Deputados ouvem policiais de UPPs e moradores sobre violência no Alemão
MARCO ANTÔNIO MARTINS
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Após a morte de um menino de dez anos, vítima de uma bala perdida, na semana passada, o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, recebeu nesta sexta-feira (10) representantes da Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa) e da Defensoria Pública para tratar da violência na região.
Os dois órgãos ouviram moradores e ONGs que atuam na comunidade, que conta com UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) desde 2012. Ao mesmo tempo, em outro ponto da favela, os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro, deputados federal e estadual, respectivamente, também estiveram no local para conversaram com policiais militares das unidades pacificadoras.
Numa sala da Vila Olímpica do Alemão, em um dos acessos ao complexo, cerca de 50 moradores relataram aos representantes da Comissão de Direitos Humanos da Alerj casos de violência policial, mas também problemas de saúde, educação e falta de projetos sociais para a comunidade.
"Estamos aqui a pedido dos moradores. É lamentável que, neste momento, aconteça um outro encontro. Um outro deputado criou um factoide. A situação aqui é muito séria e envolve vidas de moradores e policiais, independente de partido político ou do voto", afirmou o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), presidente da comissão, sem citar nomes.
Durante cerca de duas horas, o deputado Freixo ouviu reclamações de moradores, que disseram ser constante os casos de violência policial. A rotina de tiroteios entre policiais e traficantes tem feito pessoas a voltarem a deixar o complexo, fato que não se ouvia desde a ocupação das forças de segurança, em 2010.
"Precisamos de ajuda. Já foi a minha esposa, já foi muita gente. Quem será a próxima vítima?", pergunta Carlos Roberto Francisco, 59, marido de Elizabeth de Moura Francisco, 40, morta por uma bala perdida no último dia 1º. Ela estava dentro de sua casa, no Complexo do Alemão, quando foi atingida.
Ao mesmo tempo em que os moradores relatavam a violência policial, PMs de UPPs se reuniam com os irmãos Bolsonaro na UPP do Alemão, uma das quatro instaladas no complexo. De lá, os dois deputados seguiram de teleférico até a UPP Nova Brasília de onde saíram a pé até a base na Fazendinha, outro ponto no interior do Complexo do Alemão.
Também por duas horas, o deputado estadual Flávio Bolsonaro ouviu policiais sobre as condições de trabalho e disse estar "escutando o outro lado". "Estou vindo fazer um trabalho complementar à Comissão de Direitos Humanos. Os policiais são sempre esquecidos. A ideia é captar a percepção de todos os lados", disse Bolsonaro antes de tentar ouvir moradores.
Ao abordar pessoas na Nova Brasília, os deputados Bolsonaro, que pediram para que os PMs se mantivessem à uma certa distância, ouviram relatos idênticos aos da comissão: "aqui os policiais chutam a gente", disse um morador que não quis se identificar por medo de represálias de traficantes.
"Precisamos estar em alerta o tempo todo para evitar 'surpresas' de traficantes. Nos faltam muita coisa, mas a polícia não consegue fazer nada sem ajuda de outros setores do governo", afirma um soldado da UPP do Alemão.
A Alerj realizará duas audiências durante os próximos 30 dias para tratar da violência no Complexo do Alemão. Em 4 de maio, moradores do complexo serão ouvidos. Já em 19 de maio uma audiência tratará das condições de trabalho para os policiais de UPP.
A troca de tiros constante entre policiais e traficantes fez quatro vítimas nos dias 1º e 2 de abril. Além de Elizabeth Francisco, outros dois homens, sem identificação, foram mortos. No dia 2, Eduardo de Jesus Ferreira, 10, foi atingido por um tiro de fuzil, na cabeça, quando estava na porta de casa, na favela Nova Brasília.
PMs que participaram de uma ação no dia da morte de Eduardo disseram na delegacia que, ao chegarem ao local, foram recebidos por disparos de traficantes. Na Corregedoria da PM e a colegas da tropa, dois soldados da UPP Nova Brasília admitiram ter feito os disparos. Esse relato não foi feito na Divisão de Homicídios que investiga o caso.
