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'Ninguém está lá forçado, os pilotos sabem dos riscos', diz promotor do SuperBike

Escrito por Da Redação
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O piloto Matheus Barbosa, de 23 anos, entrou para uma triste e preocupante estatística das provas do SuperBike que são realizadas no autódromo de Interlagos, em São Paulo. No último domingo, ele morreu após perder o controle de sua moto na subida da curva Junção e colidir com uma estrutura de metal, localizada atrás das barreiras de segurança. Desde 2017, Interlagos acumula cinco mortes em provas da categoria e já foi até suspensa de sediar eventos do SuperBike.

Bruno Corano, promotor da modalidade, no entanto, afirmou ao Estadão que a pista é a mais segura do Brasil para as motos. "Não só eu acho isso. Mas também a comissão de segurança, os pilotos e a FIM (Federação Internacional de Motociclismo, na sigla em francês). Não é apenas uma opinião pessoal", avaliou o tetracampeão do SuperBike, que acredita na existência de uma "super comoção" em relação às mortes na modalidade.

"Morrem muitas pessoas por mês no trânsito, mas ninguém fala que vai parar de vender moto. Morrem muitas pessoas por semana nos hospitais públicos brasileiros por falha médica e negligência de atendimento, mas ninguém fala que vão fechar os hospitais. Então, me parece que existe uma espécie de 'super comoção' em relação aos atletas privados, que optam por correr aquele risco por escolha própria. Ninguém está lá forçado. Eles vão correr sabendo dos riscos. Mas parece que é o fim do mundo, que estamos matando as pessoas", disse Corano.

O promotor do evento ainda afirma que antes mesmo da sequência de mortes acontecer em Interlagos, o circuito já vinha passando por melhorias em busca de mitigar eventuais fatalidades. "As áreas de escape aumentaram e aquelas que julgamos ainda serem insuficientes foram complementadas com barreiras de proteção e outros mecanismos. Mas pensar em segurança, não é pensar apenas no circuito em si. Percebemos que era necessário trazer pessoas mais profissionais para estudar a proteção dos pilotos. Meu pai foi vice-presidente da Vasp e da Gol. Inevitavelmente, eu herdei toda uma cultura da aviação que preza por protocolos rígidos de segurança. Em 2019, contratamos dois técnicos especializados nisso para construir uma matriz. Olhamos, portanto, o espectro inteiro, desde o asfalto da pista até a parte psicológica dos pilotos. A exigência de testes psicotécnicos, por sinal, é único na modalidade, uma exclusividade nossa no mundo. Foi um trabalho de meses, que envolveu diversos profissionais, engenheiros, matemáticos e por aí vai. Com isso, conseguimos identificar o que poderíamos melhorar", revelou.

MAIS SEGURANÇA - Esse "reforço" na segurança foi implementado após duas mortes consecutivas terem acontecido no evento. Uma em abril e outra em maio de 2019. A primeira vítima foi Maurício Paludete, de 44 anos. Ele perdeu o controle da moto na entrada do "S do Senna" e colidiu contra a barreira de pneus. O impacto foi tão forte que seu capacete rompeu. Um mês depois foi a vez de Danilo Berto, de 35, perder a vida. Sua motocicleta ficou fora de controle na curva do "Laranjinha" e ele também acabou colidindo contra os pneus. Sérgio dos Santos, de 48 anos, e Rogério Munuera, de 41, que também faleceram em provas do SuperBike, em Interlagos, colidiram igualmente contra essa barreira, respectivamente em 2017 e 2018.

Após a quarta morte no circuito, a prefeitura de São Paulo suspendeu a realização de corridas de moto no local por dois meses e buscou fazer uma averiguação das medidas de segurança da pista, a partir de uma avaliação da FIM. No entanto, a entidade passou essa responsabilidade para a Confederação Brasileira de Motociclismo (CBM). "Chamamos a FIM para fazer uma vistoria com o objetivo de trazer uma prova internacional, solicitamos um relatório, o que a gente poderia fazer para melhorar a segurança do autódromo. A resposta da FIM foi reforçando que quem tem poder de homologar um autódromo no Brasil é a CBM", disse o Secretário de Turismo e Casa Civil da cidade de São Paulo, Orlando Faria, na época.

Firmo Henrique Alvez, presidente da CBM explica que a homologação de uma pista é feita mediante a competição que ela irá receber. "Esse é o critério. Interlagos é projetado para receber corridas de Fórmula 1. A corrida que mais exige requisitos de segurança no mundo. No entanto, ela não é homologada para receber provas do Mundial de Motovelocidade. Com a SuperBike é diferente. É uma competição de motos que são vendidas comercialmente, mas que são adequadas para competir. Nunca chamamos a FIM para fazer a homologação do Mundial de SuperBike para Interlagos. Sempre ficou no âmbito nacional e, portanto, nesse caso, cabe à CBM homologar a pista e ela está homologada", explicou o dirigente.

"Quando aconteceram as duas mortes sequenciais (Paludete e Berto), a direção do autódromo optou por averiguar se aquilo era apenas uma trágica coincidência ou se ali havia, de fato, alguma coisa de errado. A CBM e uma força tarefa foi chamada pelo Ministério Público de São Paulo para participar de uma série de discussões para que, enfim, pudéssemos retomar os campeonatos com motos em Interlagos", revelou Firmo, que prosseguiu. "Nós propusemos fazer com que as competições com moto só acontecessem com uma barreira de proteção especial, que, por sinal, é caríssima. Ela seria aplicada apenas nos pontos críticos do autódromo. Mas o Ministério Público não aceitou, já que por ser um esporte, ele não poderia ser elitizado em decorrência dos preços dessas barreiras. Mesmo assim, a CBM continua exigindo que elas sejam utilizadas em suas competições", afirmou o dirigente, que ressalta, assim como fez Corano, a periculosidade do esporte.

"Interlagos não é perigoso, mas qualquer competição de moto é. O motociclismo é um esporte radical. A palavra é bonita, mas, lamentavelmente, o esporte radical mata. Dentre eles, a moto é que mais mata no mundo. O piloto está montado num veículo a 300 km/h e, conforme a pancada, mata mesmo. Isso, infelizmente acontece", ponderou o dirigente.

As provas de motovelocidade são, de fato, perigosas. Os acidentes fatais não acontecem apenas no Brasil. Em 2017, na Inglaterra, um dos países mais tradicionais na prática de corridas de moto, quatro pilotos faleceram. Fran Fletcher, Mick Whalley, Mark Fincham e o escocês Frank Dignan tiveram acidentes fatais. Nos dois anos seguintes, mais mortes foram registradas na modalidade. Uma em 2018, a do piloto Kyle O'Donovan, e a outra em 2019, de Dan Thomas.

Em entrevista ao Estadão, Luis Ernesto Morales, presidente da comissão nacional de circuitos da CBA e membro da comissão de circuitos da FIA, afirma que a FIM conversa com a entidade máxima do automobilismo para que as pistas dos circuitos sejam seguras para abrigar tanto provas de moto, quanto de carro. "As entidades estão se reunindo para discutir justamente a abertura de autódromos que atendam as duas modalidades simultaneamente".

Morales explica que os procedimentos de segurança sempre devem ser atualizados, já que os veículos estão em constante evolução tecnológica. Ele também pontua as diferenças de colisão entre uma moto e um carro. "Nós analisamos dois fatores. A proteção do piloto em conjunto com a segurança do carro, que vai ajudar a protegê-lo, e a segurança do circuito. Nós analisamos peso, massa e velocidade. Carro e piloto estão integrados, já na moto isso não acontece. E é aí que muda tudo. O impacto da colisão dentro do carro vai ser diferente, justamente porque o carro absorve o impacto da batida e a moto não", explicou.

Uma perícia foi aberta para investigar os motivos da morte de Matheus Barbosa. Enquanto isso, Interlagos continuará recebendo provas de motociclismo. A próxima está prevista para acontecer no final de dezembro. Antes, o campeonato passa por Curitiba e Minas Gerais.

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