Esportes

Futebol na China ainda é jogado em bolhas por causa da política de covid zero

Ricardo Magatti (via Agência Estado) ·
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O arrefecimento da pandemia fez as competições esportivas voltarem há algum tempo a ser disputadas com protocolos brandos ou, em alguns casos, sem restrições no Brasil e também em outros países. Mas na China, a política de covid zero obriga rigidez no combate à doença e faz com que a Superliga Chinesa de futebol continue sendo jogada em bolhas.

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O país onde o coronavírus surgiu em dezembro de 2019 mantém uma estratégia de tolerância zero com a covid. A estratégia das autoridades chinesas é manter medidas rigorosas, impondo isolamentos e quarentena enquanto houver registro de infecções para evitar ao máximo o contágio "até que a vitória esteja garantida", conforme disse o líder da China, Xi Jinping, ainda que a iniciativa enfrente resistência interna.

A ideia de contágio zero se estende ao futebol, fazendo com que a Superliga Chinesa seja realizada pelo terceiro ano seguido em bolhas, numa espécie de circuito fechado, sem a possibilidade de sair dele durante períodos definidos.

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A competição é disputada em quatro etapas. Cada uma delas é dividida em duas bolhas. A Associação Chinesa de Futebol escolheu três cidades - Dalian, Meizhou e Haikou - como sedes do torneio. O formato do campeonato é diferente do ano passado. Nesta temporada, 18 equipes se enfrentam ao longo de 38 rodadas no modelo de pontos corridos.

A federação distribuiu delegações de seis clubes em hotéis de cada uma das três cidades para concluir a primeira etapa do campeonato, finalizada neste mês. Foram dez rodadas em 40 dias. Nos outros três estágios, serão oito em 30 dias, e os times irão se revezar entre as sedes para que todos enfrentem todos. Considerando todas as fases, o torneio dura cinco meses e termina em novembro, dias antes do início da Copa do Mundo do Catar.

"É uma medida bem restritiva, mas de fato tem surtido efeito. Os números têm baixado", considera Junior Negrão, atacante brasileiro que defende o Changchun Yatai desde 2021 e foi o artilheiro da última edição da liga chinesa, com 14 gols. "É como se você estivesse numa longa pré-temporada. Mas é eficaz, sem dúvida", endossa Felipe Silva, outro brasileiro que atua no futebol chinês. O atacante defende o Chengdu Rongcheng.

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A medida tem sido bem-sucedida, já que, até o momento, nenhum atleta testou positivo. Caso isso aconteça, pode resultar na paralisação da competição. "Em razão do período disponível ser curto, o cuidado precisa ser grande", diz Junior Negrão, um dos 10 maiores artilheiros do mundo em 2020, quando fez 35 gols em 41 jogos pelo Ulsan Hyundai, da Coreia do Sul.

Embora soubesse que seria difícil, Junior Negrão fazia planos para estar com a sua família no Natal do ano passado. O atacante brasileiro tinha a esperança de ver a mulher e os filhos nas festas de fim de ano. Mas seus planos terminaram frustrados.

"Tivemos que passar Natal e Réveillon na bolha para podermos encerrar o campeonato. Eu me despedi da minha família dia 14 de dezembro", recorda-se. "Confesso que o sentimento foi um pouco estranho. Jogamos dia 24 de Dezembro e primeiro de Janeiro. Mas são ossos do ofício".

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Contágio zero

Enquanto no Brasil, os testes de detecção de covid não são mais obrigatórios para os clubes que disputam o Brasileirão, na China as delegações não saem dos hotéis e os atletas são submetidos a exames a cada três dias. No momento, os jogadores estão fora da bolha porque a primeira etapa do torneio já foi encerrada. Eles treinam em seus clubes e, ainda assim, respeitam as restrições para evitar o contágio.

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Em maio, o país asiático enfrentou sua pior onda do coronavírus desde o início da pandemia, o que fez 25 milhões de habitantes de Xangai ficarem confinados e levou as autoridades a cancelarem vários eventos esportivos, como as etapas da Diamond League de atletismo previstas para Xangai (30 de julho) e Shenzen (6 de agosto), o GP de Fórmula 1 de Xangai, os torneios de tênis masculino (ATP) e feminino (WTA) e a Copa da Ásia de futebol.

Em fevereiro, Pequim estabeleceu bolhas para realizar os Jogos Olímpicos de Inverno, com milhares de pessoas isoladas durante semanas no chamado "circuito fechado", sem qualquer contato físico com o exterior.

"Fora do âmbito esportivo, se no prédio onde eu resido houver um infectado, ele é fechado. Logo, se numa bolha surgir um jogador que teste positivo, esse polo do campeonato vai parar. Aí serão 14 dias até testar negativo e mais a quarentena que vem a seguir", detalha Irwing de Freitas, preparador físico da seleção chinesa e do Shangai Shenhua.

Em essência, o governo quer garantir que não haja casos em uma população de 1,4 bilhão de pessoas, por meio de testes em massa e rigorosos protocolos de isolamento de infecções ou contatos próximos.

O modelo de bolhas é um sistema eficaz porque, lembra Irwing, não há infectados pela doença envolvidos com a competição desde 2020. No entanto, o preço que se cobra por isso é visto em campo. "Esportivamente o nível do jogo caiu muito, o que é natural diante das circunstâncias. O desgaste mental é muito grande", avalia o preparador.