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Lugar de Nelson Xavier era entre o circo e a melancolia

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SÉRGIO DE CARVALHO*

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O encontro do jovem Nelson Xavier, morto na madrugada desta quarta (10) em decorrência de um câncer, com os artistas do Teatro de Arena, no fim dos anos 1950, promoveu uma não especialização que foi a marca de sua atitude de ator, a despeito de sua identificação posterior com figuras como Lampião ou Chico Xavier. Mas que outro ator poderia se orgulhar dessa associação a personagens tão emblemáticos das contradições do Brasil?

Chegou ao Arena nos tempos dos laboratórios, prática trazida por Augusto Boal à companhia de Zé Renato: todos os atores, à maneira de Stanislávski, deveriam criar processos de pesquisa, levando as personagens às ruas e praças, à procura de relações verdadeiras.

Nelson gostava de contar dos excessos desses laboratórios, mas foi graças a essa formação que Vianinha, Chico de Assis e Flávio Migliaccio se tornaram também dramaturgos. E o compromisso com o vivo não era só a busca da emoção real, mas se dava como luta pela igualdade social.

Conheci Nelson em 1999, quando a Companhia do Latão fez temporada no Rio de Janeiro. Ele assistiu os quatro espetáculos do repertório, saudando o grupo a cada vez, manifestando o reconhecimento da afinidade artística e política.

Alguns anos atrás, tomei contato com sua peça "Julgamento em Novo Sol", também conhecida como "Mutirão em Novo Sol", escrita em 1961, sobre uma rebelião de camponeses ocorrida no interior de São Paulo. Li uma cópia dada por ele ao coletivo de cultura do MST. Quando soube do meu interesse, presenteou-me com uma versão algo diferente, e nos anos seguintes ficamos mais próximos porque cuidei de sua edição crítica.

Essa peça linda é um testemunho de sua militância do passado: nascida de uma entrevista com o líder do caso real, foi concebida coletivamente no Arena, escrita por Nelson e apresentada em congressos camponeses naqueles tempos em que o país queria ser menos brutal.

Nelson passou tempos no Nordeste trabalhando na encenação dela com os artistas-militantes do MCP. Numa carta daquele tempo, que puder ler nos arquivos do amigo Augusto Boal, ele conclamava divertido: "Deixa esse teatro pequeno e burguês, Boal. Vamos fazer uma coisa grande! E continuar contribuindo para esse teatro subdesenvolvido!" E foi o que ele fez, não só no teatro: o trabalho em "Os Fuzis", de Ruy Guerra é um lindo exemplo desse ciclo de invenção que se encerraria com o golpe de 1964.

No 31 de março, Nelson estava no Rio de Janeiro, dirigindo a montagem de "Os Azeredo mais os Benevides", de Vianinha, para a inauguração do teatro do CPC. A rajada de metralhadora lançada no portão à noite prenunciava o ataque da manhã seguinte, quando um grupo de militares à paisana e elementos de ultradireita incendiou o prédio da praia do Flamengo.

Nelson ficaria anos com essa imagem na cabeça, à deriva artística e politicamente, crítico aos erros do Partido Comunista e atento ao horror da direita empresarial, desconfortável com as tentativas de ingressar na luta armada. Relatou-me o sentimento de patético quando participou de um treinamento de guerrilha na sala de um apartamento na zona sul.

Retomou o trabalho crítico nos últimos anos da década de 1960 com parceiros do CPC como Leon Hirszman (em "A Falecida") ou nas montagens de peças de Plínio Marcos. Somente anos depois, no início da abertura política, trilharia o caminho comum aos artistas de esquerda que não foram obrigados ao exílio ou não foram arrebentados pela violência do Estado, ingressando na televisão.

Em outra de suas cartas, também a Boal, no começo da década de 1980, dizia que sempre se sentiu mais dramaturgo ou diretor do que intérprete, mas que estava apaixonado pela personagem Lampião, sem deixar de saber onde estava, pois "o sistema continua o sistema e eu não mudei muito também".

Trabalhamos juntos quatro anos atrás numa leitura encenada da peça Revolução na América do Sul, de Boal, com canções de Chico de Assis. Convidei-o para o mesmo papel que ele fez na montagem de 1960, o do político populista. É uma peça sobre o famélico Zé da Silva que não compreende as causas de sua miséria: enquanto a abstração do capital e o jogo eleitoral operam, ele definha fisicamente.

Em cena estavam também um coro de jovens estudantes, artistas do MST (o próprio João Pedro Stedile atuou no engraçadíssimo papel de Anjo Imperialista), atores do Latão. Nelson entrava em cena alargando os passos, em ligeiro agachamento, virando a cabeça aos lados como um bicho em caça: desenhava o populismo do tipo, estilizado e vivo. Chamou-me num canto, durante o ensaio, desculpou-se pela observação, sugerindo que a peça devia ser feita de modo mais grosso, mais circense. Talvez eu tenha dito que achava importante dar lugar à tristeza. Acho que no íntimo foi esse seu lugar de artista: entre o circo e a melancolia, entre a dor da esperança falhada e o trabalho pela melhora da vida comum.

(*) Sérgio de Carvalho é diretor e dramaturgo da Companhia do Latão e professor de dramaturgia e crítica na ECA-USP

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