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Pacote do clima deve ser visto com cautela, afirmam especialistas

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ISABEL FLECK
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Especialistas receberam com certo otimismo - mas, principalmente, com cautela - as metas para redução de emissões de gases estufa que o Brasil levará para Paris em novembro, anunciadas pela presidente Dilma Rousseff neste domingo (27), em Nova York.
Em discurso na Conferência da ONU para a Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, Dilma disse que o país cortará 37% das emissões até 2025 e 43% até 2030, tendo como base o ano de 2005.
Para o advogado Eduardo Matias, autor de "A Humanidade contra as Cordas: a luta da sociedade global pela sustentabilidade", é preciso considerar a meta apresentada com base no cenário atual de emissões para se ter uma ideia da "ambição" do Brasil.
Matias lembra que o Brasil já havia reduzido, de 2005 a 2012 (último dado oficial disponível), 41% das emissões. O proposto pelo governo é uma redução, de 2005 até 2025, de 37% - menor do que o já alcançado em 2012.
"A redução, da forma como ela está sendo colocada, até 2025, representa um aumento. Provavelmente as emissões subiram um pouco [nos últimos dois anos e meio], mas esse raciocínio valida ou não a ambição da meta, porque elas têm que ser ambiciosas em relação ao nosso estágio atual", afirma.
O especialista observa que há várias formas de apresentar a meta de cortes - e as mais "honestas" seriam mostrando o percentual de corte relativo às emissões de hoje ou em relação à projeção do que estaríamos emitindo de gases em 2025 se não houvesse qualquer intervenção, o chamado "business as usual".
"A forma que foi apresentada em Nova York [com base em 2005] é a que tem mais impacto", afirma. "Se as metas são ambiciosas mas estão resgatando esforços que já foram feitos, como para combater o desmatamento, precisamos saber daqui pra frente, o quanto a gente vai acrescentar de esforço."
Outros países, com os EUA, também apresentaram suas metas tendo como referência 2005, um ano de grande volume de emissões.
Avanço
Estimativas do Observatório do Clima mostram que, de 2012 para 2013, houve um aumento de 7,8% no aumento das emissões no Brasil, de 1,46 bilhão de toneladas, para 1,57 bilhão de toneladas de gases estufa. E a tendência segue sendo de crescimento, segundo Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório.
"A tendência é que a gente chegasse em 2020 com emissões maiores do que aquelas que tivemos em 2012", afirma Rittl, destacando que, portanto, o corte de 37% proposto pelo governo para 2025 possivelmente ainda significaria uma redução.
"Passaremos das emissões de 2012 em algum momento entre agora e 2024 e, pelo menos em 2025, estaríamos num caminho de redução", diz.
Para ele, no entanto, é preciso avaliar o documento que será apresentado na Conferência do Clima em Paris pelo Brasil, porque, pelo discurso de Dilma, não é possível saber se a redução se refere, por exemplo, a emissões líquidas ou brutas.
"Se vier só o número de redução percentual vai dar margem a interpretações posteriores", afirma.
Rittl considera que a proposta brasileira está numa "direção positiva", apesar de ter divulgado o número deste domingo sem uma discussão mais ampla com os diversos setores da sociedade.
"O Brasil chega na mesa com um compromisso que permite olhar para o lado, dialogar e dizer que estamos dispostos a contribuir para o acordo em Paris, mas ainda não é tudo o que podemos fazer, tanto do ponto de vista de clima como da nossa própria economia", afirma. "Temos potencial de fazer mais e com ganhos para o país."
Matias afirma que o documento a ser levado a Paris deve trazer também as políticas que o governo pretende adotar para chegar a essas metas.
"Fala-se no aumento da eficiência ou de utilização de fontes renováveis, mas como vai ser feito isso? Qual o tipo de incentivo que vai ser dado: vai ter algum tipo de incentivo fiscal para investimento em energias renováveis ou para adoção dessas energias?", questiona.
Ele admite, contudo, que, comparada às metas de outros países que já foram anunciadas, a do Brasil é "compatível". "Talvez até um pouco mais ousada, mais detalhada que as outras", diz Matias. "Mas a conclusão é que, infelizmente, com essas metas atuais globais, a gente não vai conseguir deter o aquecimento em 2ºC."

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