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Privilégio financeiro leva Qatar a escolhas pouco saudáveis

Da Redação ·
 Fast food está entre os hábitos poucos saudáveis no Qatar, que tem elevados índices de obesidade
fonte: The New York Times
Fast food está entre os hábitos poucos saudáveis no Qatar, que tem elevados índices de obesidade

Para um país tão pequeno - uma simples península arenosa que se estende da parte leste da Península Arábica rumo ao Golfo Pérsico -, o Qatar é uma terra de grandes números. O emirado apresenta a segunda maior renda per capita do planeta e abriga as terceiras maiores reservas mundiais de gás natural. Mas também ocupa posições elevadas em rankings menos invejáveis, porque registra alguns dos maiores índices de obesidade, diabetes e distúrbios genéticos do planeta, de acordo com especialistas locais e internacionais em saúde. 

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Os catarianos nativos, que respondem por apenas 250 mil do 1,6 milhão de habitantes do país, estão sofrendo sérios problemas de saúde, diretamente relacionados a um estilo de vida privilegiado bancado pela receita petroleira do emirado, bem como à sua determinação de manter firmemente as tradições sociais do país, entre as quais o casamento entre primos. "Estamos falando de obesidade em grau muito sério", disse o médico Justin Grantham, um especialista que trabalha para o hospital de ortopedia e medicina esportiva do Qatar e está envolvido em um programa piloto para promover uma vida mais saudável. "As consequências de saúde em longo prazo serão significativas".

Como outros países ricos em petróleo, o Qatar realizou um salto de décadas em seu desenvolvimento, em prazo relativamente curto, e deixou para trás a dificuldade física de uma vida no deserto, trocada por conforto, ar condicionado, criados e fast food. Mas ao mesmo tempo em que adotaram entusiasticamente as conveniências da tecnologia moderna, os catarianos também se esforçaram por proteger sua identidade cultural contra as forças da globalização. Para muitos dos cidadãos do país, isso incluiu manter a prática do casamento com familiares, mesmo que ela deva previsivelmente resultar em distúrbios genéticos como a cegueira e diversas dificuldades mentais. "É realmente difícil romper as tradições", diz o médico Hatem El-Shanti, pediatra e especialista clínico em genética que dirige um centro de teste genético em Doha, a capital. "É uma tradição transferida de geração a geração".

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Os catarianos vivem em um país de apenas 11,4 mil km², e são minoria diante dos mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros que se transferiram ao emirado devido à disponibilidade de empregos. Mas os problemas do país não são exceção. Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita enfrentam dificuldades semelhantes quanto a obesidade, diabetes e problemas genéticos, todos como efeito colateral da riqueza gerada pelo petróleo e do estilo de vida que ela propicia, e do desejo de manter as tradições. Mas mesmo entre os vizinhos o Qatar se destaca.

De acordo com a Associação Internacional de Estudos da Obesidade, o Qatar ocupa o sexto posto mundial em termos de índices de obesidade, e os meninos Oriente Médio e África do Norte. Um recente artigo no jornal catariano "Al-Watan" revela previsões de especialistas locais em saúde segundo as quais dentro de cinco anos 73% das mulheres e 69% dos homens do Qatar seriam tecnicamente obesos.

A obesidade é considerada como o mais importante fator no desenvolvimento do diabetes e contribuiu fortemente para outros problemas de saúde, entre os quais a hipertensão. A Federação Internacional do Diabetes classifica o Qatar como o quinto país do mundo em termos de proporção de portadores da doença, na faixa etária dos 20 aos 79 anos. A March of Dimes Foundation, uma organização americana de caridade que tem por objetivo tentar eliminar os defeitos congênitos, aponta o Qatar como 16° colocado no ranking mundial de incidência de defeitos congênitos. A principal causa do problema no emirado são os casamentos consanguíneos, disseram especialistas locais. A Arábia Saudita ocupa o segundo posto mundial nesse ranking.

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Apesar de todos esses desafios, e de toda a sua riqueza, o Qatar vem se concentrando primordialmente em tratar doenças, em lugar de preveni-las. Todo mundo com quem conversei por aqui fala sobre o estilo de vida e a tradição como causas dos problemas de saúde. Embora no passado fosse considerado tabu discutir os problemas relacionados a casar com parentes, agora esse assunto se tornou tema de discussão aberta. Houve algum debate sobre o emprego de testes genéticos pré-maritais, ou de testes genéticos para os bebês recém-nascidos. Mas a tradição é tão forte que ninguém mencionou a possibilidade de abandoná-la. "Não é possível enfrentar essa questão", disse Moza al-Malki, terapeuta familiar e escritor. "Existem algumas grandes famílias, clãs, que não permitem casamentos fora da família. Não é admissível". A questão da obesidade parece esbarrar na mesma muralha de tradições, dizem os especialistas locais em saúde. "Se você não come, isso é visto como causa de vergonha, e se você visita a casa de uma pessoa e sai sem comer, estará causando vergonha a ela", diz Abdulla al-Naimi, 25, que se define como "rechonchudo" mas ostenta excesso de peso mais que perceptível. "Metade de minha família sofre de diabetes", disse. "Minha mãe tem diabetes. Três primos mais jovens que eu têm diabetes. No meu caso, como demais e não me exercito". E ele também é casado com uma prima em primeiro grau.

E Naimi também é o diretor do projeto Vida Saudável, um esforço iniciado recentemente para tentar substituir o tratamento pela prevenção de doenças. O projeto é um dos trabalhos da Fundação Qatar, estabelecida pelo emir do país, o xeque Hamad bin Khalifa al-Thani. Naimi não vê ironia no fato porque, no país, seu peso e sua escolha de esposa são a norma, afirma. Ele reconhece que a mudança de atitudes será na melhor das hipóteses um processo lento. "Estamos tentando mudar os hábitos das pessoas, tentando convencê-las a caminhar mais", ele disse, admitindo que, em termos pessoais, raramente encontra tempo para se exercitar. Caminhar não é uma atividade popular, dado o calor do Qatar. A temperatura matinal média dos meses de junho e julho é de 41º, com alta umidade, e Doha, como muitas das cidades da região, não foi construída para pedestres.

Para agravar ainda mais a situação, as pessoas aqui dizem que todas as ocasiões sociais são definidas pela comida. As refeições tradicionais em geral incluem arroz, manteiga e carne de cordeiro. Porque é comum que as pessoas dividam grandes pratos comunitários, praticamente não há como manter o controle das porções, afirmam os catarianos. "Não há como nos reunirmos sem comer", diz uma mulher catariana de 22 anos de idade que é membro da família real, os Thani. Ela pediu que seu nome não fosse mencionado para não causar embaraços aos parentes. Ela revelou que sua família era um caso típico. Dos sete filhos, cinco têm problemas de peso. Um dos irmãos chegou aos 120 quilos aos 19 anos de idade; um menino mais jovem pesa 56 quilos aos 10 anos, e está ganhando peso tão rápido que já não consegue vestir as calças que a irmã lhe deu de presente dois meses atrás.

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Ela diz que os estudantes catarianos típicos não comem café da manhã, e depois fazem um lanche e almoçam na escola. Quando chegam em casa, almoçam de novo, em geral uma refeição pesada com arroz e carne de cordeiro. Mais tarde, tomam chá com bolo. E à noite todos jantam, em geral fast food entregue por um restaurante. "Eu almoço e saio para visitar amigos; em geral estou de barriga cheia, mas as pessoas ficam servindo comida o tempo todo", ela diz. "Não consigo comer, mas isso é tomado como insulto".

Outro problema, ainda mais desafiador, diz Nelda Nader, nutricionista em Doha, é de atitude. "Para a maioria das pessoas do país", ela afirma, "é realmente normal ser obeso".