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'Temos que lutar contra esse governo ilegítimo', diz Marcelo Gomes em Berlim

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GUILHERME GENESTRETI, ENVIADO ESPECIAL

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - "Aqui quem fala é um homem decapitado, mártir de uma revolta fracassada que é estudada em todas as escolas do Brasil." "Joaquim", único filme brasileiro na competição do Festival de Berlim, começa com uma narração funesta, à lá "Memórias Póstumas de Brás Cubas", enquanto uma cabeça surge estancada em praça pública.

O filme de Marcelo Gomes teve a sua sessão para a imprensa no início da tarde desta quinta (16). O longa é uma ficção histórica sobre o amadurecimento político de Tiradentes (Julio Machado).

"O que me interessava é imaginar como ele mudou o paradigma dele, de soldado da Coroa virou um rebelde, vivendo numa terra de cada um por si", disse o diretor na coletiva de imprensa seguinte à exibição.

O cineasta aproveitou a oportunidade para criticar o governo Temer. "Nos últimos 14 anos [governos Lula e Dilma], houve uma mudança radical de paradigmas", disse Gomes. "Mas estamos num moimento muito absurdo de nossa política, com retrocessos. Temos que lutar contra esse governo ilegítimo."

TIRADENTES

A trama de "Joaquim" não incorre na cilada de construir uma hagiografia elogiosa sobre o mártir da Inconfidência Mineira. Embora escancare algum idealismo, retrata o alferes como um dono de escravos decidido a ficar rico com o ouro que encontrar nas Minas Gerais.

Gomes retrata o caldeirão cultural do Brasil colônia: escravos revoltos, índios despojados que mendigam por comida e, principalmente, burocratas portugueses dilapidadores.

A todo momento, o que escancara é como os vícios da colônia ainda estão impregnados na sociedade brasileira: funcionários da Coroa que cobram subornos cotidianos, a cor da pele como um requisito para a ascensão social etc.

O filme centra na figura de um poeta -uma epítome dos literatos do arcadismo que se engajaram na Inconfidência- sua crítica a uma elite intelectual acomodada.

"À medida que eu lia livros sobre o período colonial brasileiro, e como eram as relações sociais das pessoas, mais eu entendia o Brasil de hoje", disse Gomes, de "Cinema, Aspirinhas e Urubus" (2005).

Com poucos documentos históricos a respeito daquele momento histórico, o cineasta pernambucano diz que se permitiu imaginar o que teria desencadeado o amadurecimento político de Joaquim, o Tiradentes.

A luta de negros, reunidos em um quilombo, terá um papel importante. "Foram os africanos, na condição de escravos, que trouxeram ao Brasil a ideia de revolta, de resistência", segundo Gomes.

Numa das cenas que talvez seja a mais emblemática: um escravo negro se junta na cantoria de um índio despossuído. "Aquele hip-hop talvez seja o nosso momento de conjunção como Brasil", comentou o diretor.

Na ocasião, um jornalista português perguntou se havia alguma referência ao ex-presidente Lula na figura do sacrificado Tiradentes. O diretor riu: "Quando o filme acaba, ele pertence ao espectador. Não pensei nisso, mas é maravilhoso."

Num festival politizado como a Berlinale, a luta anticolonisalista de "Joaquim" pode ser um trunfo para essa coprodução Brasil-Portugal.

Contudo, as referências a um fato local, que estão bem fincadas na historiografia brasileira mas pouco são conhecidas fora do país, podem ser uma desvantagem à conquista do Urso de Ouro. Os premiados serão anunciados na noite de sábado (18).

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