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Embaixadora vira rosto da política externa de Trump

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ISABEL FLECK

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Dois dias antes de os EUA atacarem a Síria, em 7 de abril, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, se levantou e mostrou aos colegas no Conselho de Segurança fotos de crianças mortas em um ataque químico na véspera.

"Quantas crianças precisam morrer até que a Rússia se importe?", questionou, no tom mais duro usado pelo governo de Donald Trump contra Moscou até então.

A cena serviu como defesa da ação militar americana que estava por vir e mostrou Haley como peça fundamental na política externa de Trump, sem precisar fazer esforço para ofuscar o secretário de Estado, Rex Tillerson.

Naquele mesmo dia, a embaixadora passou a integrar, de forma permanente, o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Na sequência do ataque americano, ela foi o rosto a defender a ação em grande parte dos programas de TV americanos.

Estrela ascendente no Partido Republicano por suas posições fortes sustentadas com um carisma raro entre as atuais lideranças partidárias, Haley passou a ser citada como opção a Tillerson diante de especulações de que o chanceler não chegue ao fim do mandato de Trump.

O republicano Nicholas Rostow, assessor de segurança nacional dos presidentes Ronald Reagan (1981-89) e George H. W. Bush (1989-93), é um dos que se diz "impressionados". "Ela tem demonstrado muita força e personalidade. Já era uma estrela, mas agora tem visibilidade."

Em 2016, Haley fora escolhida pelo partido para dar a resposta republicana ao último discurso do Estado da União de Barack Obama, uma missão de prestígio.

Rostow, porém, considera cedo para falar em mudanças no Departamento de Estado.

LISTA NEGRA

Haley, 45, chegou à ONU em janeiro prometendo novidades. "Para aqueles que não nos apoiarem, saibam que vamos anotar nomes", disse, numa ameaça que depois virou motivo de piada nos corredores da organização.

No entanto, assim como quando foi governadora da Carolina do Sul (2011-17), ela tem surpreendido com posições que, para muitos, não se encaixam no padrão republicano nem no governo Trump.

No mesmo dia em que o presidente ignorou as violações de direitos humanos cometidas pelo colega egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, ao recebê-lo na Casa Branca, Haley defendeu que o Conselho de Segurança debatesse direitos humanos em sua agenda.

Filha de acadêmicos indianos sikh que chegaram aos EUA no início dos anos 70 após viverem no Canadá, Nimrata Randhawa nasceu em Bamberg, Carolina do Sul.

O apelido Nikki vem da infância, quando conviveu com a discriminação. Um episódio que conta é sobre um concurso de beleza de que participou aos quatro anos. No Estado com histórico de segregação racial, a disputa premiava uma branca e uma negra. "Fui desclassificada porque não sabiam onde me por."

Em 1996, adotou o sobrenome pelo qual é conhecida ao se casar com Michael Haley, seu namorado de faculdade (ela se formou em contabilidade). Oficial da Guarda Nacional, ele lutou no Afeganistão e tem com ela um casal de filhos adolescentes.

Ao se tornar, aos 38 anos, a primeira mulher a governar a Carolina do Sul, Haley disse ser preciso "não ignorar o feio passado de escravidão e discriminação" do Estado. Eleita com apoio do movimento Tea Party, aos poucos se afastou de sua ideologia ultraconservadora.

Em 2015, após um supremacista branco matar nove negros em uma igreja de Charleston, Haley exigiu que o Legislativo local aprovasse a remoção da bandeira confederada --vista por muitos como símbolo da escravidão-- da Assembleia local.

Na mesma ocasião, ela também defendeu maior controle da venda de armas no país, tabu que nem políticos à esquerda consegue superar.

Dois meses depois, pesquisa do instituto PPP, ligado aos democratas, a apontou como uma das governadoras mais populares do país, com 56% de aprovação (e 40% entre eleitores da oposição).

Em tempos de polarização acirrada, a republicana já afirmou que sua inspiração para entrar na política veio de um discurso da democrata Hillary Clinton em 2003. No ano seguinte, se elegeu deputada estadual.

Seu maior modelo, contudo, é a ex-premiê britânica Margaret Thatcher (1925-2013), mãe do conservadorismo moderno. A embaixadora defende menor intervenção do Estado na economia e menos impostos, o que justifica citando a experiência na contabilidade da loja da mãe.

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