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Discurso extremista põe Trump e Cruz na frente na Carolina do Sul

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MARCELO NINIO, ENVIADO ESPECIAL
COLUMBIA, EUA (FOLHAPRESS) - O desejo de ver um conservador na Casa Branca, após sete anos frustrada com a presidência do liberal Barack Obama, tirou Elizabeth Kilmarton de sua pacata vida de dona de casa em Columbia, na Carolina do Sul.
Há três meses, ela se engajou na campanha do senador ultraconservador Ted Cruz, o político mais à direita entre pré-candidatos republicanos.
"Cansei de apoiar candidatos que repetem velhos discursos e não apontam uma direção clara para o país. Precisamos de uma eleição de extremos, para a América voltar a ser o que era", diz Elizabeth, segurando um cartaz de Cruz num cruzamento de Columbia ao lado do marido e duas amigas.
Elizabeth não está sozinha entre os eleitores da Carolina do Sul, tradicional bastião do conservadorismo. Neste sábado, o Estado será a terceira escala das prévias do Partido Republicano para a escolha de seu candidato nas eleições presidenciais de novembro e os mais radicais estão na frente, segundo as pesquisas: em primeiro, o magnata Donald Trump, seguido de Ted Cruz, senador pelo Texas.
O teor extremista da campanha Trump se concentra nas promessas para conter a imigração e reforçar a segurança doméstica, como a construção de um muro na fronteira com o México, a deportação de todos os 11 milhões de estrangeiros e o veto à entrada de muçulmanos no país.
Para observadores políticos da Carolina do Sul, as pesquisas mostram que o Estado reforça uma tendência favorável a Trump: quanto mais é atacado, mais ganha simpatizantes, numa campanha pautada pela insatisfação contra o poder estabelecido e pelo sucesso dos "outsiders", políticos desvinculados da cúpula do partido.
Até a suposta crítica do papa Francisco ajuda Trump, afirmou o jornal "The Times and Democrat", um dos mais antigos da Carolina do Sul, com 135 anos.
"Mesmo quem desaprova o comportamento e a língua de Trump estão balançados com sua total rejeição da conduta política convencional. As críticas só endurecem os corações dos simpatizantes de Trump", disse o jornal, em um editorial publicado nesta quinta (19).
Enquanto isso, Cruz apela à intransigente defesa dos "valores cristãos" para conquistar os corações dos republicanos do Estado, onde 6 em cada 10 pessoas se declaram evangélicos.
Sua campanha tem buscado desqualificar os principais rivais, descrevendo-os como falsos conservadores. A principal arma é revelar inconsistências ideológicas no passado, como uma antiga entrevista de Trump em que o magnata se declara a favor do direito ao aborto, um sacrilégio na cartilha republicana.
As referências religiosas estão sempre presentes no discurso de Cruz, mesmo quando ele fala de assuntos que não estão ligados às causas do conservadorismo social, como a guerra ao terror.
"Quando terroristas radicais declaram jihad contra nós, a resposta não é tuitar insultos", afirmou Cruz, durante um comício, ironizando o farto uso das mídias sociais por Donald Trump. "A resposta é lançar a fúria santa dos Estados Unidos".
O principal adversário de Cruz na Carolina do Sul, no entanto, é outro senador, o mais moderado Marco Rubio, que na média das pesquisas de opinião está em terceitro, mas apenas um ponto percentual atrás de Cruz. Só dos cofres de um dos grupos de apoio a Cruz saíram US$ 3 milhões para a campanha no Estado.
A maior parte do dinheiro foi investida em publicidade contra Rubio, que Cruz acusa de ter um currículo frouxo na repressão aos imigrantes ilegais.
A radicalização da retórica republicana é vista também como uma resposta ao que ocorre na campanha do Partido Democrata, que será o adversário na eleição de novembro.
Com sua imagem de socialista e os ataques à elite econômica do país, o senador Bernie Sanders empurrou para a esquerda a favorita democrata, Hillary Clinton. Assim como Kilmarton, 44, muitos republicanos acreditam que só um republicano com credenciais conservadores comprovadas será capaz de tirar os democratas da Casa Branca. Para ela, a polarização política do país é algo positivo.
"Se Hillary e Bernie estão perto do socialismo, precisamos de alguém forte para rechaçá-los. Uma eleição com Cruz exporá os dois extremos e permitirá ao país escolher sua direção", afirma.