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Tradicional no interior, orquestra de Ribeirão agoniza com pouco patrocínio

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MARCELO TOLEDO
RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - A primeira vez em que viu a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto se apresentar, ainda criança, ele se emocionou e passou a estudar para um dia fazer parte daquele seleto grupo de músicos. Conseguiu.
Nos últimos meses, voltou a chorar. O motivo é outro: não recebe salários em dia da orquestra há seis meses e se vê obrigado a trabalhar como mototaxista ou vendedor de cosméticos para pagar as contas e preparar a família para o filho que chegará nos próximos meses.
A história do trompetista Natanael Tomas, 22, é apenas uma da crise que atinge a orquestra que já teve Roberto Minczuk como seu regente titular. Além dos salários seguidos com atraso, o jovem músico não recebeu também o 13º do ano passado e parte dos rendimentos de dezembro.
Uma das mais tradicionais do interior, a OSRP teve seu auge nas regências de Minczuk (1995-2000) e Cláudio Cruz (2002 e 2005-11). Nas ocasiões, era comum a orquestra encher o Theatro Pedro 2º com suas apresentações.
Mantenedora da orquestra desde 1938, a Associação Musical de Ribeirão Preto vive uma das maiores crises de sua história e vê o desinteresse tomar conta de músicos e a dificuldade para angariar patrocínios.
Com custo estimado de R$ 3 milhões anuais, a orquestra ainda perdeu neste ano uma verba de R$ 400 mil da Prefeitura de Ribeirão Preto. Patrocinadores como Arteris (concessionárias de rodovias) e usinas de açúcar e etanol (Companhia Energética Santa Elisa, por exemplo) deixaram de patrocinar o grupo musical nos últimos anos.
Com isso, nos cálculos de três músicos ouvidos pela Folha, ao menos dez já abandonaram a atividade nos últimos meses devido às dificuldades. Restam cerca de 45, que, segundo eles, tocam mais por prazer que por profissão. No auge, já foram mais de 60 músicos número considerado adequado para uma orquestra.
Um violinista conta que deveria gastar mais de R$ 200 num jogo de cordas para seu instrumento, mas tem comprado um de qualidade inferior por menos de R$ 50 -o que interfere na qualidade musical-, por não ter dinheiro. Esse é outro obstáculo da orquestra: em outras, os músicos recebem uma ajuda de custo para manter os instrumentos, o que não ocorre em Ribeirão.
FAIXAS PEDEM AJUDA
Desde que a crise foi deflagrada, músicos têm exibido faixas ao final das apresentações pedindo ajuda para a orquestra não acabar. O maestro João Carlos Martins também se apresentou de graça, em julho, num concerto com o objetivo de arrecadar dinheiro para pagar os músicos.
“Faltam músicos para trombone, fagote, trompa e oboé. Chorei dias escondido por trabalhar como mototaxista, não pela profissão, mas por ser algo muito distante do que sonhei. Quase morri no trânsito, deixei de estudar e perdi a possibilidade de participar de festivais por não estar tocando”, disse Tomas.
A falta de dinheiro existe, por exemplo, porque patrocinadores potenciais ‘fugiram‘, em virtude da crise na economia.
Os repasses da prefeitura também secaram. A verba, que até o ano passado foi de R$ 400 mil, não foi repassada neste ano. A entidade tem, também, associados, mas o número é considerado pequeno diante da necessidade.
O salário dos músicos é outro problema para atrair grandes nomes e tentar reverter a crise: em média, cada um ganha R$ 3.000, valor que equivale à metade do recebido em outras orquestras.
Presidente da associação, o promotor Cyrilo Luciano Gomes Junior disse que a instituição enfrenta “muita dificuldade para conseguir sobreviver”.

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