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Fantástico constrói cópia fiel da boate Kiss

Da Redação ·
Fantástico constrói cópia fiel da boate Kiss
fonte: Arquivo
Fantástico constrói cópia fiel da boate Kiss

O que havia de errado dentro da boate Kiss? Quantas pessoas cabiam lá dentro? O que poderia ter evitado a tragédia?

Em busca dessas respostas, o Fantástico chamou um especialista em gerenciamento de risco, conversou com pessoas que estavam lá e com quem conhece bem a casa e construiu uma réplica da boate, em tamanho real, com base nas informações das plantas do imóvel.

O que há por trás da fachada? A planta mais recente da boate Kiss que consta na prefeitura de Santa Maria é de 2009, mas sofreu alterações, como outra de 2011, que modificou a área da pista principal. Desde então, outras reformas foram feitas - sem conhecimento das autoridades.

A partir de depoimentos de pessoas que conhecem bem a boate, o Fantástico atualizou a planta e construiu uma cópia fiel, usando as mesmas medidas. Era assim a boate Kiss na noite de 27 de janeiro de 2013.

Com essa reprodução nós pretendemos entender por que tanta coisa deu errado naquela noite. E mais: a gente também vai mostrar que medidas simples podem garantir a segurança de qualquer estabelecimento. E evitar tragédias como a de Santa Maria.

Para isso, o Fantástico conversou com o engenheiro Moacyr Duarte, especialista em gerenciamento de riscos e planejamento de emergências. Luciene e Marcelo - que estavam na boate Kiss na madrugada de domingo passado e conseguiram escapar. E a Vanessa Vasconcellos, que foi relações públicas da casa por dois anos e conhece detalhes da infraestrutura.

Entrando, a gente tem a dimensão real do tamanho da casa. Eram 23 metros de fachada por 26 metros de profundidade.

Para entrar, as pessoas passavam por uma grade. À direita era a bilheteria da casa, onde as pessoas pegavam as comandas, passavam por essa grade e entravam na boate, por uma porta. Após a porta, mais uma grade.

"Essa posição dessa grade ela inutiliza a abertura das portas. Tem dois metros de porta, mas, na verdade, o espaço disponível para a passagem das pessoas é estreito. Uma largura que não é suficiente para passarem duas pessoas ao mesmo tempo. Isso sem dúvida foi responsável por um grande retardamento da saída", analisa Moacyr Duarte.

Imagens mostram como ficou o espaço depois do incêndio. Segundo os bombeiros, a boate Kiss tinha capacidade para 691 pessoas.

“Como essa conta é feita?”, pergunta o repórter.

“Descontando todo o espaço do interior da casa que não é ocupado pelo público. Ou seja, deixando só a área em que o público realmente fica. Quando você tiver a área restante, isso é para público em pé, dividido por 0,4 metros quadrados. Aí você acha o número de pessoas da casa”, responde Moacyr.

0,4 metros quadrados é o espaço necessário para que uma pessoa de 70 quilos fique em pé sem que ninguém encoste.

Vanessa diz que, quando era responsável pela impressão das comandas, era praxe fazer mil comandas impressas por festa. Além dessas mil, segundo ela, de 200 a 500 comandas eram guardadas para o caso de haver mais pessoas. Ela contou que era dito que a capacidade da boate era de 1,2 mil pessoas. Luciene testemunha que tinham pelo menos mil pessoas lá no dia.

Simulamos a lotação com as 691 pessoas permitidas. Com mil pessoas, a boate estaria praticamente sem espaços vazios.

Para chegar ao lugar do show há duas grades, um vão e um degrau. Uma parte da pista é rebaixada em relação ao resto da casa.

Vanessa fala que até novembro eram três degraus, e os donos da boate resolveram elevar o piso por questões estéticas. Vanessa conta também que o dono da boate contou que foram gastos R$ 60 a R$ 70 mil na reforma.
Eram quase três daquela madrugada quando a banda Gurizada Fandangueira subiu ao palco. No depoimento à polícia o vocalista da banda, Marcelo Santos, disse que entre seu braço e o teto havia uma distância de no mínimo dois metros.

Vanessa diz que se o vocalista tem 1,8m, com o braço levantado, teria mais um metro até o teto, no máximo.
“O que se sabe até o momento é que ele levantou um artefato pirotécnico e apontou para o teto. A partir daí, há o início do incêndio e as pessoas relatam um pequeno foco. O que elas não percebiam é que esse incêndio se espalha na espuma por dentro do forro”, declara o professor.

A área sobre o palco era revestida de espuma feita de material tóxico. Nessa hora, a Luciene estava de frente para o palco.

“Daí o segurança alcançou o extintor para um deles. Eles romperam o lacre e tentaram umas três vezes apagar. Daí começaram a jogar água. Só que as pessoas continuaram dançando. Ninguém percebeu. A gente começou a sair. De repente, houve um estrondo e apagou a luz. Quando chegamos perto da saída, havia uma multidão pedindo para o segurança abrir a porta. Mas ele disse que não, que teria que pagar a comanda antes de sair. Daí o outro segurança deu a volta, viu e falou: ‘libera, que é fogo mesmo’. Eles abriram a porta, uma multidão imprensada, mas conseguimos sair. A grade atrapalhou muito. Muita gente tropeçou. Quando saímos, a fumaça já estava saindo pela porta. Aquela fumaça preta. Horrível. Não dava para ver mais nada”, contou Luciene.

Na hora do incêndio, Marcelo Carvalho estava num mezanino, de frente para o palco. “Eu vi um pequeno fogo na frente do palco e um cara com um extintor tentando apagar. As pessoas estavamcorrendo, mas eu fiquei parado. Pensei que o fogo seria controlado. Quando me virei de costas para sair, veio a fumaça. Eu tapei o nariz e fiquei respirando pela boca. Fui sendo empurrado pelas pessoas. Na calçada, eu caí no chão. Não sei se tropecei ou se a fumaça já estava muito forte. E estava cheio de gente fora já. As pessoas passando por cima dos que estavam caídos”, lembrou Marcelo.

Em Santa Maria, ouvimos Murilo. Ele também estava na boate, na área central, encostado na grade de uma das áreas vip.

“Nem estava prestando muita atenção na banda. Aí um amigo falou: ‘meu, pegou fogo’”, disse.
Nós convidamos o Murilo para estar na reconstrução da boate Kiss, mas ele não foi autorizado pelos médicos a viajar.
“A gente foi no tumulto. Quando percebi, bati na grade e fiquei preso. Aí começou a apertar. Quando olhei para trás, me apavorei. Estava a boate inteira pressionando para sair. Daí comecei a falar: ‘não, tem uma grade’. Consegui deslocar alguma coisa e coloquei a perna por cima da grade. Fizeram pressão de novo e já fui caindo. Em uns 50 segundos eu cheguei na porta. Fiquei um minuto e meio preso na grade”, afirmou Murilo.

Na hora do incêndio, também havia muita gente na segunda pista. “Se eu estivesse lá, tenho certeza que não teria a menor ideia do incêndio”, ressaltou Murilo.

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Fonte: G1/globo.com