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Pichadores escrevem 'Chora, Doria' em letras gigantes no muro do Pacaembu

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JULIANA GRAGNANI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Antes que São Paulo amanhecesse em seu aniversário com uma pichação gigante mandando seu prefeito chorar, a gestão João Doria (PSDB) mandou apagar mais uma manifestação contra ele.

Na noite desta terça (24), os muros beges do estádio do Pacaembu receberam grandes quantidades de tinta preta formando a expressão "Chora, Doria". As letras, com ao menos cinco metros de altura, se estendiam do solo ao topo do muro.

O resultado foi publicado em uma conta de Instagram sobre pichação por volta das 21h desta terça (24). Na madrugada de quarta, às 2h, a intervenção já havia sido apagada -restava o "A", última letra de "chora", em uma porta de madeira.

Foi ao menos a segunda pichação contra Doria feita nesta terça (24) na cidade. No início da tarde, um trecho da 23 de maio teve seu nome pichado 12 vezes em sequência. Três horas depois, a parede já tinha sido limpa novamente.

Essa guerra do spray em São Paulo é uma resposta à campanha do prefeito contra pichação -atividade que pode ser enquadrada como dano ao patrimônio ou crime ambiental- e à eliminação de grafites na 23 de maio, onde essas obras compunham desde 2015 um painel de 5,4 km de extensão, segundo a gestão Fernando Haddad (PT).

A remoção dos grafites da 23 de maio, medida que começou na semana passada, provocou reação da população. Ali, o prefeito afirmou que manterá oito trechos grafitados -"os demais já estão envelhecidos ou foram mutilados por pichadores", disse.

Há grafiteiros que defendem apagar periodicamente esses murais para dar espaço à renovação. Outros, como o grafiteiro Mundano, 30, classificam como um equívoco a decisão de apagar os grafites da via. "Uma cidade linda não é uma cidade cinza", diz Mundano, em referência ao nome do programa de zeladoria urbana de Doria. "Sou contra uma cidade monocromática, calada.". No fim de semana, um grupo de ativistas fez uma caminhada pela via, registrando os grafites que ainda restam ali.

A pressão contra a pichação, por outro lado, não gerou reação da sociedade civil. Entre os pichadores, porém, as declarações de Doria contra a atividade funcionou como um desafio, incitando mais intervenções. Pichadores ouvidos pela reportagem há duas semanas disseram que os anúncios de Doria lhes davam mais vontade de pichar as paredes da cidade.

Em um edifício no terminal Bandeira (centro de São Paulo), um rapaz de 33 anos da "família" Telas pichou "Doria, 'pixo' é arte". Ele diz que aquilo "não foi para atacar". "Queria expor para ele que por mais que seja vista como poluição visual aqui, lá fora a pichação é vista como arte", diz, admitindo que não gostaria de ter a casa pichada, "mas teria que aceitar". Outros pichadores dizem que a pichação é vandalismo e uma forma de expressão de uma parcela da população, "que não provoca, mas denuncia a degradação da cidade", segundo outro integrante do grupo Telas.

Na zona leste, o grafiteiro Todyone, 33, pintou um Doria vestido de gari, varrendo a pichação para debaixo do tapete e dizendo: "Isso não é arte! Romero Britto é 'top'!".

'GRAFITÓDROMO'

A gestão Doria quer criar uma espécie de "grafitódromo", com café, loja e um espaço de convivência para oficinas, segundo o secretário de Cultura, André Sturm. Ele diz estudar locais na Mooca (zona leste) e na Sé. "Será um local para aprender técnicas, de referência", diz.

A ideia é inspirada em Wynwood, em Miami, distrito onde galerias se estabeleceram após uma onda de gentrificação.

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