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Argentina para em greve geral que aumenta pressão sobre governo Macri

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SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - "Que bom que estejamos hoje aqui, trabalhando", disse em tom de ironia, na manhã desta quinta-feira (6), o presidente argentino, Mauricio Macri, ao abrir a seção latino-americana do World Economic Forum, no hotel Hilton.

Enquanto o mandatário se dirigia a um grupo de empresários argentinos e latino-americanos para apresentar uma melhora nos números da economia e reforçar a abertura econômica da Argentina, do lado de fora, Buenos Aires estava muito mais silenciosa do que o normal, sem o ruído dos ônibus e das buzinas do trânsito.

Com a greve geral convocada pelos dois principais sindicatos do país, a CGT (Confederação Geral do Trabalho) e a CTA (Central de Trabalho da Argentina), não houve nenhum tipo de transporte público (ônibus e trens) nas ruas, e apenas uma parte dos taxistas saiu para trabalhar.

Tampouco houve movimento nos aeroportos, uma vez que se uniram à greve pilotos, controladores aéreos e funcionários das alfândegas. Todos os voos internos e externos do país foram cancelados.

Não houve aulas na rede estatal e o comércio abriu apenas parcialmente, com pessoas compartilhando carros ou pedindo carona para ir trabalhar. "Eu levei outros quatro colegas", disse à reportagem a gerente de uma loja de roupas Rosalía Díaz, que disse que queria aderir, mas não podia. "Fomos apertados no carro, mas deu. Se perdemos um dia de trabalho, não chegamos para pagar o aluguel do imóvel", resumiu.

Como também não houve coleta de lixo, os reservatórios das ruas estavam transbordando. No centro, o lixo se esparramava da calçada até a rua.

A reivindicação dos sindicatos é por medidas mais eficientes por parte do governo para baixar os 40% de inflação, para que se fixem os aumentos salariais de acordo com esse patamar e para pedir que o governo apresente políticas para diminuir o desemprego (que aumentou dois pontos percentuais) e a pobreza (que saltou de 28% a 32%).

Por parte da CGT, a greve foi "contundente" e teria atingido 90% de adesão nacional, segundo o dirigente Hugo Daer. Os sindicalistas reafirmaram que o objetivo era "transmitir ao governo o mal-estar que sentimos diante da inflação e dos rumos da economia", nas palavras de Hugo Yasky, da CTA.

Os professores da rede estatal, que já estavam em greve em várias províncias, incluindo a de Buenos Aires, e se uniram à convocação dos dois sindicatos, obtiveram uma vitória.

No começo da tarde, a juíza do trabalho Dora Temis determinou que o governo trate a negociação com os docentes a nível nacional, como determina a lei. O governo vinha se recusando a isso, preferindo que cada província realizasse seu acordo, e colocando como teto dos aumentos o patamar de 18%.

O ministro da Educação, Esteban Bullrich, disse que a decisão da juíza foi política e que o governo iria apelar. "Foi uma decisão tomada com animosidade", disse à imprensa local.

A manifestação foi em geral pacífica, com atos de setores dos sindicatos em alguns locais do centro da cidade, como o Obelisco, na avenida 9 de Julio. O único incidente ocorreu na estrada Panamericana, uma das principais vias de acesso a Buenos Aires, cortada por manifestantes.

A polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e realizou seis detenções. Quatro manifestantes saíram feridos, porém sem gravidade. Por fim, os oficiais conseguiram dispersar a manifestação e os carros puderam voltar a transitar.

MACRI

O presidente, que vinha usando termos duros para tratar os sindicalistas, chamando-os de "mafiosos", preferiu nesta quinta-feira manter o sorriso e falar de outros assuntos no Fórum. Chamou a atenção para a diminuição da inflação no último trimestre e reforçou a importância de terem resolvido a dívida com os chamados "fundos-abutre". "Criamos um clima favorável aos que querem vir investir na Argentina", disse.

Reconheceu que a inflação está alta, mas que o governo trata do tema como "assunto central" e que estava "tendo êxito em reduzi-la".

Em entrevista a um repórter da Bloomberg, realizada na quarta-feira (5), Macri respondeu que "não há plano B para a economia". "Nós vamos seguir trabalhando no que consideramos ser o plano A", reafirmou, diante da pergunta do repórter sobre como manter os ajustes e chegar ao índice almejado da inflação (12% a 17%) sem que haja impacto para seu partido nas eleições legislativas de outubro.