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Poeta da Primavera Árabe se desculpa por não participar da Flip

Da Redação ·

Por Marco Aurélio Canônico, Enviado especial PARATY, RJ, 7 de julho (Folhapress) - Uma mensagem oficial escrita pelo poeta palestino Tamim Al-Barghouti foi lida antes da mesa da Flip qual ele deveria ter participado, na tarde hoje. Conhecido como "o poeta da Primavera Árabe", Al-Barghouti teve seu passaporte extraviado quando estava em Londres, onde pegaria um voo rumo ao Brasil. Ele foi substituído pelo escritor amazonense Milton Hatoum e pelo filósofo e colunista da Folha Vladimir Safatle -ambos já haviam participado de outras mesas da festa literária. "Escrevo essa mensagem para expressar minha profunda gratidão, minhas desculpas e vergonha a todos da Flip e a todos meus novos amigos no Brasil", escreveu o poeta, antes de fazer referência ao momento turbulento por que passa seu país, onde uma série de protestos populares culminou na derrubada do presidente eleito, Mohamed Morsi, pelas Forças Armadas. "Uma série de embates nas ruas, manifestações gigantes, algo que se parece com uma revolução, algo que se parece com um golpe de Estado e algo que se parece com os estágios iniciais de uma jovem e ebuliente guerra civil, estavam acontecendo a um quarteirão de distância do meu apartamento, próximo à praça Tahrir. Vocês me ofereceram o precioso presente do distanciamento, a possibilidade de olhar esse quadro complexo e, de certa forma, surreal após ter me distanciado um pouco. Aparentemente, no entanto, é impossível se afastar quando as manifestações, os golpes e as guerras estão acontecendo dentro da sua própria mente". "Fui capaz de chegar até Londres. No aeroporto, por uma distração minha ou talvez pela falta de sono nas três noites anteriores, meu passaporte foi perdido ou, possivelmente, furtado. Eu poderia ser perdoado, se o obstáculo para a minha vinda tivesse sido algo dramático, como um tanque em uma rua, uma nuvem de gás lacrimogêneo em um beco ou um tiroteio na rodovia, mas uma mente distraída, bem, isso foi uma vergonha!" O escritor narrou ainda as tentativas frustradas de conseguir um novo passaporte emergencialmente e disse que a organização da Flip fez tudo o que foi possível para ajudá-lo. A embaixada brasileira em Londres também ofereceu ajuda, segundo Al-Barghouti, sem efeito. O poeta chegou a viajar para a Jordânia, para tentar obter um novo passaporte jordaniano. "Não pude voltar ao Egito porque os governos egípcios desde Mubarak [o ditador que deixou o poder em 2011, após os protestos populares que deram fama ao poeta] continuam negando meu direito à cidadania egípcia, e não pude voltar à Palestina porque Israel não permite que os palestinos tenham aeroportos!" Al-Barghouti disse ainda que a América Latina e o Brasil servem de inspiração "para muitos de nós neste lado leste do Atlântico Sul". "Ambos temos fronteiras pouco convincentes que separam e fragmentam pessoas com culturas, emoções, memórias e propósitos similares. Ambos conhecemos muito bem as lutas culturais, psicológicas, políticas e físicas entre colonizadores e nativos. Ambos experimentamos a dicotomia ancestral da religião, com clérigos conservadores de direita em um lado e os seguidores da teologia da libertação de outro. (...) Ambos temos o mesmo doloroso desejo por democracia, independência e justiça social, e temos a mesma paixão por escrever literatura, declamar poemas e dançar diante das mais perigosas e surreais circunstâncias históricas". O poeta encerrou sua carta falando sobre como estava ansioso para participar tanto da Flip quanto da Flupp (Festa Literária Internacional das UPPs, que acontece amanhã e na terça, no Rio) e lamentou não ter conseguido vir ao Brasil "em um momento no qual a história está acontecendo com toda sua complexidade e contradições, em ambos os nossos países". "Espero que um dia, em breve, possamos nos encontrar", finalizou.  

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