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"Me arrependo de ter apresentado Mizael a Mércia", diz irmã

Da Redação ·
 Claudia e Janete Nakashima, respectivamente, irmã e mãe de Mércia
fonte: Emílio Sant'Anna
Claudia e Janete Nakashima, respectivamente, irmã e mãe de Mércia

“Eu me arrependo todos os dias de ter apresentado Mizael a Mércia”. É com essa frase que Claudia Nakashima, irmã da advogada assassinada, resume o sentimento que ficou ao saber que Mizael Bispo de Souza, ex-namorado da vítima, é apontado pela Polícia Civil de São Paulo como o principal suspeito do crime. O advogado e policial militar aposentado nega a acusação.
 

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“Apresentei ele [Mizael] a minha irmã [Mércia] por uma questão de educação”, contou Claudia, que também é advogada, em entrevista concedida por telefone ao G1 na manhã desta segunda-feira (26).
 

Durante a conversa, ela demonstrou arrependimento por não ter impedido Mizael de conhecer Mércia. “Ele era da mesma sala que eu no curso de direito na UNG [Universidade de Guarulhos, na Grande São Paulo], mas não nos falávamos. Um dia, apareceu no meu escritório para tratar de uma ação em que ele pedia um acordo. Ele defendia um cliente que acusava o meu. Em seguida, ele foi estendendo a mão para Mércia e eu o apresentei por educação. Se pudesse, voltaria no tempo, e teria dado um tapa na mão dele para ele não cumprimentá-la e nunca mais vê-la”, disse Claudia, com a voz embargada.
 

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Depois desse encontro casual, em 2005, Mércia, que também estudava direito passou a trabalhar como sócio de Mizael, no escritório dele, num bairro afastado em Guarulhos. Não demorou e os dois começaram a namorar. “Não tive nenhuma intenção que eles namorassem. Sempre fui contra porque falavam na faculdade que ele era agressivo. Mas ela continuou o namoro, era o primeiro namorado dela”, recordou Claudia.
 

Ainda, segundo a irmã da vítima, Mércia deixou de namorar Mizael porque estava com medo dele. “Ela teria descoberto alguma coisa dele, que ele tinha feito, que a deixou com medo, mas nunca disse o que era”, afirmou.
 

Mércia era a caçula, tinha 28 anos, dois a menos que Claudia. Márcio, o irmão mais velho das duas, tem 32. Mais de um mês após terem enterrado a advogada, os parentes continuam a suspeitar da participação de Mizael na morte dela. “Ele soube enganar a Mércia direitinho”, disse a irmã.
 

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Brincadeira de mau gosto


A impressão negativa que Claudia diz ter tido a respeito de Mizael surgiu logo na primeira semana de aula. “Ele veio falar comigo e não gostei do jeito dele. Ele chegou quietinho, por trás de mim, e fez gesto na mão como se fosse uma arma quando eu abria a bolsa para pegar um dinheiro para o lanche. E nem o conhecia e ele fez brincadeira de mau gosto sobre assalto”, contou.

Desde então, as suspeitas de Claudia sobre o comportamento de Mizael aumentaram. “Ele sempre andou armado e deixava a arma em qualquer lugar. Uma vez chegou a discutir com meu irmão por causa disso”.

Represa

Mércia desapareceu em 23 de maio, após deixar a casa dos avós em Guarulhos. Uma denúncia feita por um pescador levou a família da advogada até uma represa em Nazaré Paulista, no interior do estado de SP. Em 10 de junho, os bombeiros retiraram o carro da vítima, que estava submerso nas águas. No dia seguinte, o corpo dela foi encontrado. Márcio e o pai de Mércia, Macoto Nakashima, estiveram no local. As televisões mostraram o corpo coberto por um plástico boiando na margem.
 

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Segundo Claudia, sua mãe, Janete Nakashima, ainda não conseguiu esquecer aquela imagem. “Temos uma chácara fora de Guarulhos, que não é em Nazaré, e sempre íamos lá com Mércia, mas recentemente, minha mãe falou: ‘antes eu gostava de vir para cá e olhar essa represa, mas agora vejo o corpo da sua irmã flutuando’”, afirmou Claudia. “Nós fomos para lá nesta semana porque a pressão da minha mãe baixou muito”.

Além dos traumas psicológicos, Claudia conta que sua família está revoltada e indignada com as declarações e insinuações feitas pela defesa de Mizael e pelo próprio suspeito do crime. "Quando tudo isso acabar vamos entrar com uma ação por danos morais a respeito do que eles afirmaram sobre minha irmã ter sido visto num ponto de tráfico e que poderia ter sido morta por um traficante. Isso é mentira. Ela nunca usou drogas”.
 

A respeito de nomes de outros suspeitos que os advogado do ex-namorado de Mércia lançam para a polícia investigar, Claudia comenta que isso não passa de uma estratégia desesperada da defesa do suspeito. Além de Mizael, o vigia Evandro Bezerra Silva também já foi indiciado pelo crime de homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Em depoimentos confusos, ele chegou a acusar o ex de ter matado Mércia por ciúmes e que o ajudou a fugir. Depois negou tudo: disse que confessou sob tortura policial. Atualmente, o vigilante está preso temporariamente. Mizael continua em liberdade.
 

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) deve concluir nesta semana o inquérito sobre o caso. Depois, o remeterá para o Ministério Público e a Justiça de Guarulhos.


Quanto à família Nakashima, ficam o lembranças, saudades, arrependimentos e desejo que a justiça seja feita. “Ela era uma pessoa linda, inteligente. Tantas pessoas que quiseram namorar com a Mércia. E a Mércia não quis. Infelizmente nada vai trazer ela de volta, mas vamos lutar para que o assassino pague pelo que fez atrás das grades”.