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Em cem dias, Trump esbarra em freios do Congresso e da Justiça

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ISABEL FLECK

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Após definir publicamente a marca de cem dias como "ridícula", o presidente Donald Trump correu na última semana para chegar a seu centésimo dia no poder, neste sábado (29), com avanços no plano que traçou para o período ainda na campanha.

Com aprovação de 43% segundo o Gallup, a mais baixa de um presidente americano para pouco mais de três meses no cargo, Trump apresentou sua proposta de corte de impostos e assinou cinco decretos em cinco dias, sendo um deles para flexibilizar a regulação da exploração de petróleo e gás natural.

Também conseguiu, nesta semana, que os presidentes do México e do Canadá concordassem em iniciar as conversas para renegociar o Nafta, o acordo de livre comércio entre os três países.

No entanto, como tem se tornado constante, recuou em uma de suas bandeiras: a construção do muro na fronteira com o México. Para evitar que o Congresso reprovasse o Orçamento nesta sexta (28), paralisando o governo, o republicano adiou para 2018 o pedido de US$ 1,4 bilhão para o projeto.

As idas e vindas que caracterizaram boa parte de sua gestão nesse período mostram que Trump já percebeu que não poderá governar como prometeu na campanha.

Dos 27 pontos previstos no que o republicano chamou de "contrato com o eleitor americano" para os primeiros cem dias, Trump conseguiu propor mudanças em 13, segundo um levantamento da rede pública de rádio NPR.

As ações, no entanto, foram praticamente todas tomadas por meio de decretos, alguns deles já contestados judicialmente e bloqueados por tribunais federais.

Foram 30 assinados no total, o maior número para os primeiro cem dias desde, pelo menos, o governo de Franklin D. Roosevelt (1933-1945).

No caso mais emblemático, Trump teve que redigir um novo decreto proibindo a entrada de cidadãos de países de maioria muçulmana depois que a primeira ação executiva foi suspensa por uma liminar. O segundo texto foi bloqueado por um juiz antes mesmo de entrar em vigor.

Em outros temas, o recuo ocorreu sem a pressão de uma decisão judicial, como o congelamento de contratações para o governo federal.

"Trump reconheceu que o governo é maior e mais complexo do que imaginava. Agora está tentando fazer por ele mesmo as coisas que não pode fazer porque dependem do apoio do resto do governo", diz Donald Kettl, especialista da Brookings Institution.

Em entrevista à Reuters na quinta (27), Trump admitiu: "É mais trabalho do que eu tinha antes. Achei que seria mais fácil".

CONGRESSO

Das dez propostas que dependem da aprovação do Congresso, só duas foram levantadas por Trump: a reforma tributária, apresentada na última quarta, e a proposta para substituir o Obamacare, que não teve apoio suficiente no seu próprio partido e representou sua pior derrota política até agora.

Michael Barone, especialista do conservador American Enterprise Institute, contudo, avalia que o desempenho de Trump com o Congresso não é muito diferente do de seus antecessores. "A maioria dos outros presidentes também não conseguiu fazer muito até julho, agosto."

Para ele, o republicano avançou em temas de regulamentação e revertendo ações de Barack Obama.

"Ele reduziu leis ambientais, libertando a economia, e diminuiu muito a imigração ilegal", diz Barone, referindo-se às ações executivas que preveem o afrouxamento do controle de emissão de gases por usinas a carvão, a retomada da construção de oleodutos e ações mais duras contra imigrantes sem papeis.

No entanto, mesmo a principal vitória de Trump no período, a confirmação de seu indicado, Neil Gorsuch, à Suprema Corte, precisou de um "empurrão" no Senado -os republicanos tiveram que usar uma manobra para mudar as regras da casa e não precisar de 60 dos 100 votos.

No plano externo, os recuos são mais evidentes. Após se encontrar com o presidente chinês, Xi Jinping, Trump desistiu de declarar a China manipuladora do câmbio, como prometera no palanque.

Também disse que a Otan (aliança militar ocidental) não é "obsoleta", como afirmara, e, após um ataque químico numa cidade síria pelo qual acusou Damasco, passou a considerar a retirada do ditador Bashar al-Assad, que nega participação na ação, uma "prioridade" dos EUA.

O endurecimento contra a Síria agradou a base republicana e o afastou da Rússia.

Para John Sides, cientista politico da George Washington University, o fato de Trump não ser um político com ideologia definida justifica, em parte, o vaivém.

"Mas ele está aprendendo coisas sobre política que desconhecia", diz. "E pode estar ouvindo outras vozes que o têm feito perceber que é melhor não se distanciar muito da tradição do partido."

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