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Em gravação, Hawilla negocia propina para Teixeira, Del Nero e Marin

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SILAS MARTÍ

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Jotinha e Klebinho. Nas conversas mais explícitas sobre negociação de pagamentos de propina reveladas até agora no julgamento do escândalo de corrupção da Fifa, J. Hawilla, o dono da Traffic, e Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo e dono da Klefer, discutem em tom carinhoso supostos pagamentos a uma série de cartolas.

Os diálogos foram gravados por Hawilla, que assumiu culpa e colaborou com as investigações das autoridades americanas no escândalo de corrupção da Fifa. Eles foram apresentados nesta terça-feira (5) durante o julgamento do ex-presidente da CBF, José Maria Marin.

"Era R$ 500 mil pro Ricardo [Teixeira], R$ 500 mil pro Marco Polo [Del Nero] e R$ 500 mil pro [José Maria] Marin", diz J. Hawilla, o Jotinha, a Leite, o Klebinho, lembrando um acordo que eles fizeram de pagar R$ 1,5 milhão relativos à compra de direitos comerciais da Copa do Brasil.

Leite, em tom preocupado, discorda dos valores, dizendo que eram R$ 2 milhões, alegando ter feito "uma equação para incluir mais gente" e manter seu "compromisso moral" de continuar fazendo as remessas para Ricardo Teixeira mesmo depois que o cartola havia renunciado à presidência da CBF, em 2012.

O contrato firmado pela Traffic e pela Klefer com a CBF foi negociado quando Teixeira ainda estava no comando da organização que regula o futebol brasileiro. Ele acertava a contrato de cessão dos direitos de transmissão das Copas do Brasil de 2013 a 2022 para as empresas.

Quando Teixeira foi substituído no cargo por José Maria Marin, ex-presidente da CBF que está sendo julgado agora em Nova York, e Marco Polo Del Nero assumiu as funções de Teixeira na Fifa e na Conmebol, a propina das empresas de J. Hawilla e Leite passou a ser compartilhada pelos três.

Uma série de e-mails entre J. Hawilla e Flavio Grecco, executivo da Traffic, mostram, de fato, que essa nova equação a que se referiu Leite aumentou para R$ 2 milhões o valor pago aos cartolas, R$ 1 milhão para Teixeira e R$ 1 milhão para Marin e Del Nero –parte das transferências era feita pelo Delta, um banco sediado em Miami.

Na conversa gravada por J. Hawilla como parte de um acordo de delação premiada com a Justiça americana, Leite aparenta nervosismo e desconfiança. "Aqui não é Estados Unidos, aqui é um perigo filho da puta. Não dá para falar dessas coisas no telefone."

E também alude às anotações apreendidas na sede da Klefer, no Rio, como registros dos pagamentos de propina. "O que é tá lá no meu cofre bonitinho. Eu tenho tudo no meu cofre com a minha letra, eu mesmo escrevi", afirma.

José Maria Marin, réu no processo que ainda se declara inocente, também aparece pela primeira vez flagrado numa conversa sobre propina. No evento de lançamento da Copa Centenário, há três anos, em Miami, J. Hawilla pergunta se tudo já estava acertado com Kleber Leite.

Ele responde que sim e também diz que a "conversa está indo muito bem" com Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, os argentinos donos da Full Play, que teriam pago propina a ele e Del Nero relacionada a direitos da Copa América. Marin diz não saber se havia recebido, mas que ele iria "conferir com Marco Polo".

OUTRO LADO

Advogado de Ricardo Teixeira, Michel Assef Filho disse que seu cliente não vai se pronunciar a respeito dos diálogos gravados por J. Hawilla até receber a íntegra do depoimento do empresário.

"Temos advogados nos representando nos Estados Unidos, mas ainda não tivemos acesso à íntegra do que foi dito. Isso vai acontecer apenas nesta quarta (6)", afirmou.

Já o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, nega terminantemente que tenha recebido qualquer vantagem indevida em suas atividades. Reafirma ainda que não participou da negociação nem da assinatura de nenhum dos contratos, entre a CBF e as empresas Traffic e Klefer, citados pelo delator premiado. Informa ainda que todos estes contratos têm data de assinatura anterior ao ano de 2012.

A defesa de José Maria Marin disse que só se pronunciará após o julgamento.

A Klefer emitiu um comunicado negando as informações.

"Quem detinha os direitos e desenvolvia a Copa do Brasil até 2014 era a Traffic. Desta forma, é mais do que óbvio que, se alguma ilegalidade foi cometida, só pode ter sido pela Traffic. Não reconhecemos e repudiamos as transcrições das gravações das alegadas gravações apresentadas. O delator José Hawilla, com a finalidade única de buscar benefício pessoal e para sua família junto as autoridades norte-americanas, tentou produzir provas em conversas telefônicas, em diálogo completamente diferente do que foi transcrito. Os diálogos apresentados são mentirosos", afirma a empresa.

"É mentirosa e irresponsável a denúncia do réu confesso José Hawilla, dando conta de que a quantia de quatrocentos e cinquenta mil dólares, encaminhada pela Traffic à Klefer, tinha como destino o pagamento de propina. A verdade, com documentos em poder das duas empresas, é a que tais valores são provenientes de obrigações contratuais firmadas entre a Klefer Produções e Promoções Ltda e a Traffic Assessoria e Comunicações Ltda. Para finalizar, o que destrói e joga por terra todas as irresponsáveis e mentirosas acusações do delator José Hawilla, pode ser comprovado, através de documentos assinado pelo seu filho, Stéfano Hawilla, CEO da Traffic Brasil, quando interpelada pela Klefer, já no dia 27 de julho de 2015, sobre as acusações de José Hawilla, responde, afirmando que o pai, vivendo nos Estados Unidos, e afastado da empresa há muito tempo, delatava sem o menor conhecimento de causa. A seguir, trecho do documento sobre o qual nos referimos, que está na íntegra, à disposição de quem se interessar: 'Stéfano Hawilla: "Vale lembrar, ainda, que há um bom tempo o Sr. José Hawilla, está distante da gestão da empresa e não participa de sua administração, principalmente no que diz respeito à Copa do Brasil e os assuntos à elas relacionados'" completa a nota.

A Klefer diz que "tomará as medidas legais cabíveis contra tamanhos disparates que afetam moral e eticamente a saúde da empresa, de seus diretores e funcionários, que a todo momento questionam se o Sr. José Hawilla resistiria a um teste de sanidade mental".

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