Geral

Projeto de reeleição tem apoio da direita e da esquerda no Paraguai

.

DANIEL AVELAR, ENVIADO ESPECIAL

ASSUNÇÃO, PARAGUAI (FOLHAPRESS) - O projeto que abre caminho para a reeleição presidencial no Paraguai, que está no centro da crise política que atinge o país, tem o apoio de partidos da direita e da esquerda. Enquanto isso, agremiações de centro se opõem à iniciativa e acusam o governo de ter dado um "golpe" para aprová-la no Congresso.

O plano do presidente Horacio Cartes, do Partido Colorado (conservador), é introduzir emendas constitucionais permitindo que um plebiscito seja convocado para que a população decida a favor ou contra a reeleição.

A Constituição do Paraguai, promulgada em 1992 após mais de três décadas de ditadura, estabelece um mandato de cinco anos para presidente e vice-presidente, que não podem ser reeleitos "em nenhum caso".

Caso as emendas passem no Congresso e a reeleição seja aprovada em plebiscito, Cartes poderá buscar um novo mandato na eleição de 2018. Empresário da área do tabaco e do sistema bancário, o mandatário implementou uma gestão empresarial ao governo desde que assumiu, em 2013, investindo na redução de taxas e na abertura comercial do país.

A Frente Guasú (esquerda) também apoia o projeto da reeleição, na esperança de que o ex-presidente Fernando Lugo, deposto em 2012, possa voltar ao poder. Lugo aparece na dianteira em algumas pesquisas de intenção de voto.

Em agosto de 2016, o governo apresentou um projeto para aprovar a reeleição, mas a iniciativa foi barrada no Senado, que é controlado pelo PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico), principal sigla da oposição.

Na semana passada, o governo voltou a introduzir uma proposta de emenda sobre a reeleição. Após uma série de manobras procedimentais, senadores do Partido Colorado e da Frente Gasú aprovaram o projeto na sexta-feira (31), em uma sessão fora do plenário sem a presença de opositores nem do presidente do Senado, Roberto Acevedo (PLRA).

A oposição considera que a manobra parlamentar foi ilegítima.

Logo após a votação, manifestantes invadiram o Congresso, incendiando e saqueando partes do edifício do Senado. A polícia disparou balas de borracha e gás lacrimogêneo para dispersar a multidão, e o protesto terminou com mais de 30 feridos, 200 detidos e um dirigente do PLRA morto pela polícia na sede do partido.

O Partido Colorado e a Frente Guasú lamentaram a invasão do Congresso e acusaram a oposição de ter infiltrado agitadores na manifestação. À reportagem, a senadora Esperanza Martínez, da Frente Guasú, criticou a ação "desmedida e muito violenta" da polícia no protesto e denunciou "setores com a intenção de criar distúrbios", inclusive grandes meios de comunicação.

A congressista também defendeu que o povo decida sobre a possibilidade de instituir a reeleição e disse que a tramitação do projeto no Senado "respeitou o regulamento".

"Apoiamos todo tipo de debate cidadão e esperamos que isso ocorra nos marcos do respeito e da convivência pacífica", disse Martínez.

O PLRA, por sua vez, também lamentou a violência dos manifestantes, mas considera legítima a revolta popular contra as iniciativas do governo.

"O povo se levantou, exercendo seu direito constitucional de protestar contra usurpadores", disse à reportagem o deputado liberal Dionisio Amarilla. "O presidente Cartes acredita que o Paraguai é uma sociedade anônima, mas somos um país livre."

Amarilla também criticou a invasão da sede do PLRA pela polícia e a morte do dirigente Rodrigo Quintana, 25, baleado no local por um policial na madrugada de sábado (1º) após o protesto no Congresso. "Os rastros da ditadura seguem vigentes no Paraguai."

Procurado, o Partido Colorado não respondeu a pedidos de entrevista.