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Reincidente em doping, farmácia nega contaminação e ataca Bellucci

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DANIEL E. DE CASTRO E FÁBIO ALEIXO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apontada por Thomaz Bellucci como a responsável por contaminação cruzada em seu suplemento multivitamínico -o que lhe rendeu cinco meses de suspensão-, a farmácia de manipulação Body Lab, do Rio de Janeiro, já esteve envolvida em outro caso de doping do tênis brasileiro.

Ela foi acusada em 2016 por Marcelo Demoliner de ser a responsável por contaminar as pílulas que usava e que lhe renderam punição de três meses após ter sido flagrado com a hidroclorotiazida, mesmo diurético encontrado na urina de Bellucci em julho deste ano, durante o Torneio de Bastad (SUE).

O uso da Body Lab, a amizade de Bellucci com Demoliner e o caso de 2016, além de outros detalhes do processo estão em documento divulgado pela ITF (Federação Internacional de Tênis) na noite de quinta (4).

Os dois tenistas foram defendidos pelo advogado Pedro Fida, que também cuida da defesa do atacante peruano Paolo Guerrero. Ele disse à reportagem que entrará com um processo contra a farmácia.

"Vamos tomar todas as medidas possíveis na Justiça para que a empresa arque com os danos e faça as reparações necessárias. O Thomaz está pagando pelo erro de terceiros", afirmou.

A Body Lab nega veementemente a possibilidade de contaminação dos suplementos de Bellucci, assim como fez no caso de Demoliner. Dois laboratórios, o Korva Labs, dos EUA, e o Armand-Frapier, do Canadá, emitiram laudos que indicam quantidade de hidroclorotiazida nas pílulas consistente com a de contaminação na fabricação.

"Há mais de 30 anos trabalho com manipulação. Trabalhei com a seleção brasileira de 1998, trabalho com o Botafogo e nunca tivemos sequer um caso de contaminação. É muito estranho que aconteça com esta turminha do tênis. Todo mundo está careca de saber que todos os atletas usam a contaminação cruzada como desculpa quando são pegos em doping por substâncias específicas e não drogas sociais. Partem para isso porque não tem outra justificativa", disse à reportagem Sadi Perini, proprietário e responsável técnico pela Body Lab.

"Somos uma farmácia pequena, que trabalha com uma pequena quantidade de pedidos. Eu teria de manipular uma quantidade enorme de hidroclorotiazida para haver contaminação. Isso não existe. Não tenho que ficar justificando porra nenhuma. Se quiserem acionar na Justiça, vamos adiante. Tenho todo meu passado para provar a qualidade do meu trabalho", completou.

A Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro confirmou que a farmácia tem em dia todas as suas licenças para operação.

O nome do bioquímico Alexandre Cosendey também é citado no documento da ITF. Ele trabalhou com Demoliner, foi quem elaborou as receitas de manipulação para Bellucci e indicou a farmácia Body Lab para a confecção dos suplementos. Cosendey sabia que ela havia sido apontada como culpada em 2016.

"Eu confio a saúde da minha família à Body Lab. O doutor Perini é um cara idôneo ao extremo, que conheço há mais de 30 anos, quando servimos na Aeronáutica. Eu tenho certeza absoluta de que não houve contaminação. Não estou dizendo que seja o caso do Bellucci, mas isso de contaminação cruzada é alegado para quem não tem onde correr", disse Cosendey.

Segundo o bioquímico, quando Demoliner soube de seu doping pediu para que a farmácia fizesse uma carta admitindo a contaminação, o que não foi aceito. "Ele me ligou chorando e implorando para que eu pedisse esse documento ao doutor Perini. Mas ele não queria dar".

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, o tenista não quis comentar o caso.

De acordo com o relato, depois de mais cinco tentativas por parte de Demoliner, Perini fez uma carta na qual dizia que em tese era possível haver contaminação, mas descartava absolutamente que isso tivesse ocorrido em seu laboratório. A Folha apurou que essa carta existe e foi usada no julgamento do tenista, que correu em segredo na ITF.

PRIMEIRA VEZ

Cosendey e Perini disseram também que os suplementos de Bellucci fabricados em 8 de junho, nos quais houve a detecção da hidroclorotiazida, foram feitos pelo atleta sem uma consulta médica nos dias anteriores.

Bellucci teria usado a receita emitida por Cosendey em 25 de abril com os mesmos parâmetros já utilizados em 24 de janeiro, sem fazer novo exame de sangue, que poderia apontar a necessidade de alteração das doses. "Em abril, ele me perguntou se poderia repetir a fórmula e fiz sem problemas", explicou o bioquímico.

O mês de junho marcou a primeira vez que Bellucci usou os serviços da Body Lab. Em outras duas fabricações de suplementos usou uma farmácia de confiança em São Paulo, fato que é conformado por Pedro Fida. O advogado diz que, como no primeiro semestre Bellucci estava em São Paulo, isso facilitava a logística.

"O Bellucci nunca quis usar nossos serviços. Com seu jeito grosseiro e pedante, disse que faria em São Paulo. Aí em junho apareceu aqui e pediu para fazermos e apresentou a receita de abril dizendo que faria por conta própria. Consultei o Alexandre e, em três dias, entregamos os suplementos", explicou Perini.

"Eu estranhei a atitude dele de usar a Body Lab, mas confio na farmácia e não vi problema. Tenho imagens que mostram a bancada limpa e não teria como haver contaminação. A farmácia toma muito cuidado. No dia em que manipula suplementos de atletas, faz apenas com eles", disse Cosendey.

AMIZADE

Em sua defesa na ITF, Bellucci afirmou que não tinha conhecimento sobre o caso de Demoliner, o que gerou estranheza na entidade.

"O Sr. Bellucci diz que não sabia das circunstâncias específicas do caso do Sr. Demoliner e nem que o biomédico e o seu médico lhe haviam informado do problema. Entretanto, ainda que não fosse informado, ele poderia saber. O Sr. Bellucci e o Sr. Demoliner jogaram duplas juntos, são amigos e consultaram o mesmo biomédico e médico e usaram a mesma farmácia", diz trecho da decisão da ITF.

"Se ele [Bellucci] os tivesse questionado, saberia que o Sr. Demoliner jogou a culpa na farmácia e poderia ter evitado usá-la", consta na sequência.

TESTE PARTICULAR

A ITF afirma ainda que Bellucci enviou por conta própria as cápsulas para serem testadas em um laboratório dos EUA, o Korva Labs. Posteriormente, elas foram encaminhadas para um laboratório acreditado pela Wada (Agência Mundial Antidoping) no Canadá.

Segundo a federação, o atleta não deveria ter realizado o teste de forma particular. Em vez disso, deveria ter encaminhado à entidade os potes de vitaminas fechados. "Se tivesse feito isso, ele poderia ter eliminado qualquer dúvida sobre quando as pílulas foram contaminadas".

Na avaliação do laboratório de Montreal, os níveis de hidroclorotiazida são consistentes com a contaminação no estágio de fabricação, mas não descartou que possa ter ocorrido depois desse processo, já que os potes chegaram abertos.

Apesar das ressalvas, a avaliação final da ITF é a de que Bellucci não pode ser considerado culpado ou negligente nesse caso. Por esse motivo, recebeu cinco meses de suspensão -a punição poderia chegar a quatro anos.

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