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Auditor acredita que haja mais mortes provocadas em UTI

Da Redação ·
 Médica acusada de mortes em UTI saiu da cadeia nesta quarta-feira
fonte: Márcio Nolli/RPC TV
Médica acusada de mortes em UTI saiu da cadeia nesta quarta-feira

O médico Mário Lobato, auditor do Ministério da Saúde e coordenador da sindicância aberta no Hospital Evangélico, em Curitiba, para investigar as denúncias de que pacientes eram mortos dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), acredita que o número de óbitos pode ser maior do que os sete apontados pelo Ministério Público.  A sindicância identificou cerca de 20 falecimentos semelhantes aos citados na denúncia. “Os casos que já estão fechados são, praticamente, mais de 20 casos já, e nós temos quase 300 já para fazer esse fechamento”, afirmou o médico em entrevista ao Fantástico (veja vídeo ao lado).

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Segundo denúncia do Ministério Público, pacientes internados na UTI, que foi chefiada por sete anos pela médica Virgínia Soares de Souza, foram mortos por asfixia, com uso do medicamento Pavulon e diminuição de oxigênio no respirador artificial. Além da médica, outras sete pessoas foram acusadas, sendo que cinco chegaram a ser presas. A médica foi a última a conquistar a liberdade, uma vez que teve a prisão temporária decretada. Ela ficou um mês detida e agora responderá ao processo em liberdade. Conforme determinado pela Justiça, o caso tramita sob segredo judicial.

A equipe chefiada pelo médico Lobato analisa mais de 1.700 prontuários dos últimos sete anos e também as provas do processo. “O depoimento das pessoas que trabalhavam lá dentro confere, praticamente, totalmente, com os prontuários que foram analisados”, afirmou Lobato.

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Uma das mortes citadas no processo é a de Ivo Spitzner, que faleceu em janeiro deste ano. Para sobreviver, ele precisava da ajuda de aparelhos. Nestes casos, os pacientes recebem diferentes percentuais de oxigênio, conforme a necessidade. Em casos irreversíveis, a equipe médica e a família podem decidir regular a máquina para o mínimo de 21%. Com essa concentração, a morte ocorre naturalmente - é o que se chama de ortotanásia, um procedimento que não é ilegal no Brasil.
No caso de Ivo Spitzner, para o Ministério Público e para a sindicância, uma combinação de procedimentos o matou. O prontuário, obtido com exclusividade pelo Fantástico e divulgado com autorização da família, mostra que às 6h do dia em que Ivo Spitzner morreu, ele recebia oxigênio a 45%. Duas horas depois, passou a receber 22%, quase o limite mínimo. Isso, sem que a família soubesse.


Pela prescrição médica, às 9h39, foram administrados três medicamentos, sendo um deles o Pavulon. Este remédio faz todos os músculos do corpo pararem, inclusive, os responsáveis pela respiração. Quando usado corretamente, ele permite que o aparelho controle toda a respiração do paciente, sem que o corpo precise se esforçar.  Em seguida, às 10h30, uma hora depois de receber as medicações, Ivo Spitzner morreu.

Estes procedimentos também teriam sido a causa da morte de outros pacientes da UTI, de acordo com o Ministério Público. “Todos eles têm o mesmo modus operandi, têm a mesma relação entre a droga e o óbito, o horário bate”, afirmou Lobato.

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O médico, que é cardio-pediatra, com 30 anos de carreira, revelou, ainda, que alguns dos doentes estavam acordados e conscientes, momentos antes da morte.

“Um deles estava consciente, sob nebulização, não estava ligado ao respirador. Este paciente tinha pedido para a família trazer os óculos que ele queria fazer algumas leituras enquanto estava internado na UTI. A outra foi uma paciente que pediu um copo d’água para a enfermeira. Essa enfermeira prestou depoimento e disse que uma das coisas que ela não consegue esquecer é que ela não conseguiu dar o copo d’água para essa paciente porque essa paciente também sofreu a intervenção”, citou.

O advogado da médica Virgínia Soares de Souza, Elias Mattar Assad, afirma que ela não fez nada de errado. “Nós poderemos, em breve, provar que tudo que aconteceu naquela UTI tem justificativa na literatura médica”, destacou.
O presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), José Mário Meira Teles, manifestou-se pela primeira vez desde o início das investigações. Ele não quis falar sobre nenhum caso específico, mas disse que decisões normais tomadas em uma UTI podem ser mal interpretadas.

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“A não introdução de medidas que são fúteis, que são inúteis, ou a retirada de procedimento que não têm nenhum beneficio ao paciente, pode ser interpretado pela promotoria, às vezes, como um procedimento que possa apressar, que possa acelerar o processo de morte”, argumentou.

Com informações do G1.com