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Censura impede longa de Louis C. K. de fracassar em bilheterias

Da Redação ·
Censura impede longa de Louis C. K. de fracassar em bilheterias
Censura impede longa de Louis C. K. de fracassar em bilheterias

SÉRGIO ALPENDRE

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como efeito colateral do bem-vindo dominó de cafajestes que atinge Hollywood, a censura vem punindo não só diretores, produtores e protagonistas, mas também quem para eles trabalha.

Louis C.K., segundo relatos, se masturbou diante de duas atrizes que não queriam ser testemunhas da cena. Outras três atrizes disseram ter sido assediadas por ele, que pediu desculpas a todas. Mas é fácil se desculpar depois de feitas as besteiras.

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A consequência veio logo, com o cancelamento da estreia de seu primeiro longa, "I Love You, Daddy".

O público foi assim privado de ver o trabalho impressionante de Chloë Grace Moretz, John Malkovich, Helen Hunt, Charlie Day e Rose Byrne, que nada tiveram a ver com o pecado. Além do próprio Louis C.K., que não deixou de ser bom comediante no instante em que foi acusado.

Até o momento, Portugal foi o único país que se recusou a censurar uma obra pronta, exibindo o longa de Louis C.K. para que os espectadores decidissem se queriam ou não ver o trabalho de um assediador. Ficou em cartaz por uma semana em Lisboa e teve público modesto, no qual se incluiu este crítico.

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Curiosamente, o filme tem um personagem coadjuvante que simula masturbação diante de uma mulher (masturbação é tema constante no trabalho de Louis C.K.). Passa ainda por alguns assuntos atuais, ligados de certo modo às acusações recentes.

Por exemplo, uma discussão interessante sobre o que é pedofilia, em que a personagem de Rose Byrne diz não ver sentido em mudar algo só porque alguém fez 18 anos, ou que seria absurdo uma garota menor de idade só poder satisfazer seus desejos com outros menores, e não com alguém mais experiente.

Num ambiente em que as pessoas preferem o linchamento ao pensamento, discussões como essa talvez façam o filme fracassar. De todo modo, melhor fracassar nas bilheterias do que nem ter chance de chegar a elas.

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A conversa obviamente remete ao caso de Roman Polanski, impedido de entrar nos EUA por ter estuprado uma garota de 13 anos em 1977. Outras mulheres dizem ter sido assediadas por ele quando eram menores.

Remete também, embora sem querer (o caso veio à tona após o filme estar pronto), a Kevin Spacey, que assediou o ator Anthony Rapp, quando este tinha 14 anos. Acusações semelhantes contra ele surgiram na sequência.

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Formalmente, "I Love You, Daddy" é uma comédia centrada em diálogos. Muitos a comparariam ao cinema de Woody Allen, mas Louis C.K. como diretor é bem mais discreto e dependente das palavras do que seu colega, um encenador de primeira, e também acusado, anos atrás, de assédio e pedofilia.

O diretor interpreta Glen Topher, artista de TV muito bem-sucedido, mas em crise criativa, cuja maior preocupação é cuidar de China (Moretz), sua filha, em plena curiosidade sexual dos 17 anos.

Ela conhece Leslie Goodwin (John Malkovich), um artista de 68 anos, e se encanta por ele. Como impedir que a filha deseje um homem muito mais velho? (Eis onde entra a discussão citada.)

"I Love You, Daddy" está longe de ser especial. Tem bons diálogos e ótimos atores, mas lhe falta um aspecto mais cinematográfico, que o preto e branco e a homenagem às comédias dos anos 1940 não conseguem dar. É sempre perigoso quando obras artísticas, boas ou más, são censuradas pelo comportamento de seus autores. Como ver algum filme de Charlie Chaplin, que tanto nos encanta há anos, se olharmos com olhos de hoje para seus excessos do passado?

Separar obras e criadores sempre foi um imperativo. Mas, nos nossos dias apressados, talvez tenhamos chegado muito perto de um mundo regido por sentimentos fascistas, mesmo quando movido pelas boas causas.

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