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Eleito sem votos dos sócios, presidente quer mudar pleito no Vasco

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SÉRGIO RANGEL

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Alexandre Campello é o primeiro presidente do Vasco, em quase 120 anos de história, eleito sem obter nas urnas os votos dos sócios.

Depois de romper na reta final da reunião do conselho do clube com o seu aliado Julio Brant, vencedor do pleito em novembro, Campello contou com a ajuda de aliados do então presidente Eurico Miranda para chegar ao poder.

Um semana depois de assumir o cargo, o médico de 57 anos diz que quer democratizar o clube e é favorável à adoção de eleição direta no próximo pleito. Para isso, tentará mudar o estatuto.

Pelas regras do clube, a eleição dos sócios dá à chapa vencedora 120 vagas na reunião do conselho que escolhe o presidente. O derrotado fica com 30 assentos. Os outros 150 votos são de conselheiros natos. Campello venceu Brant por 154 votos contra 88.

Com a agremiação mergulhada em dívidas (cerca de R$ 300 milhões), o novo cartola não promete títulos para 2018 e pede paciência dos torcedores para recuperar as finanças do clube cruz-maltino.

"Temos que arrumar a casa para voltar a investir depois", disse o dirigente, que descarta o envolvimento de Miranda na sua gestão.

PERGUNTA - O Vasco deve salário aos jogadores e não tem nenhum patrocínio. Como resgatar a credibilidade do clube?

ALEXANDRE CAMPELLO - Temos que mostrar que somos o novo. Desbloqueamos 10 mil vascaínos nas redes sociais. Antes, quem detonava a diretoria era bloqueado. Queremos essas pessoas conosco. Vamos começar uma auditoria para entender o tamanho da dívida. Precisamos de um diagnóstico. Isso vai mostrar o nosso propósito. Com isso, os empresários vão se aproximar. Os jornalistas voltaram a andar dentro do clube. Eles podem falar bem e podem falar mal. O Vasco é um clube muito grande, uma potência no futebol pela sua história. Temos uma história riquíssima. O Vasco é reconhecido pela democracia. Foi o primeiro clube a abrir as portas para jogadores negros. Essa história tem que continuar.

P - Você foi eleito indiretamente após romper com o líder da chapa mais votada. Muitos sócios protestaram. Não se sentiram representados. Pretende mudar esse processo?

AC - Quero modernizar o estatuto. Vamos criar uma comissão para estudar mudanças e submeter ao conselho deliberativo. Vou lutar para aprovar [a eleição direta]. Sempre fui favorável. Queremos colocar em prática tudo que pregamos.

P - Você foi acusado de traição pelo Júlio Brant por ser eleito com o apoio do Eurico...

AC - Se você olhar para a nova diretoria, nenhum desses membros esteve com o Eurico. Não tem nada a ver. Na nossa nova diretoria tem o Eloi Ferreira, que é o primeiro vice-presidente, filho de um porteiro do Vasco e foi ministro da Igualdade Racial. A segunda vice-presidente, pela primeira vez, é uma mulher. Isso mostra o resgate que pretendemos fazer. Além disso, os filhos do Eurico foram afastados. O Eurico não vai participar da minha administração. É preciso entender que havia uma divergência muito grande com o Julio. Após a vitória, ele não me ouviu em nada. Ele não só rachou com os conselheiros da nossa chapa, como causou a insatisfação dos beneméritos [Brant registrou queixa na delegacia acusando aliados de Eurico Miranda de sumirem com equipamentos do clubes com base em boatos divulgados em redes sociais]. Se eu não fosse candidato, outro seria eleito no lugar dele. Existia uma massa que não queria o Julio.

P - Quais são seus planos?

AC - O clube precisa passar por uma reestruturação financeira e de gestão. A nossa marca vem perdendo espaço nos últimos anos. A arrecadação é decrescente. O endividamento é crescente e de forma rápida. Precisamos equacionar a questão financeira. É importante o vascaíno entender isso. Temos que fazer um esforço para mudar o rumo. Temos que arrumar a casa para voltar a investir depois.

P - Como fazer isso?

AC - Não podemos ficar tão dependente das cotas de TV. A TV representa 80% do faturamento do clube. Além disso, parte dessa receita está comprometida com adiantamentos, ações judiciais, empréstimos com garantias. Isso dificulta muito a gestão. O clube está debilitado financeiramente. Temos que ter os pés no chão e diversificar receitas. O vascaíno tem que entender que investir pesado no futebol agora pode comprometer ainda mais o clube.

P - Esse ano não dá para prometer título?

AC - O orçamento está muito comprometido. Conseguimos prever alguma melhora no meio de 2019 e possível recuperação em 2020. Acho que estamos conseguindo montar um time competitivo dentro das limitações financeiras. Sabemos que no futebol nem sempre os clubes mais caros são os vitoriosos. Mas se [o título] não vier neste ano, virá a partir do ano que vem. Confiamos nos nossos atletas, no treinador [Zé Ricardo] e vamos lutar para conseguir esses títulos.

P - E a gestão do futebol?

AC - Queremos criar uma filosofia para ter integração de metodologia entre o profissional e a base. Se o treinador do principal tem uma forma de jogar, o juniores tem de trabalhar dessa forma. Fica mais fácil para pinçar atletas jovens para o profissional. Não quero ser campeão de infantil e juvenil. Quero a qualidade. A prioridade é valorizar o talento.

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