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'A Força do Querer' é novela sem medo de ser novela

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SÓ PODE SER REPRODUZIDA NA ÍNTEGRA E COM ASSINATURA

CRISTINA PADIGLIONE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em menos de um capítulo de "A Força do Querer", nova novela das nove da Globo, Glória Perez colocou à mesa um menu degustação do que pretende servir na faixa das 21h pelos próximos seis meses.

Quanto maior o poder de síntese de um enredo, maior a chance de seduzir a plateia. Indício de que há uma história, e não uma colcha de retalhos de personagens a ser contada, essa teoria é crucial aos folhetins: em menos de uma hora, como se fosse gincana, é preciso aguçar a curiosidade do público sobre o argumento principal e seu entorno, por meio de figuras que acabamos de conhecer.

Nesse quesito, ninguém tem mais DNA de Janete Clair do que Glória Perez. A novela está ali na sua essência folhetinesca, sem pretensões de linguagem seriada ou cinematográfica, sem pudor em ser didática e, no entanto, sem fazer o espectador crer que enfia sorvete na testa, o que já aconteceu nas novelas anteriores da autora, quando uma legenda insistia em nos avisar o que era Rio e o que era Marrocos ou Índia.

Agora, Belém do Pará ou algum ponto do Acre podem ser apresentados por meio de um diálogo e da trilha sonora que remete àquela batida de Gaby Amarantos. Corta para Maria Fernanda Cândido, toda trabalhada na estética Sul-Maravilha do Rio, e a música incidental muda, de modo que ninguém carece de legenda para entender onde ela está.

A direção conspira muito a favor do êxito. Cenas críveis de tempestade promovem a correnteza que leva Ruy e Zeca ao quase afogamento, ainda meninos. Um pajé resgata os dois e crava a sina de ambos, em diálogo mecânico, quase frio: o rio que os uniu voltará a uni-los e separá-los no futuro, por meio de algum ser vindo das águas. É a sereia Ritinha (Ísis Valverde), figura que promete catalisar todas as atenções -tanto é que foi apresentada como "gancho" de suspense do primeiro para o segundo capítulo, emergindo das águas, sem nada dizer.

Planos em sequência e imagens aéreas costuram uma estética sedutora, do resgate dos meninos à beira do rio ao burburinho do mercado no centro de Belém.

Entre uma tomada e outra, temos os ricos do Rio e suas manias: o vício de Lília Cabral no jogo e a insistência de Joyce (Maria Fernanda) em criar a filha, Ivana (Carol Duarte), como uma Barbie de estimação.

E tem Bibi (Juliana Paes), boa aluna universitária, linda, disposta a viver um romance com palpitações e alta temperatura, que dispensa Rodrigo Lombardi. De novo? Sim, Glória Perez já operou esse desencontro em "Caminho das Índias", quando Maya só ficava com Raj após ter sido preterida por Bahuan (Márcio Garcia). Dessa vez, a moça troca o abastado Caio (Lombardi) pelo pobre Rubinho (Emílio Dantas), na melhor tradução de "um amor e uma cabana".

Embora o eixo central da trama esteja no triângulo entre Ritinha, Ruy (Fiuk) e Zeca (Marco Pigossi), Glória é esperta ao unir elementos que possam subverter a prioridade das cenas. Só a reação do público dirá se esse núcleo merecerá mais holofotes do que a abordagem sobre a questão transexual, bandeira de Ivana, ou o destino de Bibi, futura "Baronesa do Pó".

Livre das amarras impostas pela Classificação Indicativa, que desde novembro passado dispensa o vínculo entre faixa etária e horário de exibição, a Globo se permitiu mostrar novamente cenas calientes de cama (Juliana e Emílio) numa novela das 9. É um bom indício para a emissora, que tem cedido à pressão da audiência conservadora, em nome do sucesso das tramas bíblicas da Record.

Oxalá o folhetim atual não seja vítima de reformas como as que estragaram "Babilônia" (2014, de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga).

Um Chico Buarque deu o tom da separação de Caio e Bibi com "Eu te amo", jogo rápido de um flashback que narrou o início da história, sem necessidade de caracterizações mirabolantes e passagens de tempo denunciadas por legendas.

Na abertura, Caetano Veloso está de volta, após um único intervalo no horário: em "Velho Chico", era "Tropicália", agora é "O Que Quereres". Isso, somado ao pajé que salva afogados e à presença de Luci Pereira à cena, em meio à floresta, quase quase nos leva de volta à trama do Saruê.

A diferença maior está no ponto de vista, em "Velho Chico" cravada na beira do próprio São Francisco, e aqui vista pelo olhar do Sul-Maravilha dos grandes empresários da castanha e do açaí, vividos por Humberto Martins, Dan Stulbach e cia., que coincide com o olhar dos mercados das maiores audiências do país.

Acreana e moradora do Rio há pelo menos quatro décadas, a autora tem credencial para alinhavar o Norte que existe com o Norte que é visto de cá.

A FORÇA DO QUERER

ONDE Globo

ELENCO Isis Valverde, Fiuk, Dan Stulbach

DIREÇÃO Glória Perez

AVALIAÇÃO bom