Esportes

Para o COI, segurança é o desafio do Rio para 2016

Da Redação ·
 Faltam mais de cinco anos para que a pira se acenda e inaugure a 31 edição dos Jogos Olímpicos de Verão, no Rio de Janeiro, a primeira na América do Sul. O senhor sexagenário que se acomoda em um sofá branco dentro de sua sala, no Château de Vidy, em Lausanne, revela a expectativa do que espera ver:  – Quando penso que vamos ao Brasil, imagino encontrar a exuberância da América Latina, a alegria dos cariocas e o ambiente único do Rio de Janeiro – afirma.  Mas a experiência de Jacques Rogge, belga que rege o movimento olímpico há nove anos, recomenda cautela. Sobretudo com a segurança. Para o Comitê Olímpico Internacional, este é o grande desafio não só do Rio, mas de todas as cidades que querem sediar o maior dos eventos esportivos.  Leia o melhor da entrevista, concedida com exclusividade ao LANCENET!:  Um ano se passou desde a eleição do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016. Desde aquele 2 de outubro, o que o senhor achou da repercussão internacional do fato? Qual foi a resposta do mundo àquele acontecimento? Há uma outra percepção do mundo em relação ao Brasil. O país tem sido considerado de uma maneira diferente daquela que era antes de ter o direito de sediar os Jogos de 2016. Naquele dia da eleição lembro que, em primeiro lugar, todos valorizavam o fato de que 2016 será o ano da primeira Olimpíada em um país sul-americano. Em segundo lugar, que os Jogos foram dados para um país que emerge rapidamente. O Brasil é hoje um dos grandes países do mundo, com uma economia que cresceu muito. Parabéns para Lula pelo que conseguiu neste campo. Houve uma real percepção de que a Olimpíada havia sido dada para o país certo. Aquele era o momento de o Brasil fincar pé no cenário mundial.  Quando o senhor deu início à sua gestão no COI, em 2001, pensou alguma vez que veria a Olimpíada ser disputada na América do Sul? Eu não tinha dúvida sobre isso, de que alguma hora isso iria acontecer. Foi a terceira candidatura do Rio. As duas primeiras não tiveram sucesso, mas mostraram evolução de uma para a outra. Aí, a terceira não tinha como não ser vencedora. Houve fatores que mostraram a condição de o Brasil sediar a Olimpíada, e a primeira foi esta evolução. A segunda foi a realização bem-sucedida dos Jogos Pan-Americanos de 2007, que com certeza contribuiu para reforçar nossa confiança no país.  Os Jogos Pan-Americanos foram bem organizados. Mas também tiveram muitas falhas. O senhor esteve presente ao evento, em 2007, e o que considerou bom e ruim? Eu acho que, no geral, foi um sucesso. Em um megaevento, é preciso olhar o quadro todo, não alguns pequenos detalhes. Obviamente, houve alguns problemas de organização no início. Certas estratégias foram implementadas com atraso, mas tudo se resolveu com um ou dois dias de andamento dos Jogos e depois não houve mais problemas. Mas, basicamente, os Jogos foram muito bons.  E, como o senhor conhece o Brasil, eu imagino que tenha conhecimento dos muitos problemas que existem: segurança, transporte público, aeroportos. Poderia apontar o maior desafio para o país na rota até 2016? Vou lhe dar uma resposta que vale para todas as edições dos Jogos Olímpicos, e não apenas para o Rio. O desafio número 1, que vem desde a Olimpíada de Munique-1972, é segurança. Este é o maior problema. É necessário ter uma boa segurança nos Jogos. Não estou dizendo que o Rio não é capaz. Eu acredito que o Rio é capaz de providenciar uma boa segurança para 2016. Mas, enfatizo, a segurança é fator número 1. Estamos falando de vidas humanas. O segundo grande problema, e também digo que se trata de algo generalizado em Olimpíadas, com raras exceções, é o transporte. Não é fácil mover milhares de pessoas em uma cidade já lotada. Então, segurança e transporte são os dois grandes problemas.  O problema de segurança no Rio é grave, sobretudo por conta da questão das favelas. Mas, durante o Pan, houve certa paz nas ruas. Foi isso que deu ao COI uma garantia de que grande eventos podem ser realizados lá? Não, nunca há garantia quando o assunto é segurança. Londres foi eleita para ser sede dos Jogos de 2012 com base na segurança que se presumia ter lá. Ela foi escolhida no dia 5 de julho, e no dia 7 houve um atentado a bomba. Em termos de segurança, não é possível prever nada. É preciso estar pronto para tudo. O fato de ter havido um clima de segurança nos Jogos Pan-Americanos foi positivo para a candidatura. Mas não vejo como uma garantia de que nada vai acontecer no futuro. Já houve problemas em Madri, em Atenas, em Londres. Nenhum país no mundo é imune a falhas de segurança. Então se há um aspecto que vamos continuar a insistir com a organização do Rio é providenciar a melhor segurança possível.  Podemos dizer que houve uma mudança na mentalidade do COI, por eleger a América do Sul para 2016? Além disso, o senhor disse que a África do Sul pode receber uma Olimpíada. O propósito fundamental dos Jogos Olímpicos não é agradar à opinião pública. É, sim, servir os atletas. O que olhamos primeiro (na escolha de uma sede) é como os atletas serão servidos. Observamos a candidatura para saber se as arenas esportivas serão boas, se o transporte cumprirá seu papel, se a Vila Olímpica será propícia. É isto que vem primeiro. É o que mais importa. E, se em um mesmo tempo, há igualdade entre duas cidades na questão de oferecer o melhor para os atletas, mas uma vem de uma região do mundo que nunca recebeu a Olimpíada e a outra vem de uma região que a recebeu muitas vezes, então provavelmente haverá um favorecimento para a primeira. Mas o COI não pensa: "para onde vamos na próxima vez?". Pensa em como dar o melhor aos atletas. Se o melhor era o Brasil, como foi em Copenhague, nós vamos. Pelos atletas. Não vamos ao Brasil para agradar a América Latina. O senhor tocou em um ponto importante. No Brasil, se fala muito de que seria a hora do país receber a Olimpíada. Pelo que acabou de ouvir, não é exatamente o caso... Estamos muito contentes por 2016 ser a vez do Brasil. Mas nunca foi o caso de o COI achar que devia a Olimpíada ao país, ou ao continente.  Cada país tem uma diferente cultura. O Brasil tem uma percepção de ser um país muito festivo. Como o senhor imagina que será a Olimpíada de 2016? Em primeiro lugar, ela precisa ser boa para os atletas. Mas, ao mesmo tempo, deve ser boa para o mundo. O ambiente local é importante, mas é a principal competição da vida para o atleta. Quando fomos a Atenas, em 2004, a atmosfera era a de um país em que os Jogos nasceram. Em Pequim, estávamos no país mais populoso do mundo. Em Londres, veremos a Olimpíada no país que inventou o esporte moderno, e o esporte mais popular do mundo, o futebol. Quando penso que vamos ao Brasil, imagino encontrar a exuberância da América Latina, a alegria dos cariocas e o ambiente único do Rio.  Desde a escolha do Rio para sede da Olimpíada, o comitê de avaliação do COI já visitou a cidade várias vezes. Pelos primeiros relatórios que o senhor recebeu, as metas têm sido cumpridas? Tenho recebido bons relatórios. A comissão de coordenação, que está sob comando de (marroquina) Nawal El Moutawakel, tem sido muito positiva sobre os primeiros passos da organização. Carlos Nuzman (presidente do Comitê Olímpico Brasileiro) e sua equipe têm dado um bom suporte. Sabemos que o governo brasileiro abraçou a ideia, em todos os níveis. Também fiquei satisfeito ao saber que os dois candidatos a presidente (Dilma Rousseff-PT e José Serra-PSDB) estão a favor dos Jogos Olímpicos. Então, estou satisfeito.  O Brasil se candidatou a receber vários Mundiais antes da Olimpíada de 2016, e pretende fazer alguns eventos-teste em certas instalações olímpicas. O COI concorda com isso? Sim, é preferível que os eventos-teste ocorram nas instalações olímpicas. Tais eventos devem ocorrer entre 2014 e 2016, mas definitivamente não antes da Copa do Mundo de 2014.  Em Pequim, foi realizada a maior edição dos Jogos Olímpicos se considerarmos dinheiro investido e instalações. Mas algumas destas instalações não foram usadas após a competição. Chegamos ao ponto de o Cubo D’Água se tornar um parque aquático. No Rio, após o Pan-2007, houve o mesmo problema. O que fazer para evitar carcaças? Sempre se quer deixar um bom legado dos Jogos Olímpicos. Não quero que se chegue a um ponto em que a cidade tenha instalações paradas. No caso do Cubo D’Água, ele se tornou um grande sucesso ao ser transformado em parque aquático e aquário. Hoje, recebe muitos visitantes. Não é mais um espaço para competição, mas virou uma atração para a população. Eu diria que é um bom legado.  Um bom legado não precisa necessariamente ser ligado ao esporte? Isso. Se considerarmos as instalações usadas em Pequim, quase todas foram construídas em campus de universidades. Quando eu falo de uma universidade em Pequim, não falo de 40 mil estudantes. Falo de 120 mil estudantes. E estas instalações ficam à disposição deles todos os dias. Então, não acho que há problemas de legado em Pequim.  Mesmo no Ninho do Pássaro? O Ninho do Pássaro dá lucro. Um estádio como o Ninho do Pássaro é necessário em uma grande cidade, para poder receber grandes eventos internacionais. O Rio tem o Maracanã, que foi construído para a Copa do Mundo 1950. O Maracanã tem servido o Rio por mais de 60 anos. Agora, ele terá de ser reformado e melhorado. Mas as grandes cidades devem ter um grande estádio olímpico ou um grande estádio de futebol. A China agora tem um, e ele tem tantos visitantes diariamente que garantem um lucro de vários milhões de dólares. Vá ao Estádio de Wembley, no Reino Unido, ou ao Stade de France, e veja que eles são necessários. Não é um problema.  Ainda em relação aos Jogos de Pequim. Tudo foi gigantesco, em termos de estrutura, logística, atletas, mídia. Os Jogos Olímpicos podem ter atingido seu limite operacional? A primeira coisa que fiz quando fui eleito, em 2001, foi verificar que os Jogos Olímpico já estavam muito grandes. Eu exerci na Olimpíada de Sydney-2000 o mesmo papel que Nawal El Moutawakel faz agora com o Rio, o de coordenação. Ali, percebi que a Olimpíada e o programa esportivo estavam ficando exageradamente grandes. Nos Jogos de Seul, em 1988, havia menos de 20 esportes, e em Sydney, doze anos depois, havia 28. Fizemos um estudo do tamanho e da complexidade dos Jogos e decidimos que o número de atletas não poderia ultrapassar 10.500. Também acordamos que o tamanho das arenas, a alimentação e outros fatores teriam de ser limitados, assim como o número de esportes, que não iria além de 28.  Neste ano o COI lançou a primeira edição da Olimpíada da Juventude, em Cingapura. O evento correspondeu às expectativas do senhor? Posso dizer que excedeu nossa expectativa mais positiva. Sabíamos que seria um evento bem organizado, mas tínhamos 205 países no evento, todos estavam lá. Foram 26 esportes do programa olímpico. Pensei que haveria 250 profissionais de mídia, mas mais de mil estiveram presentes. Tivemos transmissões além do previsto e uma larga cobertura na internet. Foi um grande sucesso.  Em relação ao seu mandato no COI, que já dura nove anos, o senhor conseguiu implementar tudo o que queria ou ainda não? Há lamentações? Acredito que muito do que planejava foi posto em prática. Meu primeiro ato como presidente do COI foi reforçar os valores do movimento olímpico. E, quando digo isto, entenda que é o combate ao doping. Também acho que realizamos boas edições de Jogos Olímpicos e consegui trazer boas inovações, como os Jogos da Juventude.  Mas o que ainda é preciso melhorar? As finanças do COI. Quero reforçar a estrutura financeira do COI. Quando fui eleito presidente, em 2001, encomendei um estudo para saber quanto a entidade conseguiria sobreviver sem os rendimentos dos Jogos Olímpicos. Imagine uma situação em que a Olimpíada fosse cancelada. O estudo apontou que o COI conseguiria sobreviver 18 meses. Depois disto, eu fecharia as portas e diria adeus a todo mundo porque não existiria o COI nunca mais. Eu disse a mim mesmo que isso era inaceitável, e criei um projeto para acumular reservas para sobreviver quatro anos. Passamos de uma reserva de aproximadamente US$ 98 milhões para mais de R$ 500 milhões. Então, conseguiremos sobreviver. Mas, ao mesmo tempo, aumentamos o repasse de dinheiro aos Comitês Olímpicos Nacionais e Federações Internacionais, algo em torno de 40%, o que é substancial.  Teve alguma frustração? Realizei mais de 90% do que queria. Sempre há coisas que se quer fazer melhor e melhorar, como ter mais mulheres no esporte, igualar a participação entre homens e mulheres. Nos Jogos Olímpicos, há uma proporção de 44% mulheres e 56% homens. Na Olimpíada da Juventude, tivemos 46% de mulheres e 54% de homens. Eu quero rever esta lacuna o quanto antes.  O senhor se referiu ao doping, e a Olimpíada da Juventude foi muito voltada à educação do atleta. Foi a maneira que o COI encontrou de alertar a juventude? Há uma idade crucial entre 14 e 18 anos, que é o melhor período para convencer um atleta a não se dopar. Não é possível impedir o atleta de se dopar, é preciso convencê-lo. Acredito que muitos dos atletas que participaram do seminário receberam a mensagem. Não todos, é claro, porque em todas as sociedades existe gente que não segue as regras.  De 2001 até agora, como o senhor classifica a luta contra a doping? Houve mais realizações ou frustrações? Fizemos um bom progresso. A Agência Mundial Antidoping (Wada) foi uma criação do COI. Nós também decidimos congelar as amostras colhidas durante os Jogos Olímpicos por oito anos. Também aumentamos punições, trabalhamos com a polícia internacional. Estamos combatendo com mais rigor, e todos concordam, da Wada às federações internacionais, que houve progresso. É muito mais difícil conseguir se dopar hoje do que há cinco ou dez anos. Mas também é preciso ser realista e encarar que o doping jamais vai desaparecer. A trapaça faz parte da natureza humana, porém queremos reduzi-la a níveis baixos.  Então é um discurso irreal achar que veremos uma Olimpíada, um dia, sem nenhum caso de doping? É irreal pensar que teremos Olimpíada, Olimpíada da Juventude ou Campeonatos Mundiais sem doping. Por um período é possível não ter doping, como de repente durante uma Olimpíada, que dura 14 dias, mas no longo prazo casos sempre vão aparecer. Mas o que eu procuro é uma tendência de queda.  Durante sua administração, dois grandes fenômenos da história olímpica surgiram: Michael Phelps e Usain Bolt. Qual a importância de ter dois grandes ícones em uma mesma era? Realmente, é importante ter super heróis. Os jovens e a população querem heróis como Pelé e Ronaldinho. São os heróis que aproximam as pessoas do esporte, que viram inspiração. Mas há um outro lado, e eu tenho certeza que viver como um modelo não é fácil. A pressão que nós colocamos nos atletas é muito grande. Nem sempre é fácil suportar. Por exemplo, quando Michael Phelps foi flagrado consumindo maconha. Não podemos contemporizar o fato de Michael Phelps ter fumando maconha, porque não é um bom sinal. Mas, na outra mão, não se pode tampouco tratá-lo como um criminal. Ele nunca matou alguém.
fonte: Reuters
Faltam mais de cinco anos para que a pira se acenda e inaugure a 31 edição dos Jogos Olímpicos de Verão, no Rio de Janeiro, a primeira na América do Sul. O senhor sexagenário que se acomoda em um sofá branco dentro de sua sala, no Château de Vidy, em Lausanne, revela a expectativa do que espera ver: – Quando penso que vamos ao Brasil, imagino encontrar a exuberância da América Latina, a alegria dos cariocas e o ambiente único do Rio de Janeiro – afirma. Mas a experiência de Jacques Rogge, belga que rege o movimento olímpico há nove anos, recomenda cautela. Sobretudo com a segurança. Para o Comitê Olímpico Internacional, este é o grande desafio não só do Rio, mas de todas as cidades que querem sediar o maior dos eventos esportivos. Leia o melhor da entrevista, concedida com exclusividade ao LANCENET!: Um ano se passou desde a eleição do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016. Desde aquele 2 de outubro, o que o senhor achou da repercussão internacional do fato? Qual foi a resposta do mundo àquele acontecimento? Há uma outra percepção do mundo em relação ao Brasil. O país tem sido considerado de uma maneira diferente daquela que era antes de ter o direito de sediar os Jogos de 2016. Naquele dia da eleição lembro que, em primeiro lugar, todos valorizavam o fato de que 2016 será o ano da primeira Olimpíada em um país sul-americano. Em segundo lugar, que os Jogos foram dados para um país que emerge rapidamente. O Brasil é hoje um dos grandes países do mundo, com uma economia que cresceu muito. Parabéns para Lula pelo que conseguiu neste campo. Houve uma real percepção de que a Olimpíada havia sido dada para o país certo. Aquele era o momento de o Brasil fincar pé no cenário mundial. Quando o senhor deu início à sua gestão no COI, em 2001, pensou alguma vez que veria a Olimpíada ser disputada na América do Sul? Eu não tinha dúvida sobre isso, de que alguma hora isso iria acontecer. Foi a terceira candidatura do Rio. As duas primeiras não tiveram sucesso, mas mostraram evolução de uma para a outra. Aí, a terceira não tinha como não ser vencedora. Houve fatores que mostraram a condição de o Brasil sediar a Olimpíada, e a primeira foi esta evolução. A segunda foi a realização bem-sucedida dos Jogos Pan-Americanos de 2007, que com certeza contribuiu para reforçar nossa confiança no país. Os Jogos Pan-Americanos foram bem organizados. Mas também tiveram muitas falhas. O senhor esteve presente ao evento, em 2007, e o que considerou bom e ruim? Eu acho que, no geral, foi um sucesso. Em um megaevento, é preciso olhar o quadro todo, não alguns pequenos detalhes. Obviamente, houve alguns problemas de organização no início. Certas estratégias foram implementadas com atraso, mas tudo se resolveu com um ou dois dias de andamento dos Jogos e depois não houve mais problemas. Mas, basicamente, os Jogos foram muito bons. E, como o senhor conhece o Brasil, eu imagino que tenha conhecimento dos muitos problemas que existem: segurança, transporte público, aeroportos. Poderia apontar o maior desafio para o país na rota até 2016? Vou lhe dar uma resposta que vale para todas as edições dos Jogos Olímpicos, e não apenas para o Rio. O desafio número 1, que vem desde a Olimpíada de Munique-1972, é segurança. Este é o maior problema. É necessário ter uma boa segurança nos Jogos. Não estou dizendo que o Rio não é capaz. Eu acredito que o Rio é capaz de providenciar uma boa segurança para 2016. Mas, enfatizo, a segurança é fator número 1. Estamos falando de vidas humanas. O segundo grande problema, e também digo que se trata de algo generalizado em Olimpíadas, com raras exceções, é o transporte. Não é fácil mover milhares de pessoas em uma cidade já lotada. Então, segurança e transporte são os dois grandes problemas. O problema de segurança no Rio é grave, sobretudo por conta da questão das favelas. Mas, durante o Pan, houve certa paz nas ruas. Foi isso que deu ao COI uma garantia de que grande eventos podem ser realizados lá? Não, nunca há garantia quando o assunto é segurança. Londres foi eleita para ser sede dos Jogos de 2012 com base na segurança que se presumia ter lá. Ela foi escolhida no dia 5 de julho, e no dia 7 houve um atentado a bomba. Em termos de segurança, não é possível prever nada. É preciso estar pronto para tudo. O fato de ter havido um clima de segurança nos Jogos Pan-Americanos foi positivo para a candidatura. Mas não vejo como uma garantia de que nada vai acontecer no futuro. Já houve problemas em Madri, em Atenas, em Londres. Nenhum país no mundo é imune a falhas de segurança. Então se há um aspecto que vamos continuar a insistir com a organização do Rio é providenciar a melhor segurança possível. Podemos dizer que houve uma mudança na mentalidade do COI, por eleger a América do Sul para 2016? Além disso, o senhor disse que a África do Sul pode receber uma Olimpíada. O propósito fundamental dos Jogos Olímpicos não é agradar à opinião pública. É, sim, servir os atletas. O que olhamos primeiro (na escolha de uma sede) é como os atletas serão servidos. Observamos a candidatura para saber se as arenas esportivas serão boas, se o transporte cumprirá seu papel, se a Vila Olímpica será propícia. É isto que vem primeiro. É o que mais importa. E, se em um mesmo tempo, há igualdade entre duas cidades na questão de oferecer o melhor para os atletas, mas uma vem de uma região do mundo que nunca recebeu a Olimpíada e a outra vem de uma região que a recebeu muitas vezes, então provavelmente haverá um favorecimento para a primeira. Mas o COI não pensa: "para onde vamos na próxima vez?". Pensa em como dar o melhor aos atletas. Se o melhor era o Brasil, como foi em Copenhague, nós vamos. Pelos atletas. Não vamos ao Brasil para agradar a América Latina. O senhor tocou em um ponto importante. No Brasil, se fala muito de que seria a hora do país receber a Olimpíada. Pelo que acabou de ouvir, não é exatamente o caso... Estamos muito contentes por 2016 ser a vez do Brasil. Mas nunca foi o caso de o COI achar que devia a Olimpíada ao país, ou ao continente. Cada país tem uma diferente cultura. O Brasil tem uma percepção de ser um país muito festivo. Como o senhor imagina que será a Olimpíada de 2016? Em primeiro lugar, ela precisa ser boa para os atletas. Mas, ao mesmo tempo, deve ser boa para o mundo. O ambiente local é importante, mas é a principal competição da vida para o atleta. Quando fomos a Atenas, em 2004, a atmosfera era a de um país em que os Jogos nasceram. Em Pequim, estávamos no país mais populoso do mundo. Em Londres, veremos a Olimpíada no país que inventou o esporte moderno, e o esporte mais popular do mundo, o futebol. Quando penso que vamos ao Brasil, imagino encontrar a exuberância da América Latina, a alegria dos cariocas e o ambiente único do Rio. Desde a escolha do Rio para sede da Olimpíada, o comitê de avaliação do COI já visitou a cidade várias vezes. Pelos primeiros relatórios que o senhor recebeu, as metas têm sido cumpridas? Tenho recebido bons relatórios. A comissão de coordenação, que está sob comando de (marroquina) Nawal El Moutawakel, tem sido muito positiva sobre os primeiros passos da organização. Carlos Nuzman (presidente do Comitê Olímpico Brasileiro) e sua equipe têm dado um bom suporte. Sabemos que o governo brasileiro abraçou a ideia, em todos os níveis. Também fiquei satisfeito ao saber que os dois candidatos a presidente (Dilma Rousseff-PT e José Serra-PSDB) estão a favor dos Jogos Olímpicos. Então, estou satisfeito. O Brasil se candidatou a receber vários Mundiais antes da Olimpíada de 2016, e pretende fazer alguns eventos-teste em certas instalações olímpicas. O COI concorda com isso? Sim, é preferível que os eventos-teste ocorram nas instalações olímpicas. Tais eventos devem ocorrer entre 2014 e 2016, mas definitivamente não antes da Copa do Mundo de 2014. Em Pequim, foi realizada a maior edição dos Jogos Olímpicos se considerarmos dinheiro investido e instalações. Mas algumas destas instalações não foram usadas após a competição. Chegamos ao ponto de o Cubo D’Água se tornar um parque aquático. No Rio, após o Pan-2007, houve o mesmo problema. O que fazer para evitar carcaças? Sempre se quer deixar um bom legado dos Jogos Olímpicos. Não quero que se chegue a um ponto em que a cidade tenha instalações paradas. No caso do Cubo D’Água, ele se tornou um grande sucesso ao ser transformado em parque aquático e aquário. Hoje, recebe muitos visitantes. Não é mais um espaço para competição, mas virou uma atração para a população. Eu diria que é um bom legado. Um bom legado não precisa necessariamente ser ligado ao esporte? Isso. Se considerarmos as instalações usadas em Pequim, quase todas foram construídas em campus de universidades. Quando eu falo de uma universidade em Pequim, não falo de 40 mil estudantes. Falo de 120 mil estudantes. E estas instalações ficam à disposição deles todos os dias. Então, não acho que há problemas de legado em Pequim. Mesmo no Ninho do Pássaro? O Ninho do Pássaro dá lucro. Um estádio como o Ninho do Pássaro é necessário em uma grande cidade, para poder receber grandes eventos internacionais. O Rio tem o Maracanã, que foi construído para a Copa do Mundo 1950. O Maracanã tem servido o Rio por mais de 60 anos. Agora, ele terá de ser reformado e melhorado. Mas as grandes cidades devem ter um grande estádio olímpico ou um grande estádio de futebol. A China agora tem um, e ele tem tantos visitantes diariamente que garantem um lucro de vários milhões de dólares. Vá ao Estádio de Wembley, no Reino Unido, ou ao Stade de France, e veja que eles são necessários. Não é um problema. Ainda em relação aos Jogos de Pequim. Tudo foi gigantesco, em termos de estrutura, logística, atletas, mídia. Os Jogos Olímpicos podem ter atingido seu limite operacional? A primeira coisa que fiz quando fui eleito, em 2001, foi verificar que os Jogos Olímpico já estavam muito grandes. Eu exerci na Olimpíada de Sydney-2000 o mesmo papel que Nawal El Moutawakel faz agora com o Rio, o de coordenação. Ali, percebi que a Olimpíada e o programa esportivo estavam ficando exageradamente grandes. Nos Jogos de Seul, em 1988, havia menos de 20 esportes, e em Sydney, doze anos depois, havia 28. Fizemos um estudo do tamanho e da complexidade dos Jogos e decidimos que o número de atletas não poderia ultrapassar 10.500. Também acordamos que o tamanho das arenas, a alimentação e outros fatores teriam de ser limitados, assim como o número de esportes, que não iria além de 28. Neste ano o COI lançou a primeira edição da Olimpíada da Juventude, em Cingapura. O evento correspondeu às expectativas do senhor? Posso dizer que excedeu nossa expectativa mais positiva. Sabíamos que seria um evento bem organizado, mas tínhamos 205 países no evento, todos estavam lá. Foram 26 esportes do programa olímpico. Pensei que haveria 250 profissionais de mídia, mas mais de mil estiveram presentes. Tivemos transmissões além do previsto e uma larga cobertura na internet. Foi um grande sucesso. Em relação ao seu mandato no COI, que já dura nove anos, o senhor conseguiu implementar tudo o que queria ou ainda não? Há lamentações? Acredito que muito do que planejava foi posto em prática. Meu primeiro ato como presidente do COI foi reforçar os valores do movimento olímpico. E, quando digo isto, entenda que é o combate ao doping. Também acho que realizamos boas edições de Jogos Olímpicos e consegui trazer boas inovações, como os Jogos da Juventude. Mas o que ainda é preciso melhorar? As finanças do COI. Quero reforçar a estrutura financeira do COI. Quando fui eleito presidente, em 2001, encomendei um estudo para saber quanto a entidade conseguiria sobreviver sem os rendimentos dos Jogos Olímpicos. Imagine uma situação em que a Olimpíada fosse cancelada. O estudo apontou que o COI conseguiria sobreviver 18 meses. Depois disto, eu fecharia as portas e diria adeus a todo mundo porque não existiria o COI nunca mais. Eu disse a mim mesmo que isso era inaceitável, e criei um projeto para acumular reservas para sobreviver quatro anos. Passamos de uma reserva de aproximadamente US$ 98 milhões para mais de R$ 500 milhões. Então, conseguiremos sobreviver. Mas, ao mesmo tempo, aumentamos o repasse de dinheiro aos Comitês Olímpicos Nacionais e Federações Internacionais, algo em torno de 40%, o que é substancial. Teve alguma frustração? Realizei mais de 90% do que queria. Sempre há coisas que se quer fazer melhor e melhorar, como ter mais mulheres no esporte, igualar a participação entre homens e mulheres. Nos Jogos Olímpicos, há uma proporção de 44% mulheres e 56% homens. Na Olimpíada da Juventude, tivemos 46% de mulheres e 54% de homens. Eu quero rever esta lacuna o quanto antes. O senhor se referiu ao doping, e a Olimpíada da Juventude foi muito voltada à educação do atleta. Foi a maneira que o COI encontrou de alertar a juventude? Há uma idade crucial entre 14 e 18 anos, que é o melhor período para convencer um atleta a não se dopar. Não é possível impedir o atleta de se dopar, é preciso convencê-lo. Acredito que muitos dos atletas que participaram do seminário receberam a mensagem. Não todos, é claro, porque em todas as sociedades existe gente que não segue as regras. De 2001 até agora, como o senhor classifica a luta contra a doping? Houve mais realizações ou frustrações? Fizemos um bom progresso. A Agência Mundial Antidoping (Wada) foi uma criação do COI. Nós também decidimos congelar as amostras colhidas durante os Jogos Olímpicos por oito anos. Também aumentamos punições, trabalhamos com a polícia internacional. Estamos combatendo com mais rigor, e todos concordam, da Wada às federações internacionais, que houve progresso. É muito mais difícil conseguir se dopar hoje do que há cinco ou dez anos. Mas também é preciso ser realista e encarar que o doping jamais vai desaparecer. A trapaça faz parte da natureza humana, porém queremos reduzi-la a níveis baixos. Então é um discurso irreal achar que veremos uma Olimpíada, um dia, sem nenhum caso de doping? É irreal pensar que teremos Olimpíada, Olimpíada da Juventude ou Campeonatos Mundiais sem doping. Por um período é possível não ter doping, como de repente durante uma Olimpíada, que dura 14 dias, mas no longo prazo casos sempre vão aparecer. Mas o que eu procuro é uma tendência de queda. Durante sua administração, dois grandes fenômenos da história olímpica surgiram: Michael Phelps e Usain Bolt. Qual a importância de ter dois grandes ícones em uma mesma era? Realmente, é importante ter super heróis. Os jovens e a população querem heróis como Pelé e Ronaldinho. São os heróis que aproximam as pessoas do esporte, que viram inspiração. Mas há um outro lado, e eu tenho certeza que viver como um modelo não é fácil. A pressão que nós colocamos nos atletas é muito grande. Nem sempre é fácil suportar. Por exemplo, quando Michael Phelps foi flagrado consumindo maconha. Não podemos contemporizar o fato de Michael Phelps ter fumando maconha, porque não é um bom sinal. Mas, na outra mão, não se pode tampouco tratá-lo como um criminal. Ele nunca matou alguém.

Faltam mais de cinco anos para que a pira se acenda e inaugure a 31 edição dos Jogos Olímpicos de Verão, no Rio de Janeiro, a primeira na América do Sul. O senhor sexagenário que se acomoda em um sofá branco dentro de sua sala, no Château de Vidy, em Lausanne, revela a expectativa do que espera ver:
 

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– Quando penso que vamos ao Brasil, imagino encontrar a exuberância da América Latina, a alegria dos cariocas e o ambiente único do Rio de Janeiro – afirma.

Mas a experiência de Jacques Rogge, belga que rege o movimento olímpico há nove anos, recomenda cautela. Sobretudo com a segurança. Para o Comitê Olímpico Internacional, este é o grande desafio não só do Rio, mas de todas as cidades que querem sediar o maior dos eventos esportivos.
 

Leia entrevista feita pelo Lance Press
 

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Um ano se passou desde a eleição do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016. Desde aquele 2 de outubro, o que o senhor achou da repercussão internacional do fato? Qual foi a resposta do mundo àquele acontecimento?


Há uma outra percepção do mundo em relação ao Brasil. O país tem sido considerado de uma maneira diferente daquela que era antes de ter o direito de sediar os Jogos de 2016. Naquele dia da eleição lembro que, em primeiro lugar, todos valorizavam o fato de que 2016 será o ano da primeira Olimpíada em um país sul-americano. Em segundo lugar, que os Jogos foram dados para um país que emerge rapidamente. O Brasil é hoje um dos grandes países do mundo, com uma economia que cresceu muito. Parabéns para Lula pelo que conseguiu neste campo. Houve uma real percepção de que a Olimpíada havia sido dada para o país certo. Aquele era o momento de o Brasil fincar pé no cenário mundial.
 

Quando o senhor deu início à sua gestão no COI, em 2001, pensou alguma vez que veria a Olimpíada ser disputada na América do Sul?

Eu não tinha dúvida sobre isso, de que alguma hora isso iria acontecer. Foi a terceira candidatura do Rio. As duas primeiras não tiveram sucesso, mas mostraram evolução de uma para a outra. Aí, a terceira não tinha como não ser vencedora. Houve fatores que mostraram a condição de o Brasil sediar a Olimpíada, e a primeira foi esta evolução. A segunda foi a realização bem-sucedida dos Jogos Pan-Americanos de 2007, que com certeza contribuiu para reforçar nossa confiança no país.
 

Os Jogos Pan-Americanos foram bem organizados. Mas também tiveram muitas falhas. O senhor esteve presente ao evento, em 2007, e o que considerou bom e ruim?


Eu acho que, no geral, foi um sucesso. Em um megaevento, é preciso olhar o quadro todo, não alguns pequenos detalhes. Obviamente, houve alguns problemas de organização no início. Certas estratégias foram implementadas com atraso, mas tudo se resolveu com um ou dois dias de andamento dos Jogos e depois não houve mais problemas. Mas, basicamente, os Jogos foram muito bons.
 

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E, como o senhor conhece o Brasil, eu imagino que tenha conhecimento dos muitos problemas que existem: segurança, transporte público, aeroportos. Poderia apontar o maior desafio para o país na rota até 2016?

Vou lhe dar uma resposta que vale para todas as edições dos Jogos Olímpicos, e não apenas para o Rio. O desafio número 1, que vem desde a Olimpíada de Munique-1972, é segurança. Este é o maior problema. É necessário ter uma boa segurança nos Jogos. Não estou dizendo que o Rio não é capaz. Eu acredito que o Rio é capaz de providenciar uma boa segurança para 2016. Mas, enfatizo, a segurança é fator número 1. Estamos falando de vidas humanas. O segundo grande problema, e também digo que se trata de algo generalizado em Olimpíadas, com raras exceções, é o transporte. Não é fácil mover milhares de pessoas em uma cidade já lotada. Então, segurança e transporte são os dois grandes problemas.
 

O problema de segurança no Rio é grave, sobretudo por conta da questão das favelas. Mas, durante o Pan, houve certa paz nas ruas. Foi isso que deu ao COI uma garantia de que grande eventos podem ser realizados lá?

Não, nunca há garantia quando o assunto é segurança. Londres foi eleita para ser sede dos Jogos de 2012 com base na segurança que se presumia ter lá. Ela foi escolhida no dia 5 de julho, e no dia 7 houve um atentado a bomba. Em termos de segurança, não é possível prever nada. É preciso estar pronto para tudo. O fato de ter havido um clima de segurança nos Jogos Pan-Americanos foi positivo para a candidatura. Mas não vejo como uma garantia de que nada vai acontecer no futuro. Já houve problemas em Madri, em Atenas, em Londres. Nenhum país no mundo é imune a falhas de segurança. Então se há um aspecto que vamos continuar a insistir com a organização do Rio é providenciar a melhor segurança possível.
 

Podemos dizer que houve uma mudança na mentalidade do COI, por eleger a América do Sul para 2016? Além disso, o senhor disse que a África do Sul pode receber uma Olimpíada.


O propósito fundamental dos Jogos Olímpicos não é agradar à opinião pública. É, sim, servir os atletas. O que olhamos primeiro (na escolha de uma sede) é como os atletas serão servidos. Observamos a candidatura para saber se as arenas esportivas serão boas, se o transporte cumprirá seu papel, se a Vila Olímpica será propícia. É isto que vem primeiro. É o que mais importa. E, se em um mesmo tempo, há igualdade entre duas cidades na questão de oferecer o melhor para os atletas, mas uma vem de uma região do mundo que nunca recebeu a Olimpíada e a outra vem de uma região que a recebeu muitas vezes, então provavelmente haverá um favorecimento para a primeira. Mas o COI não pensa: "para onde vamos na próxima vez?". Pensa em como dar o melhor aos atletas. Se o melhor era o Brasil, como foi em Copenhague, nós vamos. Pelos atletas. Não vamos ao Brasil para agradar a América Latina. O senhor tocou em um ponto importante. No Brasil, se fala muito de que seria a hora do país receber a Olimpíada. Pelo que acabou de ouvir, não é exatamente o caso... Estamos muito contentes por 2016 ser a vez do Brasil. Mas nunca foi o caso de o COI achar que devia a Olimpíada ao país, ou ao continente.
 

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Cada país tem uma diferente cultura. O Brasil tem uma percepção de ser um país muito festivo. Como o senhor imagina que será a Olimpíada de 2016?


Em primeiro lugar, ela precisa ser boa para os atletas. Mas, ao mesmo tempo, deve ser boa para o mundo. O ambiente local é importante, mas é a principal competição da vida para o atleta. Quando fomos a Atenas, em 2004, a atmosfera era a de um país em que os Jogos nasceram. Em Pequim, estávamos no país mais populoso do mundo. Em Londres, veremos a Olimpíada no país que inventou o esporte moderno, e o esporte mais popular do mundo, o futebol. Quando penso que vamos ao Brasil, imagino encontrar a exuberância da América Latina, a alegria dos cariocas e o ambiente único do Rio.

 

Desde a escolha do Rio para sede da Olimpíada, o comitê de avaliação do COI já visitou a cidade várias vezes. Pelos primeiros relatórios que o senhor recebeu, as metas têm sido cumpridas?


Tenho recebido bons relatórios. A comissão de coordenação, que está sob comando de (marroquina) Nawal El Moutawakel, tem sido muito positiva sobre os primeiros passos da organização. Carlos Nuzman (presidente do Comitê Olímpico Brasileiro) e sua equipe têm dado um bom suporte. Sabemos que o governo brasileiro abraçou a ideia, em todos os níveis. Também fiquei satisfeito ao saber que os dois candidatos a presidente (Dilma Rousseff-PT e José Serra-PSDB) estão a favor dos Jogos Olímpicos. Então, estou satisfeito.
 

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O Brasil se candidatou a receber vários Mundiais antes da Olimpíada de 2016, e pretende fazer alguns eventos-teste em certas instalações olímpicas. O COI concorda com isso?


Sim, é preferível que os eventos-teste ocorram nas instalações olímpicas. Tais eventos devem ocorrer entre 2014 e 2016, mas definitivamente não antes da Copa do Mundo de 2014.
 

Em Pequim, foi realizada a maior edição dos Jogos Olímpicos se considerarmos dinheiro investido e instalações. Mas algumas destas instalações não foram usadas após a competição. Chegamos ao ponto de o Cubo D’Água se tornar um parque aquático. No Rio, após o Pan-2007, houve o mesmo problema. O que fazer para evitar carcaças?


Um bom legado não precisa necessariamente ser ligado ao esporte?


Isso. Se considerarmos as instalações usadas em Pequim, quase todas foram construídas em campus de universidades. Quando eu falo de uma universidade em Pequim, não falo de 40 mil estudantes. Falo de 120 mil estudantes. E estas instalações ficam à disposição deles todos os dias. Então, não acho que há problemas de legado em Pequim.
 

Mesmo no Ninho do Pássaro?


O Ninho do Pássaro dá lucro. Um estádio como o Ninho do Pássaro é necessário em uma grande cidade, para poder receber grandes eventos internacionais. O Rio tem o Maracanã, que foi construído para a Copa do Mundo 1950. O Maracanã tem servido o Rio por mais de 60 anos. Agora, ele terá de ser reformado e melhorado. Mas as grandes cidades devem ter um grande estádio olímpico ou um grande estádio de futebol. A China agora tem um, e ele tem tantos visitantes diariamente que garantem um lucro de vários milhões de dólares. Vá ao Estádio de Wembley, no Reino Unido, ou ao Stade de France, e veja que eles são necessários. Não é um problema.
 

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Ainda em relação aos Jogos de Pequim. Tudo foi gigantesco, em termos de estrutura, logística, atletas, mídia. Os Jogos Olímpicos podem ter atingido seu limite operacional?


A primeira coisa que fiz quando fui eleito, em 2001, foi verificar que os Jogos Olímpico já estavam muito grandes. Eu exerci na Olimpíada de Sydney-2000 o mesmo papel que Nawal El Moutawakel faz agora com o Rio, o de coordenação. Ali, percebi que a Olimpíada e o programa esportivo estavam ficando exageradamente grandes. Nos Jogos de Seul, em 1988, havia menos de 20 esportes, e em Sydney, doze anos depois, havia 28. Fizemos um estudo do tamanho e da complexidade dos Jogos e decidimos que o número de atletas não poderia ultrapassar 10.500. Também acordamos que o tamanho das arenas, a alimentação e outros fatores teriam de ser limitados, assim como o número de esportes, que não iria além de 28.

 

Neste ano o COI lançou a primeira edição da Olimpíada da Juventude, em Cingapura. O evento correspondeu às expectativas do senhor?


Posso dizer que excedeu nossa expectativa mais positiva. Sabíamos que seria um evento bem organizado, mas tínhamos 205 países no evento, todos estavam lá. Foram 26 esportes do programa olímpico. Pensei que haveria 250 profissionais de mídia, mas mais de mil estiveram presentes. Tivemos transmissões além do previsto e uma larga cobertura na internet. Foi um grande sucesso.
 

Em relação ao seu mandato no COI, que já dura nove anos, o senhor conseguiu implementar tudo o que queria ou ainda não? Há lamentações?


Acredito que muito do que planejava foi posto em prática. Meu primeiro ato como presidente do COI foi reforçar os valores do movimento olímpico. E, quando digo isto, entenda que é o combate ao doping. Também acho que realizamos boas edições de Jogos Olímpicos e consegui trazer boas inovações, como os Jogos da Juventude.
 

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Mas o que ainda é preciso melhorar?

As finanças do COI. Quero reforçar a estrutura financeira do COI. Quando fui eleito presidente, em 2001, encomendei um estudo para saber quanto a entidade conseguiria sobreviver sem os rendimentos dos Jogos Olímpicos. Imagine uma situação em que a Olimpíada fosse cancelada. O estudo apontou que o COI conseguiria sobreviver 18 meses. Depois disto, eu fecharia as portas e diria adeus a todo mundo porque não existiria o COI nunca mais. Eu disse a mim mesmo que isso era inaceitável, e criei um projeto para acumular reservas para sobreviver quatro anos. Passamos de uma reserva de aproximadamente US$ 98 milhões para mais de R$ 500 milhões. Então, conseguiremos sobreviver. Mas, ao mesmo tempo, aumentamos o repasse de dinheiro aos Comitês Olímpicos Nacionais e Federações Internacionais, algo em torno de 40%, o que é substancial.
 

Teve alguma frustração?

Realizei mais de 90% do que queria. Sempre há coisas que se quer fazer melhor e melhorar, como ter mais mulheres no esporte, igualar a participação entre homens e mulheres. Nos Jogos Olímpicos, há uma proporção de 44% mulheres e 56% homens. Na Olimpíada da Juventude, tivemos 46% de mulheres e 54% de homens. Eu quero rever esta lacuna o quanto antes.

 

O senhor se referiu ao doping, e a Olimpíada da Juventude foi muito voltada à educação do atleta. Foi a maneira que o COI encontrou de alertar a juventude?

Há uma idade crucial entre 14 e 18 anos, que é o melhor período para convencer um atleta a não se dopar. Não é possível impedir o atleta de se dopar, é preciso convencê-lo. Acredito que muitos dos atletas que participaram do seminário receberam a mensagem. Não todos, é claro, porque em todas as sociedades existe gente que não segue as regras.
 

De 2001 até agora, como o senhor classifica a luta contra a doping? Houve mais realizações ou frustrações?


Fizemos um bom progresso. A Agência Mundial Antidoping (Wada) foi uma criação do COI. Nós também decidimos congelar as amostras colhidas durante os Jogos Olímpicos por oito anos. Também aumentamos punições, trabalhamos com a polícia internacional. Estamos combatendo com mais rigor, e todos concordam, da Wada às federações internacionais, que houve progresso. É muito mais difícil conseguir se dopar hoje do que há cinco ou dez anos. Mas também é preciso ser realista e encarar que o doping jamais vai desaparecer. A trapaça faz parte da natureza humana, porém queremos reduzi-la a níveis baixos.
 

Então é um discurso irreal achar que veremos uma Olimpíada, um dia, sem nenhum caso de doping?


É irreal pensar que teremos Olimpíada, Olimpíada da Juventude ou Campeonatos Mundiais sem doping. Por um período é possível não ter doping, como de repente durante uma Olimpíada, que dura 14 dias, mas no longo prazo casos sempre vão aparecer. Mas o que eu procuro é uma tendência de queda.
 

Durante sua administração, dois grandes fenômenos da história olímpica surgiram: Michael Phelps e Usain Bolt. Qual a importância de ter dois grandes ícones em uma mesma era?


Realmente, é importante ter super heróis. Os jovens e a população querem heróis como Pelé e Ronaldinho. São os heróis que aproximam as pessoas do esporte, que viram inspiração. Mas há um outro lado, e eu tenho certeza que viver como um modelo não é fácil. A pressão que nós colocamos nos atletas é muito grande. Nem sempre é fácil suportar. Por exemplo, quando Michael Phelps foi flagrado consumindo maconha. Não podemos contemporizar o fato de Michael Phelps ter fumando maconha, porque não é um bom sinal. Mas, na outra mão, não se pode tampouco tratá-lo como um criminal. Ele nunca matou alguém.