto hoje".

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu site oficial, prestou homenagem ao crítico literário e afirmou que tem orgulho de ter convivido com ele.

"O Brasil perdeu hoje mais do que um dos maiores intelectuais da nossa história. Perdemos um ser humano excepcional, que dedicou sua vida à cultura, à democracia e à justiça social. E o fez com excelência em todos os campos. Foi um corajoso adversário de qualquer tipo de autoritarismo e já nos anos 40 fundou a União Democrática Socialista. Lutou contra a ditadura militar e durante toda sua vida se manteve fiel aos ideais da esquerda democrática. Não foi apenas fundador do PT, foi militante cotidiano do partido, um petista sempre presente no bom combate em defesa do desenvolvimento nacional. Participou da elaboração de programas de governo, viajou o país e teve uma importantíssima atuação a favor da transformação social e do direito dos trabalhadores", escreveu.

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Procurado pela reportagem, Raduan Nassar disse que daria um breve depoimento: "Espantosa sua lucidez".

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A ex-presidente Dilma Rousseff também prestou homenagem ao crítico em seu site oficial. "É importante falar de Antônio Candido e mencionar seu estratégico papel na formação intelectual de milhões de brasileiros, como crítico literário, professor e homem de forte e justas convicções, que esteve permanentemente posicionado na defesa da democracia e comprometido com a luta em favor do povo brasileiro", escreveu.

"Estamos imensamente pesarosos todos nós que, há décadas, militamos pela redução das desigualdades e pela busca por uma sociedade mais justa. Este é um dia de perda, particularmente triste, porque atravessamos um período duro e de permanente ameaça à democracia e perdemos um homem que nos fará imensa falta. Serei eternamente grata a Antonio Candido por ter se colocado contrário ao processo de impeachment sem crime de responsabilidade. Manifesto os meus mais profundos sentimentos de respeito e gratidão às filhas, aos familiares, parentes e amigos desse grande brasileiro, um dos maiores pilares culturais do Brasil", lamentou Dilma.

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Para o crítico literário Roberto Schwarz, a perda de Candido "nos deixa mais sós" e o compara a um "santo moderno". "A inteligência, a retidão, a dedicação ao estudo e à vida de professor, bem como o compromisso com os oprimidos, fizeram de Antonio Candido algo como um santo moderno. Sei que ele, que era um intelectual perfeitamente ateu e tinha horror a qualquer espécie de culto à personalidade, ficaria furioso com essa caracterização. Mas penso que ela se aplica", explica.

Segundo Schwarz, o essencial da obra de Candido foi publicado há mais de 50 anos e até hoje conserva a força, "além do frescor da escrita".

"'Formação da literatura brasileira' tornou-se um modelo com virtualidades latino-americanas, africanas e talvez norte-americanas, ligadas a situações de descolonização. Os ensaios clássicos sobre 'Dialética da malandragem' e 'O cortiço', em que a matéria brasileira é confrontada com formas e conceituações internacionais, estabeleceram um patamar novo em nossa crítica. Como tratam de romances sem projeção mundial, a sua posição de ponta não foi devidamente registrada. Com alguma sorte, o reconhecimento virá e eles farão parte das antologias da melhor crítica do século XX", reconheceu o crítico.

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"Morreu um grande mestre. Morreu o mestre do Brasil", lamentou a escritora e membro da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon.

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Celso Lafer, amigo de Candido e membro da Academia Brasileira de Letras, reconheceu que o crítico literário "praticou com rara sensibilidade e cultura uma crítica de vertentes adequada à natureza de cada texto. Textos translúcidos, que parecem reproduzir a realidade como os romances de Zola e Aloísio de Azevedo, exigem uma aproximação distinta da de textos opacos como os de Kafka e de Buzzati. É o que desvenda no seu paradigmático 'O Discurso e a Cidade'".

De acordo com Lafer, a literatura para Candido é "uma atividade sem sossego: confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate; não corrompe nem edifica mas trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza no sentido profundo porque faz viver." "Daí para ele o papel da literatura e da arte na formação e aperfeiçoamento do ser humano. Daí a importância da liberdade de manifestação artística. Foi com base nestes pressupostos que refletiu e defendeu o direito à literatura como acesso igualitário aos bens imateriais que respondem às necessidades profundas do ser humano".

Lafer também reflete que o crítico "foi igualmente uma grande presença de mestre na vida brasileira pela limpidez de sua conduta ética, um mestre que se caracterizou, como observou Afonso Arinos por uma 'tolerância sem concessões' e uma 'firmeza sem rusticidade'".

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Augusto Massi, ensaísta, editor e professor, enalteceu a humildade de Candido, "ele não esmagou ninguém à sua volta, fez todo mundo encontrar uma dicção própria e pessoal: Davi Arrigucci, João Luiz Lafetá, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, Walnice Nogueira Galvão, entre tantos outros".

"É isso que eu chamo de espírito democrático: era alguém capaz de dialogar com os outros, fazer com que o outro leve adiante o seu trabalho. Foi um intelectual inclusivo. Ele tinha visão política agregadora. Num arco bastante amplo, soube manter relação com pessoas que pensavam diferente dele", reiterou.

De acordo com Massi, assim como os grandes escritores, Candido tinha "essa disposição de conversar, de perguntar, de contar histórias. Fazia isso com desenvoltura, naturalidade e humor. Podia ser tanto numa conferência, num ensaio ou, de certa forma, como praticou no final da vida, conversando e recebendo amigos e alunos em seu apartamento. A geração de críticos que ele formou é impressionante".

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A senadora Marta Suplicy postou no Twitter sobre a morte do crítico literário. "Hoje, perdemos Antonio Candido, aos 98 anos. Emérito Professor da USP e um dos maiores críticos literários do país", escreveu.

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O vereador Eduardo Suplicy também expressou condolências à morte de Candido e postou uma carta escrita pelo crítico em seu Facebook. "Me solidarizo com familiares e amigos e o homenageio com uma das suas mais belas reflexões: Uma sociedade ideal seria assegurar não só os meios materiais de vida, mas assegurar o acesso a todos os níveis de literatura", escreveu Suplicy.

Em carta de 2015, o crítico lamenta que na época Suplicy não foi reconduzido ao Senado e afirma que o atual vereador foi "por tanto tempo um exemplo pouco frequente de dedicação firme e serna aos verdadeiros interesses populares."

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José Miguel Wisnik, ensaísta e professor, resumiu o crítico literário com "inteligência esclarecida, pessoa admirável e encantadora, memória cristalina e vivida do século inteiro, iluminou o entendimento da literatura como um bem civilizatório."

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Crítica literária e professora, Flora Sussekind afirmou à reportagem que "é do Candido que vem toda a crítica moderna brasileira. Sempre escrevi olhando para ele, tenho a impressão que tudo que tenho tentado fazer até hoje tem sido em diálogo com o trabalho dele. Num momento em que a dimensão historiográfica estava meio posta de lado, foi o estudo da obra do Candido que me parece ter conduzido não só a mim mas a outros críticos da minha geração nessa direção – lembro de muitas discussões com o Roberto Ventura, por exemplo, sobre a 'Formação da Literatura Brasileira'."

Ainda de acordo com Sussekind, "para mim é fundamental a trajetória intelectual do Candido -a firmeza, a coragem e a dignidade com que ele nunca deixou de tomar posição diante da circunstância histórica."

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Leyla Perrone Moysés, professora e escritora, afirmou que o crítico literário era um exemplo de civilidade e "sobraram poucos como ele". "Antonio Candido foi e continua sendo um modelo para todos nós, pela sua vasta cultura, pela sua sensibilidade estética e por sua postura ética. É uma grande perda para a cultura brasileira. O contato com a obra e com a pessoa sempre foi enriquecedor."

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Para o escritor José Arthur Giannotti, o crítico literário é uma das figuras que marcou "a nossa geração". "Ele deu toda uma visão geral do que é a cultura brasileira. A obra dele é basicamente ter pensado a literatura brasileira como um todo que se organiza em torno de determinados personagens maravilhosos, como Machado de Assis. Tenho enorme admiração, aprendemos muito juntos, apesar das divergências políticas. Tenho opiniões políticas muito mais, digamos, conservadoras. Ele continuou fiel à esquerda populista."

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Artista plástico e escritor, Nuno Ramos contou que seu pai Vitor Ramos, professor da USP, era um grande amigo de Antonio Candido e "morreu de um AVC súbito enquanto conversava com o Candido pelo telefone. Eu tinha 14 anos quando isso aconteceu e cresci sob essa admiração."

"Sempre achei impressionante que o Candido escrevia muito do ponto de vista da memória. Memória no sentido de fazer justiça ao tempo. Ele era uma espécie de justiceiro da cultura. Alguém que buscava fazer justiça a nomes esquecidos. Cansei de ouvir o Candido lembrar de uma obra que ninguém mais se recordava, de um intelectual esquecido. Morreu um homem admirável, sem dúvida", afirmou o escritor.

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Em comunicado, o presidente da Câmara Brasileira do Livro, Luis Antonio Torelli afirmou que "Antonio Candido foi pai de grandes obras que refletiam e discutiam a cultura e literatura brasileira, como 'Método crítico de Silvio Romero', 'Formação da literatura brasileira' e 'Literatura e sociedade'. Que seu conhecimento e produção intelectual continuem desenvolvendo críticos literários como ele".

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O ex-ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse em nota que recebe com profunda tristeza a informação sobre a morte de Antonio Candido. "Além de ter uma presença marcante na crítica literária, Antonio Candido é um dos fundadores do PT e sempre esteve ao lado da democracia e das lutas populares. Sua memória sempre estará presente em nossas lutas e sonhos. Neste momento de dor, deixo minha homenagem e solidariedade aos familiares e amigos."

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De acordo com a ex-prefeita Erundina e deputada federal, o crítico literário morreu lúcido, "falando das coisas, pensando no país, pra nós sempre será uma inspiração." "Nos éramos muito amigos, nos momentos críticos, polêmicos e de grandes decisões a gente sempre recorria a ele para conselhos. Ele era um companheiro, nos formou politicamente. Vai ser sempre um grande companheiro, sonhamos juntos e acreditamos nas mesmas coisas juntos, ele foi um grande pensador brasileiro".

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"Ele é uma grande referência para todos os estudantes de letras. Ele foi muito importante por tudo que ele representa pra nossa área de estudo, ele é uma parte de todos nós. Ele revolucionou a forma de entender a literatura do Brasil, ele ajudou a traduzir o Brasil", escreveu o diretor do centro acadêmico da FFLCH, Kyo Kobayashi.

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