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Manifestação marca mesa sobre realidade e ficção

Da Redação ·

Por Marco Rodrigo Almeida, Enviado especial PARATY, RJ, 6 de julho (Folhapress) - Ao meio-dia de hoje, o escritor francês Laurent Binet foi à ponte que faz o acesso entre o centro histórico de Paraty e a Tenda dos Autores, o palco principal da Flip. Queria ver o protesto anunciado para esta tarde. Mas chegou cedo demais - nada de manifestantes por ali. Por voltas das 16h, durante sua mesa na Flip com o escritor Aleksander Hemon, Binet lamentou. "Quando fui convidado para a Flip, fiquei muito empolgado por causa das manifestações no Brasil. Hoje fiquei sabendo que haveria manifestação na ponte às 12h, fui e não tinha nada. Talvez seja a separação entre a intelectualidade e o povo. Eu vim pensando em fazer parte da história, agora estou falando aqui, como poderia estar em qualquer outro lugar, e a história pode estar ocorrendo lá fora." Ironicamente, poucos minutos depois gritos, assovios e palavras de ordem invadiram a Tenda dos Autores. O protesto tão aguardado por Binet já chegara à ponte. "Estamos tendo agora uma excelente oportunidade de nos envolver com história. É tudo que posso dizer", encerrou o mediador Ángel Gurría-Quintana. A frase foi um bom desfecho para a palestra, que tratava justamente da relação entre a realidade e a ficção, marca da obra dos dois escritores. Lados Bósnio radicado nos EUA, Aleksandar Hemon lança no Brasil "O Livro das Minhas Vidas", uma coletânea de suas memórias de Sarajevo, sua cidade natal, e de Chicago, que acabou por se transformar em seu lar. Hemon diz que usar os elementos de sua vida na ficção foi a forma que encontrou para tentar compreender melhor a própria vida e a realidade a sua volta. "Para conhecer a história você tem que usar a imaginação. Nós temos uma quantidade limitada de informação e todo o resto tem que ser imaginado, dado por nós. Sem isso, deixamos de pensar na história, a história morre", afirmou. Binet teve seu romance de estreia, "HHhH", publicado no ano passado no Brasil. O livro também funde realidade e ficção e traz personagens reais ao retratar a resistência antinazista em Praga durante a Segunda Guerra Mundial. "Muitas pessoas dizem que tudo é ficção. Eu discordo. Contra alguns fatos não há o que discutir. Nós sabemos que houve a Segunda Guerra, que os judeus morreram." Mais tarde Hemon retomou o tema das manifestações e comentou a frase de um político brasileiro, de quem ele não lembrou o nome, que disse não querer acabar do lado errado da história. "Foi presumido que as pessoas estavam do lado correto da história. Eu não descobri quantos lados a história tem. Foram 400 mil pessoas nas ruas de São Paulo e não acabou ainda. Ninguém sabe o que vai acontecer no Brasil. Acho que o Laurent deveria fazer um livro sobre isso e transformar a história dentro da história", disse ao colega de mesa.  

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