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Cineastas deixam festival Cine PE em protesto contra filmes 'de direita'

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GUILHERME GENESTRETI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao menos sete cineastas anunciaram nesta quarta (10) a retirada de seus filmes da programação do festival Cine PE, previsto para acontecer a partir de 23/5, no Recife.

O ato é um protesto contra o que consideram um "discurso partidário alinhado à direita" na escolha dos filmes. Eles se referem à inclusão de "O Jardim das Aflições" e de "Real -O Plano por Trás da História" na programação.

"O Jardim das Aflições", dirigido pelo pernambucano Josias Teófilo, é um documentário centrado na figura do filósofo conservador Olavo de Carvalho.

"Real", que vai ser exibido fora da seção competitiva, é uma ficção de Rodrigo Bittencourt que remonta a criação do Plano Real durante a gestão de FHC no Ministério da Fazenda.

"Não imaginei que a seleção do festival fosse dar espaço a filmes claramente alinhados a uma direita extremista", diz Arthur Leite, diretor do curta "Abissal" e um dos cineastas que pediram para ter as obras retiradas da programação. "Não quero ter meu nome e meu filme associados a essas obras nesse momento tão anormal e sensível em que vivemos."

Além dele, outros seis realizadores pediram para deixar o festival, incluindo Petrônio Lorena, diretor do longa "O Silêncio da Noite é que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras".

Somam-se a ao coro e também anunciaram a retirada os seguintes curtas-metragens: "A Menina Só", "Baunilha", "Iluminadas", "Não me Prometa Nada" e "Vênus-Filó, a Fadinha Lésbica".

A reportagem entrou em contato com a organização do festival, mas ainda não obteve resposta.

Procurado, Josias Teófilo comentou o protesto. Segundo ele, exite uma "proibição tácita de se fazer um filme sobre Olavo de Carvalho".

"A coisa vinha na surdina. Agora fica evidente: existe censura ideológica no cinema brasileiro", diz. "Como ficou claro no manifesto que eles fizeram, não pode existir debate com um conservador -o debate só pode se dar entre esquerdistas."

Ele completa: "Curioso é que o filme não é político, muito menos conservador, e um dos temas é exatamente a tirania da coletividade sob a individualidade humana".

ALFREDO BERTINI

Esse não é o único entrave que enfrenta a atual edição do festival. A mostra também recebeu críticas no meio audiovisual por ter incluído em sua programação dois filmes que não são inéditos na seção competitiva.

Enquanto "Los Leones" passou no Cine BH em 2016, "O Crime da Gávea" já estreou até no circuito comercial.

Diretora do Cine PE, Sandra Bertini diz que os longas podem ou não ser inéditos. "O ineditismo é apenas um critério relevante para a seleção." Ela reforça que ambos os longas são inéditos ao menos no Nordeste.

Sandra assumiu a direção do festival quando o seu marido, Alfredo, tomou posse como secretário do Audiovisual na gestão Temer.

No cargo, responsável pelo estabelecimento de diretrizes ao audiovisual, ele protagonizou uma série de polêmicas.

A primeira delas envolveu a demissão de funcionários do Ministério da Cultura, em julho. Após exonerar a cúpula da Cinemateca, o ex-secretário escolheu Oswaldo Massaini Filho para o cargo de coordenador-geral da instituição.

Após a publicação de um manifesto de repúdio e da divulgação, pela Folha de S.Paulo, de que Massaini responde a um processo por estelionato, o órgão voltou atrás e readmitiu Olga Futemma para o posto.

A segunda controvérsia se deu com o filme "Aquarius", dirigido pelo conterrâneo de Bertini, o recifense Kleber Mendonça Filho. Foi o ex-secretário quem nomeou os membros da comissão que escolheu "Pequeno Segredo" como representante brasileiro no Oscar.

Entre os jurados, Bertini chamou o comentarista de cinema Marcos Petrucelli, que já havia atacado o protesto anti-impeachment feito pela equipe de "Aquarius" no Festival de Cannes.

A nomeação, antecipada pela Folha de S.Paulo, gerou suspeitas no meio cinematográfico de que "Aquarius" estava sendo retaliado politicamente por causa do protesto: três diretores retiraram seus filmes da disputa em apoio ao filme de Kleber, e dois membros abandonaram a comissão.

Bertini pediu demissão do cargo em dezembro de 2016.

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Edhucca

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