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Em livro publicado em 2010, papa havia indicado possível renúncia

Da Redação ·





SÃO PAULO, SP, 11 de fevereiro (Folhapress) - O papa Bento 16 surpreendeu o mundo ao anunciar hoje que renunciará no final do mês. Aos 85 anos, Joseph Ratzinger alegou motivos de saúde para a saída, mas já havia mencionado a possibilidade de deixar a posição em entrevista ao jornalista alemão Peter Seewald, publicada em seu livro sobre o Vaticano, em 2010.

Na obra, chamada "Luz do Mundo", Bento 16 diz que, se um papa tem consciência de que não está mais apto "fisicamente, psicologicamente e espiritualmente a exercer os deveres do cargo, tem o direito e, em algumas circunstâncias, a obrigação de se demitir".

O comunicado sobre a renúncia divulgado hoje volta a mencionar a consciência da incapacidade física para as funções.

No livro, contudo, o pontífice fazia uma ressalva de que a demissão só poderia acontecer em um momento de paz, e não em períodos de tensões ou escândalos.

O livro do papa, intitulado "Light of the World: The Pope, the Church and the Signs of the Times" (Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais do Tempo, em tradução livre), é baseado em 20 horas de entrevistas conduzidas pelo jornalista alemão Peter Seewald.

Declarações reunidas na obra causaram polêmica na época da publicação.

Bento 16 chegou a dizer que o uso de preservativos é aceitável "em certos casos", especialmente para reduzir o risco de infecção do HIV, mas insistiu que não é a "verdadeira" maneira para combater a Aids, já que para ele é necessária uma "humanização da sexualidade".

Leia alguns trechos da entrevista de Bento 16:



PRESERVATIVOS

"Há possibilidades no caso de alguns indivíduos, como talvez quando um prostituto usa preservativo, no qual isso pode ser um primeiro passo em direção à moralização, uma primeira aceitação de responsabilidade, no caminho rumo à recuperação da atenção de que nem tudo é permitido ou se pode fazer de qualquer forma que alguém quiser.

Mas essa não é realmente a maneira para lidar com o mal da infecção por HIV. Isso só pode realmente mentir apenas sobre uma humanização da sexualidade.

Ela [a Igreja] não diz respeito a isso [uso das camisinhas], como uma real ou moral solução, mas, nesse caso, não há nada mais com o objetivo de reduzir o risco de infecção, como um primeiro passo no movimento rumo a um forma diferente. e mais humana, de viver a sexualidade."



ABUSOS SEXUAIS NA IGREJA

"Sim, isso é uma grande crise, nós temos que admitir. É de entristecer a todos nós.

De repente, tanta sujeira. Foi realmente como uma cratera de um vulcão, fora da qual surgiu uma tremenda nuvem de sujeira, escurecendo e desgraçando, de modo que tudo acima do clero repentinamente pareceu ser um lugar de vergonha e todo padre estava sob suspeita de ser igual também".

"Sim, se o papa realmente se dá conta de que ele não está fisicamente, psicologicamente e espiritualmente capaz de lidar com os deveres do sacerdócio, então ele tem o direito e, em algumas circunstâncias, também a obrigação, de se resignar.



MULHERES E HOMOSSEXUAIS

"Quando, por exemplo, em nome da não discriminação, as pessoas tentam forçar a Igreja Católica a mudar sua posição sobre a homossexualidade ou a consagração de mulheres, então isso significa que ela não está mais permitida de viver sua identidade e que, em vez disso, uma religião negativa e abstrata está criando um padrão tirânico que todos devem seguir.

"Isso parece ser aparentemente bem mais liberdade --pela exclusiva razão de que isso é liberação da situação prévia."

"A Igreja não tem autoridade de ordenar uma mulher. A ponto de que nós não estamos dizendo que não queremos fazê-lo. O Senhor nos deu a Igreja na forma de doze [homens apóstolos] e, como seus sucessores, com os bispos e seus presbíteros, os padres."

"Essa forma de Igreja não é algo que nós mesmos produzimos. É como Ele constituiu a Igreja."

"O assunto em questão aqui é a intrínseca verdade do significado da sexualidade humana na constituição do ser humano."

"Se alguém tem inclinações homossexuais arraigadas -- e isso ainda é uma pergunta aberta se essas inclinações são realmente natas ou se surgem na primeira infância -- se, de qualquer forma, elas têm poder sobre ele, isso é um grande desafio para ele, assim como outros desafios podem afligir outras pessoas também.

Mas isso não significa que a homossexualidade portanto se torna moralmente correta. Melhor, ela permanece contrária à essência do que Deus originalmente desejou".



BURCAS

"Quanto à burca, não veria razão para uma abolição geral. Alguns dizem que muitas mulheres não usariam a burca voluntariamente e que isso de fato é uma violação à mulher.

Alguém pode, com certeza, não concordar com isso. Mas se elas querem usar voluntariamente, não compreendo por que deva ser proibido."



PAPA JOÃO PAULO 2º

"Eu simplesmente disse a mim mesmo que sou o que sou. Não tento ser outra pessoa. O que posso dar eu dou, e o que não posso dar não tento dar.

Não tento fazer de mim mesmo algo que eu não sou. Sou a pessoa que ocorreu de ser escolhida -- os cardeais também são culpados por isso -- e faço o que posso fazer."



PAPA PIO 12

"Como no presente momento, nós temos novas pessoas sábias que dizem que, enquanto nós de fato salvamos muitas vidas, nós tivemos ideias atrasadas sobre os judeus que desabaram no 2º Conselho do Vaticano (1962-65).

Mas essa não é a questão. A coisa decisiva é que o que ele fez e o que ele tentou fazer, e é nessa consideração que devemos reconhecer, creio, que ele foi um dos grandes homens honrados e que ele salvou mais judeus que qualquer outro."
 

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