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Ao menos dez menores são recolhidos em blitz no Rio de Janeiro

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BRUNA FANTTI E RONALD LINCOLN JR.
RIO DE JANEIRO, RIO (FOLHAPRESS) - Às 13h da tarde deste domingo (27), quatro meninos entre 8 e 11 anos tinham como almoço os doces que ganharam na rua, tradição do dia de São Cosme e Damião, padroeiros das crianças.
Sem dinheiro ou documentos, usando apenas bermudas e chinelos –alguns, descalços - esperavam sentados para serem atendidos no Centro de Acolhimento da Prefeitura, em Laranjeiras, zona sul do Rio. Haviam sido retirados de um ônibus da linha 474 (Jacaré-Jardim de Alah), após uma blitz da polícia.
A reportagem acompanhou a trajetória dos menores desde o embarque, às 11h30, na altura do Largo da Cancela, na zona norte.
O quarteto entrou correndo pela porta traseira do ônibus, para não pagar a passagem. "Vem, vem que dá", disse um deles para outros menores que tentavam subir, mas não conseguiram após o motorista fechar a porta e arrancar com o veículo.
O ônibus seguiu e, com o sacolejo, as crianças dormiram. Esperavam descer em alguma praia da zona sul - Copacabana, a mais próxima, ficava a 18km do local em que embarcaram, um percurso de cerca de 40 minutos.
OPERAÇÃO VERÃO
Dez minutos depois da entrada do grupo, o ônibus foi parado em uma blitz na Leopoldina, zona portuária. Três policiais militares entraram e olharam para os passageiros. Dois dos menores, que estavam sentados juntos, foram abordados pelos policiais, mas liberados.
Três pontos de ônibus depois, em nova barreira, em frente à Central do Brasil, o grupo inteiro foi retirado do veículo por policiais. "Vocês são menores, se queriam ir à praia deveriam estar com seus pais", argumentou um dos agentes, em tom amistoso.
Os quatro garotos foram reunidos a outros dois que já haviam sido apreendidos e que aguardavam sentados na calçada a chegada da van da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.
Arredios, perguntaram ao policial para onde seriam levados. Em uma tentativa de por fim às reclamações, e sem saber da presença da imprensa, um dos assistentes sociais que trabalham para a secretaria diz: "Vão para [o bairro de] Santa Cruz, e no caminho tem a [favela] Vila Aliança. Se os bandidos pegarem vocês, vão botar para subir [matar]". O grupo se calou.
Foram levados ao abrigo em Laranjeiras, onde estavam assistentes sociais e a imprensa. Ao descerem da van, um deles foi abraçado por um assistente. "Cai fora", disse, esquivando-se. Outro reconheceu e cumprimentou um dos funcionários: "Olha eu aqui de novo, tio".
Os quatro disseram ser do Jacaré, na zona norte. "A gente só estava pegando doce, tia. Queríamos ir para a praia curtir. Não ando de identidade porque, se perder, a mãe briga", disse um à reportagem, enquanto comia uma maria-mole.
Sentados ao lado dos outros dois menores recolhidos na Central, todos negros, reclamaram ao ver um garoto branco, de 17 anos, sendo liberado pelos assistentes. "Ih, a lá", disseram, apontando a cena.
Felipe, 17, havia sido recolhido pela polícia em um ônibus da linha 455 (Méier-Copacabana), por estar sem identidade e sem dinheiro. Morador do Complexo do Lins, na zona norte, levava um isopor com pequenos copos de água.
"Tenho mulher e uma filha bebê para sustentar. Sou trabalhador", disse aos agentes, antes de sair andando do abrigo. Ele afirmou não lembrar do telefone da mulher ou de outros familiares.
Indagados sobre a diferença no tratamento entre os menores, um agente justificou: "É óbvio que ele quer trabalhar. A gente tem que ter bom senso", disse.
Até às 15h do domingo (27), cerca de dez menores haviam sido conduzidos ao centro de triagem da Prefeitura. Caso os responsáveis não fossem localizados, seriam enviados para abrigos.
No sábado (26), primeiro dia da Operação Verão, que foi antecipada em três semanas com o objetivo de evitar arrastões e recolher menores que se encontravam em situação de vulnerabilidade social, 12 menores haviam sido enviados ao centro. Nenhum foi apreendido cometendo crime.
"A gente está comendo doce, mas daqui a pouco tem um lanche. É bom o lanche daqui", afirmou um dos menores, rindo.




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