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Ação que prendeu ativistas contra o apartheid completa 50 anos

Da Redação ·





Por Fábio Zanini, Enviado especial

JOHANNESBURGO, ÁFRICA DO SUL, 29 de junho (Folhapress) - Numa rua pacata de um bairro de elite no norte de Johannesburgo, entre condomínios fechados, uma antiga propriedade rural, hoje museu, gostaria de receber Nelson Mandela nos próximos dias para marcar os 50 anos de um episódio que mudou a história dele e da África do Sul.

Mas Mandela, doente em estado crítico num hospital de Pretória, não poderá comparecer.

Em 11 de julho de 1963 a polícia sul-africana invadiu a Fazenda Liliesleaf, no bairro branco de Rivonia, e prendeu quase toda a liderança do Congresso Nacional Africano, principal grupo de oposição ao apartheid.

Mandela não estava presente, porque já havia sido preso no ano anterior. Junto dos 12 presos, foram descobertos documentos preciosos da organização, que havia aderido à luta armada poucos meses antes. Um deles mostrava em detalhes um plano para atacar diversas instalações do governo sul-africano.

Foi com base nessa ação policial que Mandela e seus colegas foram processados no que ficou conhecido como o "Julgamento de Rivonia" e condenados à prisão perpétua. Ele só seria libertado 27 anos depois, em 1990.

A Fazenda Liliesleaf hoje é atração turística. Integrada à paisagem urbana, é difícil de ser imaginada como uma propriedade rural. Mas há 50 anos estava isolada o suficiente para servir de esconderijo para os ativistas.

Mandela viveu ali em 1961 e 1962, sob o codinome David Motsamayi, posando de empregado rural dos donos do local, um casal de comunistas brancos que serviu de fachada para a compra da propriedade. O dinheiro para isso veio da União Soviética.

Lá ele teve noções de tiro, e a árvore em que alvejava passarinhos ainda está de pé. O fato não combina com a imagem de pacifista que Mandela hoje projeta, mas nos anos 60 ele foi o fundador e primeiro líder do braço armado do CNA, que nasceu em Liliesleaf. Ações de sabotagem e ataques contra alvos do governo renderam a ele o rótulo de "terrorista".

A propriedade tem uma casa principal e diversos chalés anexos, onde funcionavam cozinha, lavanderia, gráfica e uma rádio clandestina, além de acomodação para os líderes.

Parecia um esconderijo perfeito, em um lugar insuspeito, mas os ativistas começaram a ficar incomodados com o fato de estarem tão próximos da cidade, e tão vulneráveis a uma ação policial.

Decidiram marcar um último encontro para aquela tarde fria de julho, antes de se mudarem para outro local. Não houve tempo: a polícia tinha um informante (nunca se soube quem) e entrou na propriedade escondida dentro de um carro de lavanderia.

A invasão da fazenda, a prisão dos líderes e a descoberta de um tesouro em documentos foram fundamentais para a construção do mito Mandela.
 

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