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Faculdades incluem 'emoção' nas aulas e nos vestibulares

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ÉRICA FRAGA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O candidato é informado que precisará interagir com um ator que representará seu colega de apartamento e lhe dirá que usa drogas. Sua missão é dar apoio ao "amigo" e conversar sobre possíveis caminhos nessa situação difícil.

Pode parecer um teste para uma vaga de dramaturgia, mas é parte da segunda fase do vestibular de medicina do hospital Albert Einstein, curso iniciado em 2016.

O objetivo da instituição, nesse exemplo, é avaliar características como empatia e capacidade de argumentação dos 256 vestibulandos que chegam nessa etapa, disputando 50 vagas.

Essa preocupação em formar profissionais com capacidades que vão além de domínios técnicos e cognitivos, normalmente associados à inteligência, tem levado algumas instituições privadas de ensino superior a incorporar as chamadas habilidades socioemocionais em seus vestibulares e currículos.

Essa tendência surgiu na esteira de pesquisas que mostram o impacto positivo de características como persistência e extroversão para indicadores de sucesso, como salários e saúde, e de uma demanda cada vez maior de profissionais com essas habilidades pelo mercado de trabalho.

No caso do Albert Einstein, traços de personalidade --como flexibilidade, persistência e habilidade para trabalhar em grupo-- são analisados em um total de oito exercícios, como simulações e entrevistas, cada um com seis minutos de duração.

Embora não existam respostas certas ou erradas nesses testes, ao contrário do que ocorre nas provas de conhecimentos específicos da primeira fase, o desempenho dos alunos é julgado por um time de avaliadores e representa 25% de sua nota final.

O resultado tem sido tão relevante que metade dos candidatos que passam para a segunda fase entre os 50 primeiros colocados acabam caindo para fora dessa lista.

"É um vestibular muito concorrido, todos os que passam para a segunda [fase] são inteligentes", diz Alexandre Holthausen, diretor da graduação em Medicina do Einstein, antes de perguntar: "Mas quem nunca conheceu alguém brilhante na parte cognitiva que, por falta de estabilidade emocional, se perdeu no meio do caminho?"

Carolina da Costa, vice-presidente de graduação do Insper, diz que "ser inteligente mas incapaz de se relacionar com os outros é algo que não tem possibilidade de dar certo na vida real".

A instituição também avalia as habilidades socioemocionais na segunda fase do vestibular de engenharia, curso criado há três anos. O teste tem o formato de debates em que um grupo de alunos vai se revezando no papel de moderador de temas polêmicos.

"Tendo conhecimento desse formato, o candidato pode tentar se preparar, claro, mas é difícil manter a consistência nas cinco rodadas de debate", diz Costa. "Os que vão bem são os que sabem ouvir, construir bons argumentos e ser flexíveis."

O Einstein e o Insper também estruturaram o currículo de suas graduações de medicina e engenharia para estimular e avaliar o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. "Não adianta se restringir ao vestibular", diz Holthausen, do Einstein.

A Kroton Educacional é outra que incorporou recentemente o estímulo ao desenvolvimento de determinados traços de personalidade em suas graduações. "Resolvemos investir pesado nessa área", diz Mario Ghio, vice-presidente acadêmico da instituição.

Uma das causas foi a elevada taxa de evasão que, segundo ele, faz metade dos alunos abandonar seus cursos, principalmente no início.

"Eles falam em falta de dinheiro ou dificuldade para acompanhar as disciplinas, mas começamos a perceber que o principal problema era falta de resiliência."

No início de 2016, a instituição criou uma série de disciplinas para ajudar a nivelar alunos com patamares de conhecimentos diferentes e, no segundo semestre, lançou um programa para desenvolvimento de projetos de vida, em que os calouros traçam metas com a tutoria de veteranos.

"Tem ajudado muito eles ouvirem colegas mais experientes contarem que passaram pelos mesmos desafios que eles. É muito mais legítimo do que ouvir conselhos dos professores", diz o vice-presidente acadêmico da Kroton.

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