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Parentes acusam México de evitar esclarecer sumiço de 43 estudantes

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DIEGO ZERBATO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No início de uma caravana pelo Brasil, uma comissão de pais e um estudante da Escola Normal Rural de Ayotzinapa acusaram o governo do México de não querer esclarecer o desaparecimento de 43 estudantes da instituição, em setembro de 2014.
Os estudantes foram alvo de uma emboscada policial ao deixar Iguala (a 192 km da Cidade do México) depois de fazer uma atividade de arrecadação. Além dos desaparecidos, três alunos foram mortos e outros 12 ficaram feridos.
Na versão oficial, os 43 alunos foram mortos pelos policiais e por traficantes do cartel Guerreros Unidos e levados a um lixão, onde foram queimados. No local, foi encontrada a arcada dentária de Alexander Mora, o único estudante que foi identificado.
Em entrevista em São Paulo, Mario Cesar González, pai do estudante desaparecido Cesar González, acusou as autoridades de não ter provas concretas do paradeiro dos alunos. "Não nos dizem nada, não fazem um balanço. Primeiro dizem que o caso estava encerrado e depois reabrem."
Assim como outros parentes das vítimas, ele não acredita na versão do governo e pede que sejam abertos os quartéis do Exército e da polícia, para onde, na versão dos estudantes, podem ter sido levados parte dos desaparecidos.
"Querem encerrar o caso, mas ele nunca terminou de fato. Nós queremos uma solução dessa situação, que só será quando tivermos nossos companheiros de volta", afirmou o aluno Francisco Nava, que presenciou o ataque em Iguala.
Nava afirma que os estudantes não receberam a ajuda de ninguém nas horas seguintes à emboscada. Depois de buscarem refúgio em um hospital, ele diz ter recebido ameaça de militares que foram à unidade de saúde.
"Alguns apontaram o cano das suas armas e diziam que nós merecíamos o que recebemos, que nós éramos uns vândalos, uns delinquentes. Diziam: 'Aguentem, filhos da mãe, se são tão machos'. Respondíamos que éramos só estudantes."
ESTADO DO TRÁFICO
Durante a entrevista, Nava e os pais das vítimas que estavam presentes chamaram o México de "narcoestado", em referência ao envolvimento dos cartéis do tráfico de drogas com os governos locais.
"Não sabemos quem são as autoridades. São eles que se dão ao luxo de matar camponeses, que se dão ao luxo de matar as pessoas que só querem reivindicar os seus direitos. É como se estivéssemos em uma ditadura", disse o estudante.
Mario Cesar González e sua mulher, Hilda, disseram ter vendido alguns de seus bens e ter deixado sua casa em Tlaxcala (a 121 km da capital) para poder continuar as buscas por seu filho no Estado de Guerrero.
Além das vendas de bens dos parentes das vítimas, os estudantes, que estão em greve desde o desaparecimento, também perderam a ajuda alimentar do governo estadual, de 50 pesos (R$ 10) diários para cada um dos 520 alunos.
Sobre as eleições locais em Guerrero, onde movimentos que apoiam os alunos pregaram o boicote e alguns deles queimaram cédulas eleitorais na noite de segunda (1º), González disse que os pais não defendem nem criticam quem vota.
"Estamos conscientes de que não somos ninguém para pedir que votem ou não, mas que tenham consciência do que está acontecendo no país."
A comissão agradeceu o apoio de movimentos sociais mexicanos e de outros países para continuar a caravana, que antes de chegar ao Brasil passou por Argentina e Uruguai. No país, ela ainda deverá passar por Porto Alegre e Rio de Janeiro.




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