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Pai suspeito de encomendar morte da filha no caso do Papai Noel vai a júri

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RAFAEL ITALIANI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao longo de seus 37 anos, a publicitária Renata Guimarães Archilla só viu o pai, Renato Garembeck Archilla, 58 anos, empresário, em situações judiciais, como quando teve a paternidade reconhecida pela Justiça na infância e em um exame de DNA.

Nesta quarta-feira (1º), os dois se encontram novamente, às 12h30, no 1º Tribunal de Júri do Fórum da Barra Funda, onde ela espera que ele seja condenado por ter encomendado a morte de sua única herdeira. A vítima nega que tenha interesse na herança e diz se sentir rejeitada "desde o nascimento".

O Ministério Público acusa o pai de Renata e o avô dela, Nicolau Archilla Galan, também empresário, morto no ano passado antes do julgamento, de planejarem o assassinato para que ela não tivesse direito à herança da família paterna.

Em dezembro de 2001, pouco antes do Natal, Renata estava parada no trânsito, no bairro do Morumbi (zona oeste de São Paulo), quando foi surpreendida por um homem armado, fantasiado de Papai Noel e que disparou quatro vezes contra ela. O ataque aconteceu por volta das 9h, horário em que ela se dirigia ao trabalho.

Dois tiros atingiram o rosto e um o braço da vítima -o quarto disparo falhou. Um dos projéteis entrou pela bochecha e destruiu a arcada dentária de Renata, que passou por oito cirurgias- a primeira delas durou 11 horas.

De acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público, o autor dos disparos foi o ex-policial militar José Benedito da Silva. No dia do crime, ele usou a fantasia do personagem natalino para não ser reconhecido. Após disparar contra Renata em um semáforo, ele retirou a fantasia, jogou na rua e deixou o local caminhando.

Expulso da corporação em 2006, Silva já cumpriu os 13 anos e quatro meses de prisão, mas nunca entregou os mandantes. A Polícia Civil e o Ministério Público constataram que ele trabalhava como segurança em um haras de Nicolau, o avô de Renata, na cidade de Sorocaba (99 km de SP).

A acusação contra Renato também tem como base o telefone fixo do haras da família que o ex-policial tinha em sua agenda. A vítima também fez o reconhecimento do atirador junto à Corregedoria da PM.

A publicitária ainda tem uma bala alojada na coluna cervical. Ela disse à reportagem que "nunca brigou por herança" e que pretende "virar uma página da vida e viver feliz". Também disse confiar na decisão dos jurados. "Eu tenho certeza que ele vai ser condenado. Só eu sei o que foi todo esse período, desde o meu nascimento", afirmou.

Renata relembrou das dificuldades que passou após ser baleada. "Eu tive que ficar por meses tomando líquido. Foi um período moroso, complexo e difícil. Acho que chegou o momento de ser feita a Justiça. O que espero é que os jurados vejam a verdade e condenem ele." Ela chegou a usar máscaras cirúrgicas para esconder a cicatriz no rosto.

A vítima conta que ela e seus parentes sempre se sentiram ameaçadas pela família do pai e do avô. Segundo o processo, os dois sempre faziam questão de dizer que tinham policiais militares trabalhando como seus seguranças. Durante o processo, um oficial de Justiça foi abordado por PMs em trajes civis no haras de Nicolau.

Ela se lembra de todos os momentos do atentado e afirma ter pressentido a encomenda de sua morte "no primeiro tiro".

"Ele [o Papai Noel] chegou e começou a atirar sem dizer nada." Meses antes de sofrer a tentativa de homicídio, ela se sentiu ameaçada pelo avô. "As ações na área cível [das pensões] estavam correndo e ele me ligou dizendo que eu tinha direito a pensão até os 24 anos, mas que não sabia o que poderia acontecer até lá."

Ainda de acordo com a publicitária, antes de sofrer o ataque, Renato sempre se mostrou violento. "Meu pai tinha uma maneira de agir diferente, era agressivo, tinha alterações de humor e sempre se preocupava em saber o que minha mãe tinha deixado [de herança]. Tanto é que logo depois que eu fui emancipada, ele soube que minha mãe tinha uma propriedade e quis tirar a minha pensão."

Após a morte de Iara, Renata precisou ser emancipada para ter direito a uma propriedade que estava em nome da mãe que morreu de câncer quatro anos antes do atentado. Nesta época, Renato começou a manter contato telefônico com a filha. Segundo o processo, o objetivo dele era saber o valor dessa propriedade para deixar de pagar as pensões alimentícias que tinha sido condenado a quitar de forma retroativa.

Renata conta que o pai e a mãe, Iara Lúcia Chinaglia Guimarães, namoraram por dois anos e decidiram ter um bebê. "Eles optaram por essa gravidez. Ela não aconteceu por acaso, foi uma decisão de ambos. Após a notícia da gravidez, houve uma recusa do meu avô Nicolau e meu pai não teve coragem de assumir."

Foi então que a mãe e a família materna da publicitária buscaram o reconhecimento da paternidade e o pagamento de pensões alimentícias atrasadas, direitos que só vieram a partir dos dez anos de idade de Renata. "Meus avôs paternos eram muito tradicionais, e como eles namoraram por dois anos, meu avô não aceitou o fato de não ter o nome do pai."

A publicitária se encontrou poucas vezes com a família do pai. "Eu tive poucos contatos, um foi com 14 anos quando eu fui fazer o exame de DNA. Eu já tinha o sobrenome dele, mas meu pai solicitou um novo teste. Depois que minha mãe faleceu, quando eu tinha entre 16 e 17 anos, tivemos alguns contatos para marcar encontros que nunca ocorreram. E, posteriormente, quando fui no cartório para ser emancipada."

Na denúncia apresentada à Justiça pelo Ministério Público em 2008, o promotor Roberto Tardelli, responsável pelo caso na época, disse que "Renata jamais foi aceita como filha e o fato de ter sido confirmado o parentesco tornou-a alvo do ódio da família paterna, que nela via uma herdeira indesejada e que aciona o pai juridicamente para o recebimento de pensão".

A família paterna chegou a contestar a paternidade até no Supremo Tribunal Federal, mas também perdeu. A decisão de assassinar a publicitária, segundo a Promotoria, veio quando o pai e o avô de Renata perceberam que "se esgotavam as manobras escapistas e que o patrimônio familiar um dia repousaria nas mãos da indesejada herdeira".

Na denúncia, Tardelli argumenta que Renato e Nicolau "agiram em absoluta comunhão de vontades e voltados à prática do mesmo ato criminoso, marcadamente agindo por motivo torpe, qual seja a exclusão de Renata do rol de herdeiros, bem como a exoneração da pensão decorrente do parentesco".

Pai e filho tiveram a prisão preventiva decretada em 2008, mas ficaram detidos apenas por cerca de 60 dias. Um habeas corpus permitiu que ambos respondessem ao crime em liberdade.

Quem irá representar o MP no júri a partir desta quarta-feira é o promotor Felipe Zilberman. Para ele, Renata sobreviveu por "um milagre" ao atentado de 2001. "Ele deu quatro tiros e um falhou. Um deles atravessou a bochecha e destruiu a arcada dentária. No segundo tiro ela se defendeu e pegou no braço." Zilberman espera a condenação do réu. Segundo ele, Renato pode pegar até 20 anos de prisão por tramar a morte da própria filha.

OUTRO LADO

O advogado Rodrigo Senzi Ribeiro de Mendonça, que defende Renato, acredita que seu cliente será absolvido pelos jurados. "Não existe nenhuma prova de ligação entre o suposto autor dos disparos e o Renato."

Sobre o telefone da fazenda que o ex-PM tinha em sua agenda, uma das provas que serão apresentadas pelo Ministério Público, o defensor afirma que trata-se de um número comercial "divulgado ostensivamente na região. Qualquer um poderia ter acesso, já que a fazenda vendia cavalos. Os números particulares de Renato e Nicolau não constavam na agenda", afirmou.

Ele também rebate a acusação do Ministério Público de que o crime foi cometido por motivos financeiros, para evitar que Renata tivesse direito aos bens da família. "Quem tinha algum patrimônio era o avô, Nicolau. A vítima não era herdeira direta do avô. Renato tem mais dois irmãos. Se quisesse prejudicar a vítima, mais fácil seria gastar todo o patrimônio e não deixar nada." Mendonça acredita "na avaliação isenta dos jurados e tem convicção que Renato será absolvido".

FEMINICÍDIO

A advogada criminalista Luiza Nagib Eluf, afirma que "os júris costumam ser severos em casos de assassinato em família". Segundo a especialista, que é procuradora do Estado de São Paulo, "a ausência do pai magoa homens e mulheres da mesma forma, quando estão no papel de filhos rejeitados. Já o genitor, por vezes, rejeita mais a filha do que o filho, por preconceito de gênero, o que é absurdo."

Ainda de acordo com a Eluf, quando os autores não declaram explicitamente a motivação de um crime, o entendimento "é sempre uma ilação". "Nas sociedades patriarcais, a misoginia é a causa de muitas atitudes que vitima mulheres, inclusive o homicídio." De acordo com a criminalista, Renata era uma "pedra no sapato" do pai e do avô. "Sendo ela mulher, é possível que o ódio tenha se intensificado e levado ao desejo de matar."

No entanto, ela afirma que essa é apenas uma das hipóteses. "Temos que aguardar o pronunciamento da Justiça, mas se o motivo do crime se fundou no preconceito, seria um feminicídio, que tem pena mais alta do que o homicídio simples, mas que não não estava tipificado à época do delito." O feminicídio foi um crime incluído recentemente na legislação. Como o Código Penal não retroage, a tipificação não pode ser usada contra o pai de Renata.

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