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Campeã mundial de boxe pede carinho no Brasil

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ALEX SABINO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Rose Volante, 35, perde a paciência logo na primeira pergunta da entrevista.

"Como o boxe entrou na sua vida?"

"Para perder peso. Já falei isso várias vezes."

Aos poucos ela se solta e responde a outras questões. Depois aceita falar sobre como surgiu o amor pelo esporte que a fez se tornar a primeira brasileira campeã mundial de boxe profissional.

Ela ganhou o título da categoria leve (até 61 kg) da OMB (Organização Mundial de Boxe) em dezembro ao derrotar a argentina Brenda Carvajal, em Jujuy (ARG).

Era a sua 12ª luta profissional de sua carreira invicta. Foi quando a ficha caiu sobre a diferença entre o prestígio de ser campeã de boxe no Brasil e na Argentina.

"Ela demorou 40 minutos para chegar ao vestiário do ginásio porque as pessoas queriam autógrafo e tirar fotografia. O público torceu pela argentina, mas depois a aplaudiu. Na rua, era parada por fãs que queriam conversar", afirma Felipe Moledas, treinador de Rose.

Quando ela desembarcou no Brasil com o cinturão de campeã mundial, foi como se nada tivesse mudado.

"Fiquei bastante chateada porque não teve cobertura de TV. Quem quis assistir [à luta] teve de procurar na internet", completa.

A próxima chance de ser reconhecida será em 21 de abril, quando vai defender pela primeira vez o título. A adversária será a panamenha Lourdes Borbua, 28, e a luta será em Santos (a 73 km de São Paulo), onde ela treina.

Brigar para ser notada hoje em dia não é nada diferente do que Rose se acostumou a viver desde que decidiu se dedicar ao esporte. Na primeira vez que entrou na academia-escola mantida pela Prefeitura em Pirituba (zona noroeste de São Paulo), perguntou se era ali que havia aula de boxe. O professor a olhou de cima a baixo.

"Você está vendo alguma mulher aqui?"

Rose não baixou a guarda.

"Então serei a primeira."

Foi. Demorou para ganhar a confiança porque o técnico -que ela prefere não dizer o nome- não lhe deu qualquer atenção nos primeiros meses. Contava com a ajuda dos colegas do ginásio para conseguir treinar. Em um ano, perdeu 40 kg. Ao começar, estava com 105 kg.

Ao subir no ringue pela primeira vez como amadora, em competição chamada Virada Esportiva, sua vida mudou.

"Ganhei por nocaute. Vi que aquilo era para mim. Estar no ringue foi uma experiência mágica", confessa.

Cercada pelas cordas, ela se imaginava Mike Tyson, o peso-pesado que tinha as lutas transmitidas no Brasil nas décadas de 1980 e 1990. Rose ficava acordada para assisti-las, sem desgrudar o olho da tela porque, se piscasse, poderia perder o nocaute.

"Ela é inteligente dentro do ringue, agressiva e tem pegada muito forte", analisa Moledas. "Se um homem tivesse vencido o título mundial, estaria na Globo. As pessoas do esporte no Brasil têm de dar valor à Rose. Ela merece."

A campeã mundial conseguiu se profissionalizar quando entrou para a equipe Memorial, de Santos. Nas Olimpíadas de Londres, em 2012, fez parte da delegação brasileira como reserva na categoria até 60 kg. Foi três vezes campeã nacional e paulista.

"Eu espero que muitas mulheres vejam [o exemplo dela] e percebam que o boxe não é um esporte masculino. Que as mulheres descubram o boxe pelo que ele é: uma nobre arte que traz benefícios físicos e mentais", afirma.

VISIBILIDADE

Rose deposita tanta fé na capacidade transformadora do seu título que ela mesma coloca freio nas próprias esperanças. Talvez seja demais.

"Existe preconceito, sim. Bolsas e patrocínios são menores. A visibilidade é bem menor", diz, em comparação com a categoria masculina.

Na Argentina, ao ser campeã mundial, lutou para o maior público de sua carreira: 4.000 pessoas. No Brasil, em média são 800 espectadores por evento. Sua defesa de título será na Arena Santos, ginásio mantido pela prefeitura. A capacidade é para 5.000 pagantes.

A idade é outro motivo de preocupação. Para os outros. Para ela, ter 35 anos não quer dizer nada. Sempre lança mão do exemplo da jamaicana Alicia Ashley, que continua lutando aos 50.

Rose Volante não quer falar sobre números, coisas objetivas. Quer algo mais abstrato, como reconhecimento. Dentro do ringue, no meio da luta que lhe valeu título inédito para o esporte feminino brasileiro, ouviu argentinos gritando "Brenda! Brenda!". Aquilo ficou na sua memória.

"Era uma guerra. Mas eles, os argentinos, me deram muito carinho."

O mesmo amor que ela sonha receber no Brasil.

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