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Documentário sobre ideias de Freud tem discurso monolítico

Da Redação ·

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ALEXANDRE AGABITI FERNANDEZ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As ideias de Freud logo ultrapassaram os limites da clínica e do debate psicanalítico para marcar profundamente a cultura ocidental. Dirigido pelo psicanalista Francisco Capoulade, este documentário pretende oferecer uma visão abrangente do ideário freudiano e de sua recepção no Brasil, enfatizando sua dimensão cultural. Assim, ganham destaque temas como a linguagem, a identidade, o contexto histórico e cultural da Viena de Freud e do Brasil do século 20.

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O título tem um neologismo que une as palavras "história" e "estória", apontando para o lugar central que a narrativa -representada pela literatura e o mito- ocupa na construção do arcabouço teórico-clínico da psicanálise.

O documentário se baseia em entrevistas com 23 leitores de Freud. São psicanalistas, filósofos, escritores e tradutores como Sérgio Paulo Rouanet, Christian Dunker, Lucia Valladares, Claire Gillie, Joel Birman, Luiz Alberto Hanns, Terêncio Hill, Miriam Chnaiderman, André Carone, Monique David-Ménard, Paulo César Souza, Ricardo Goldenberg, entre outros. Até um cineasta, Marcelo Masagão, faz parte do grupo.

Mas a desmedida ambição de Capoulade em tudo abarcar num filme de uma hora e meia impede maiores aprofundamentos. Temas muito interessantes como a chegada da psicanálise ao Brasil, sua recepção pelos modernistas de 1922 e a discussão em torno das problemáticas traduções brasileiras da obra de Freud não avançam muito.

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As falas dos entrevistados são algumas vezes excessivamente laudatórias. Pior do que isso, nenhuma ideia de Freud é alvo de crítica; como se questionar a ênfase na sexualidade -para citar apenas um aspecto passível de exame- fosse uma heresia. O que se tem é um discurso monolítico e reverente, alheio à controvérsia.

Do ponto de vista formal, Capoulade simplesmente ignora a linguagem cinematográfica. Os entrevistados são enquadrados sem originalidade, como numa banal reportagem de televisão. Muitos deles aparecem diante de estantes repletas de livros, uma maneira escolar de indicar erudição. A sucessão de falas -que só é interrompida aleatoriamente por planos de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Paris- instala um ritmo de aula enfadonha.

Esses problemas afastam o documentário do grande público. É um filme de vulgarização científica que deve interessar principalmente estudantes.

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HESTÓRIAS DA PSICANÁLISE - LEITORES DE FREUD

DIREÇÃO Francisco Capoulade

PRODUÇÃO Brasil, 2015, 14 anos

QUANDO em cartaz