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Candidato opositor no Equador faz aceno à esquerda

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SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A poucos dias do segundo turno no Equador, que ocorre no domingo (2), o candidato opositor Guillermo Lasso, 61, ainda corre atrás de votos.

Logo após o primeiro turno, em que foi vencido pelo governista Lenín Moreno, 64, por 39,3% contra 28%, a expectativa era que ele virasse o jogo fácil -afinal, as urnas haviam expressado uma rejeição à continuidade do regime de Rafael Correa, no cargo desde 2007.

Foi o que ocorreu no começo, com o apoio de boa parte dos eleitores das outras seis candidaturas derrotadas. As primeiras pesquisas lhe davam vantagem de ao menos quatro pontos, mas nos últimos dias a margem encurtou. Lasso e Moreno estão empatados tecnicamente, segundo o Cedatos, o instituto mais confiável do país.

Em entrevista, o conservador Lasso disse estar disposto a realizar um governo de coalizão. Mesmo fortemente ligado à Igreja Católica, estabeleceu diálogo com representantes de grupos de defesa dos direitos da comunidade LGBT e tem sido mais maleável quando se trata de temas como o aborto e a legalização das drogas.

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Pergunta - O sr. arrancou bem após o primeiro turno, passando rapidamente Lenín Moreno nas pesquisas. Mas agora, os números mais recentes indicam uma queda na intenção de voto no sr., um aumento do apoio a Moreno, e uma situação que indica um empate técnico. Como o sr. interpreta esses números mais recentes?

Guillermo Lasso - A tendência é muito clara, dois de cada três equatorianos querem uma mudança com relação ao modelo atual. No próximo domingo (2) estarão em jogo duas opções, o continuísmo deste governo ou nossa proposta de mudança. Em poucos dias os equatorianos terão a oportunidade de dizer "não" a um governo autoritário que quebrou o país. Com a mudança, poderemos restabelecer a democracia e retomar o caminho do crescimento econômico.

Como o sr. definiria a campanha neste segundo turno? Está mais propositiva, como o sr. disse que esperava, ou mais marcada por ataques?

O governo que está saindo fugiu do intercâmbio de ideias e preferiu imiscuir-se na pior campanha de desprestígio da história equatoriana. Os mais afetados são os cidadãos, a quem desinformam e atemorizam. Por isso é necessária uma mudança, um presidente que represente a abertura de diálogo e o debate de ideias, porque assim se constrói a democracia, sem imposições.

O sr. diz que o presidente Rafael Correa pôs a máquina do governo a favor do seu candidato, Lenín Moreno. Em que se baseia?

A campanha governista usou todo o esquema de propaganda armado nos últimos anos contra nós, que queremos a mudança. Utilizaram os meios públicos, as emissoras sob intervenção ou expropriadas, para realizar proselitismo político, e isso é um delito. Ainda assim, o Conselho Nacional Eleitoral não se pronuncia a respeito.

Como o sr. crê que o escândalo do caso Odebrecht (a empreiteira brasileira é acusada de ter pagado US$ 33 milhões em propinas no Equador) está impactando estas eleições?

Esse escândalo confirma que, no Equador, a Justiça está politizada. Por isso, os equatorianos já não confiam neste governo que disse ser de mãos limpas, mas que meteu as mãos na Justiça.

Hoje, as denúncias nos mostram a importância de ter instituições independentes, divisão de poderes e um governo transparente. Em dez anos de Revolução Cidadã [nome que Rafael Correa dá a seu governo], todas as autoridades de controle e as instituições estiveram a serviço do regime, e é assim que se incubou a corrupção.

O sr. crê que esse sistema de investigação que se iniciou no Brasil com a Lava Jato, usando recursos como os da "delação premiada", poderia ser um modelo válido ao Equador?

Corresponderá a uma Justiça independente estabelecer os mecanismos que sejam eficientes na luta contra a corrupção. No governo da mudança, investigaremos a década "correista" com firmeza, mas sem perseguir ninguém de modo político.

Nós nos comprometemos com medidas anticorrupção, por isso é necessário que a Justiça seja independente, e as autoridades de controle respondam aos interesses do país e não a um partido político. Assim mesmo, criaremos uma Comissão Anticorrupção, com a ajuda da ONU, para levar adiante as reformas necessárias à situação do país.

Se o sr. vencer as eleições, qual será sua primeira medida de ordem econômica? Como propõe tirar o Equador da situação de endividamento crônico em que se encontra?

Nos primeiros cem dias de governo, recuperaremos a confiança institucional, econômica e financeira. Entre as primeiras medidas que adotaremos estará a eliminação de 14 impostos.

Também tornaremos mais transparentes as cifras fiscais e reduziremos o gasto público supérfluo para poder concentrar o gasto nos setores sociais, como a educação, a saúde e a segurança.

Como construir consenso num país que vem se polarizando tanto nos últimos anos e, especialmente, durante esta campanha eleitoral? O sr. admitiria, por exemplo, abraçar algumas das bandeiras da esquerda em busca de apoio?

Seremos um país de diálogo, e não de imposição. Falaremos com todos os setores da sociedade para chegar a um consenso em favor dos equatorianos. Já estamos construindo algumas pontes com esses setores da sociedade, por meio do diálogo com grupos de defesa dos direitos humanos, das comunidades LGBTI, de mulheres, indígenas e de afro-americanos.

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, ao receber o Nobel da Paz, afirmou que era o momento de a América Latina buscar uma alternativa à "guerra ao narcotráfico". Por outro lado, na Argentina o presidente Mauricio Macri aposta numa estratégia oposta, colocando mais efetivos nessa função de combater o tráfico pela via da força. Como o sr. se posiciona com relação a essa questão? Aceitaria levar ao debate no Congresso políticas de legalização e de redução de danos?

Sempre estaremos abertos ao debate de ideias para tomar as melhores decisões. Mas creio que essa é uma decisão que deve ser tomada em nível regional. Acredito que todos os países tenhamos que estar de acordo e na mesma página. Senão, corremos o risco de converter alguns países em refúgios do narcotráfico, e isso não resolverá o problema do ponto de vista regional; ao contrário, o acentuará.

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