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Governista tenta se eleger no Equador com estilo mais moderado que Correa

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SYLVIA COLOMBO, ENVIADA ESPECIAL

QUITO, EQUADOR (FOLHAPRESS) - Como seu próprio primeiro nome indica, Lenín Moreno, 63, candidato governista à eleição equatoriana do próximo domingo (19), vem de uma família de esquerda. Seu pai, um professor de escola pública do interior da região amazônica, era um fã do líder revolucionário soviético.

O próprio Moreno se define como "ainda mais à esquerda" que seu padrinho político, o atual presidente do país, Rafael Correa, que deixa nas mãos dele, que foi seu vice entre 2007 e 2013, o compromisso de continuar com sua "Revolução Cidadã" a versão equatoriana do "socialismo do século 21" venezuelano.

Até o momento, Moreno lidera a corrida eleitoral com cerca de 35% das intenções de voto. Segundo as pesquisas, que no Equador não costumam ser muito exatas, a diferença entre ele e o segundo colocado, o banqueiro Guillermo Lasso, é de seis a oito pontos. Logo atrás está a também direitista Cynthia Viteri.

As mesmas pesquisas, porém, indicam cerca de 40% de eleitores indecisos. O cenário, portanto, não é propício a projeções muito seguras.

No Equador, para sair vencedor no primeiro turno, o candidato necessita ter, no mínimo, 50% dos votos mais um, ou entre 40% e 50%, desde que a distância com relação ao segundo colocado seja de dez pontos percentuais.

HUMOR

Apesar de alinhado ideologicamente com Correa, Moreno difere do atual mandatário em termos de estilo. É mais contido ao discursar, menos estridente e desbocado que Correa. Tem fama de ser mais conciliador e gosta de trabalhar em equipe, ao contrário de seu ex-chefe, de perfil mais centralizador.

Moreno prefere, em vez dos discursos inflamados que deram fama a Correa, usar em seus comícios um tom mais suave e que pende com frequência para o humor. Isso mesmo, o humor, assunto sobre o qual o candidato já escreveu diversos livros.

Os simpatizantes de Moreno ouvidos pela reportagem em Guayaquil e em Quito preferem ressaltar sua trajetória pessoal antes de sua ideologia política.

"Lenín é um homem que tem essa coragem de seguir adiante, de enfrentar as dificuldades sorrindo, e por isso me orgulha muito", diz a estudante Stefani Bermúdez, 21.

Moreno deixou a região amazônica ainda adolescente, indo para Quito estudar administração. Formado, montou uma empresa de turismo e casou-se.

Sua vida mudou completamente em 1998, quando voltava para casa de uma padaria, num fim de tarde, e sofreu uma tentativa de assalto. Tentou resistir e levou um tiro nas costas que atingiu sua coluna. Desde então, perdeu o movimento das pernas e passou a se deslocar com uma cadeira de rodas.

Sobre o doloroso período de recuperação, deixou depoimentos em vídeo que agora, durante a campanha, circulam nas redes sociais. "Em vários momentos, preferi morrer", diz nas gravações.

Com o tempo, porém, transformou a deficiência em algo a seu favor. Começou a dar palestras motivacionais em que falava do poder de transformação e de superação pessoal por meio da alegria e do humor.

Sua atuação nessa área o projetou politicamente, e foi escolhido por Rafael Correa para ser seu vice durante seus dois primeiros mandatos. No cargo, ficou famoso por percorrer bairros pobres para fazer distribuições de cadeiras de rodas, roupas e cobertores para crianças.

Em 2013, foi convidado por Ban Ki-moon para assumir o cargo de enviado especial das Nações Unidas para defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Ao deixar a vice-presidência para mudar-se para Genebra, sua popularidade beirava os 90%. No ano seguinte, chegou a ser cotado para o prêmio Nobel da Paz.

No ano passado, Moreno voltou à cena no Equador ao se fazer presente junto às equipes de apoio às vítimas do terremoto que atingiu o país em abril do ano passado. Trabalhou para que os deficientes das áreas atingidas recebessem tratamento diferenciado e fez uma campanha internacional para arrecadar fundos para as vítimas.

CRÍTICAS

Suas demonstrações de generosidade, porém, não são suficientes para conter seus críticos. "Você confiaria o controle de um país a um homem que não pode ficar mais de duas horas num lugar, que sente desconforto e abandona reuniões, que tem os movimentos limitados e precisa sempre de assistência?", pergunta o comerciante Castaño Pérez, 49.

"Ele pode até ser boa pessoa, simpatizo com sua história de vida, mas vão tirar o posto dele porque é um homem frágil", acrescenta a dona-de-casa Zuleika Alemán, 55.

Por outro lado, pesam também contra essa imagem virtuosa de Moreno os aspectos negativos do legado de Correa.

Entre eles, as acusações de corrupção a funcionários de sua gestão (2007-2016), pelo escândalo da Odebrecht, e as denúncias contra seu candidato a vice. Jorge Glas, que também é o atual vice de Correa, responde pelo seu possível envolvimento no escândalo da Petroecuador, no qual também teria havido desvio de fundos públicos.

Moreno vem sendo criticado por jornalistas de oposição, nessa última semana, por não mencionar os casos de corrupção em seus últimos comícios.

Mas o candidato parece não se importar. Seu discurso de encerramento de campanha na cidade de Cuenca, na noite de terça (14), para uma multidão, teve ênfase na ideia de amparo aos mais necessitados. Saiu do palco aplaudidíssimo.

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