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Sem movimentos, advogada escreve livro com o nariz

Da Redação ·
 Alexandra Szafir levou dois anos para escrever
fonte: Foto por Júlia Chequer/R7
Alexandra Szafir levou dois anos para escrever

A história de vida de Alexandra Lebelson Szafir – irmã do ator Luciano Szafir – já daria um livro. Advogada criminal que abria mão dos honorários para defender réus sem dinheiro, ela foi surpreendida, há quatro anos, por uma doença que tirou sua fala e seus movimentos do pescoço para baixo. Apesar de ter muito o que contar sobre sua experiência, ela preferiu usar os poucos movimentos da cabeça para, com a ajuda de um software e da ponta do seu nariz, escrever "Descasos - Uma Advogada às Voltas com o Direito dos Excluídos", um livro que conta as humilhações sofridas por quem procurou socorro na Justiça.

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Os problemas de saúde de Alexandra começaram a surgir em 2006, quando ela encontrou as primeiras dificuldades para andar. Depois de sentir câimbras em uma das pernas, ela perdeu totalmente o movimento dos membros inferiores sem saber o que estava acontecendo. Pouco tempo depois, foi diagnosticada com Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença rara que causa degeneração dos neurônios responsáveis pelas funções motoras. As pessoas perdem, gradativamente, todos os movimentos do corpo, mantendo, em muitos casos, a atividade intelectual.

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Apesar de ver sua vida mudar drasticamente de uma hora para outra, ela decidiu realizar um antigo sonho e, em 2008, começou a escrever sua obra. No livro, ela conta casos como o de uma mulher que mata o marido em legítima defesa e é humilhada pelo promotor durante o julgamento. O do homem que vai ao Poupatempo para tirar o RG, é preso e mantido na cadeia vários meses sem julgamento. Um magistrado que, dormindo durante uma sessão, não repara que o advogado está numa cadeira de rodas e pede para que ele se levante “devido às normas da corte”.

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Com o apoio de amigos, colegas advogados, familiares, do namorado e do programa de computador, Alexandra conseguiu terminar a obra, o “terceiro filho da advogada”, nas palavras de sua mãe, Beth Szafir.

O lançamento de “Descasos” aconteceu nesta segunda-feira (31) durante um animado coquetel realizado em Higienópolis, na região central de São Paulo.

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Luciano Szafir, que foi ao evento, falou da disposição pela vida da irmã, que mesmo com todas as dificuldades impostas pela doença continua “sempre sorrindo e de bom humor”.

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- A Alexandra tem uma força de viver incrível, uma espiritualidade absurda. Ela sempre foi um gênio e com uma força de vontade tamanha, que mesmo perdendo a fala ela conseguiu escrever. É uma doença muito dura, mas ela está sempre sorrindo, sempre de bom humor. Não sei como ela consegue. Eu estaria acabado [no lugar dela].

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O namorado, Alfio D'Ávila, que esteve ao lado de Alexandra na maior parte dos dois anos nos quais ela se dedicou a escrever a obra, conta que “cada pedacinho” do livro escrito era comemorado.

- Cada dia que passava, cada pedacinho a mais era uma comemoração. Certa hora ela deu o arranque, foi até o final, e cada dia era uma alegria maior por uma notícia de que o livro estava nascendo. Cada dia foi uma pílula de alegria até chegar hoje.

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Do mesmo modo como Alexandra trabalhava quando advogada, todos os envolvidos na produção do livro atuaram voluntariamente. Após receber o material de Alexandra, uma equipe da Editora Saraiva trabalhou nas horas vagas, em casa, para que “Descasos” pudesse ser publicado. É o que conta o diretor de produção editorial jurídico da editora, Luiz Curia, que havia sido colega de estágio de Alexandra anos antes.

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- A receptividade da equipe foi muito bacana. A gente combinou de fazer todo mundo um trabalho voluntário. Cada pessoa que botou a mão nesse livro fez isso em casa nas horas vagas com a mesma dedicação, ou até mais com que faz com um trabalho pago. Desde o trabalho gráfico, a capa, até a revisão técnica, tudo isso foi feito com muito carinho, por todo mundo, de graça.

Ele lembra que as dificuldades de Alexandra para falar não foram um problema durante a produção da obra. De acordo com Curia, ela se comunicava com a equipe “melhor que muitos autores”.

- É muito curioso que uma pessoa com a limitação que ela tem, por causa da doença, conseguiu se comunicar muito melhor às vezes do que alguns autores que tão supercheios de saúde e que nem sempre têm um canal aberto assim com a gente.

A renda com a venda do livro será doada para doada à Abrela (Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica).