Geral

Escritor Tobias Wolff debate memórias e confissões

Da Redação ·

Por Rodrigo Levino, Enviado especial PARATY, RJ, 4 de julho (Folhapress) - No final dos anos 1950, nos EUA, um adolescente oprimido pelo padrasto e seus três filhos sonhava com o que para ele seria a única forma de escapar da vida de maus tratos: ganhar uma bolsa de estudos e partir o quanto antes de onde vivia. Ao trauma dessa relação se juntavam os anos errantes na companhia da mãe solteira, sempre em busca de recomeços, todos falhos. Quase 50 anos depois, Tobias Wolff vem à Flip para tratar, em uma mesa amanhã com o mexicano Juan Pablo Villalobos, de um tema que lhe é caro: a literatura como objeto de memória e confissão. Foi transfigurando a realidade em que estava inserido que Wolff se tornou um dos escritores mais respeitados dos EUA do pós-guerra, sobretudo como contista e memorialista, expoente do chamado "realismo sujo". Os anos difíceis foram narrados em "O Despertar de Um Homem" (1989), seu livro de maior sucesso, que virou filme em 1993, com Robert de Niro e Leonardo DiCaprio. "Wolff tem certamente um dos olhares mais apurados sobre a sociedade americana", disse a escritora Joyce Carol Oates em entrevista no ano passado. E o que continua a despertar sua atenção é a parcela que está na da base da pirâmide, da qual foi parte. "Me interesso pela solidão e pela violência que são consequências do nosso evangelho do individualismo, pelos problemas de classe em uma sociedade que finge não ter classes, pelas relações atormentadas entre homens e mulheres", disse o escritor. Autor de quase 20 livros, entre memórias, contos e novelas, Wolff chega ao Brasil numa situação curiosa para um convidado da Flip, que em geral prioriza autores que estejam lançando livros no país: sua última obra a sair aqui foi "Meus Dias de Escritor" (Ediouro), em 2006. Antes disso, foram três: "O Despertar de Um Homem", "A Noite em Questão" e "No Exército do Faraó", todos pela Rocco. Provinciano Dos seus celebrados livros de contos, apenas "A Noite em Questão" foi publicado aqui. O que traz à tona um problema de mercado: contos não vendem, ainda mais de autores estrangeiros. "Eu diria que o conto é uma forma mais desafiadora do que o romance. É preciso que o leitor se interesse mais pelas sutilezas do que pela explicitude, que é uma marca do romance", diz ele. Sobre as nuances acerca de gêneros e estilos, Wolff apresenta suas elucubrações em suas aulas de literatura na Universidade Stanford. Tema controverso: é possível formar grandes autores em cursos de escrita criativa? "Você não pode simplesmente implantar um gênio. Mas é possível ajudar um autor a encontrar sua voz literária, refinar seu senso de linguagem e de forma", fala. Questionado a respeito de autores brasileiros, como Graciliano Ramos, o homenageado da Flip, Wolff é sincero: "Conheço clássicos como Machado de Assis e Mario de Andrade. Mas, vou te contar, sou muito provinciano nas minhas leituras, e isso é muito constrangedor".  

continua após publicidade