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Delator do caso Fifa diz que Marin era 'rei' e Del Nero executava ações

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SILAS MARTÍ

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - "Era como uma monarquia. A voz por trás das decisões centrais era do Marco Polo Del Nero, mas os discursos eram feitos por José Maria Marin. Ele era o rei, e Marco Polo Del Nero era o presidente que conduzia as coisas."

O empresário argentino Alejandro Burzaco, testemunha da acusação no julgamento do escândalo de corrupção da Fifa, definiu dessa maneira a relação entre os cartolas brasileiros a quem diz ter pago propina ao longo dos últimos cinco anos.

Marin, ex-presidente da CBF que está sendo julgado agora em Nova York acusado de participação no esquema, teria recebido US$ 2,7 milhões por meio de Burzaco, ex-homem forte da Torneos y Competencias, empresa de marketing esportivo de Buenos Aires que distribuía boa parte dos pagamentos ilícitos.

Em mais um dia de julgamento, a estratégia da defesa de Marin foi tentar pintar um quadro em que ele era coadjuvante das decisões de Del Nero, o presidente atual da CBF, que passou a ocupar os assentos do Brasil na Conmebol e no Comitê Executivo da Fifa desde 2012, quando Ricardo Teixeira renunciou ao comando do futebol nacional sob uma série de denúncias.

Questionado por James Mitchell, advogado de Marin, Burzaco disse ter achado "incomum" o fato de o cartola não ter passado a representar o Brasil nos órgãos internacionais depois que ele assumiu a presidência na CBF no lugar de Ricardo Teixeira.

Outro exemplo da relevância menor de Marin, lembrado pela defesa e confirmado por Burzaco, foi o episódio em que num jantar no hotel St. Regis em Miami, em paralelo à edição especial da Copa América disputada no ano passado, Marin teria reclamado de não ter um assento na mesa principal, ao lado de Eugenio Figueredo, então presidente da Conmebol.

"Essa é minha lembrança", disse Burzaco. "Ele estava frustrado porque não estava sentado na mesa principal."

Burzaco também deu mais detalhes de um encontro que teve com Marin, Del Nero, Julio Grondona, ex-chefe do futebol argentino, e Marcelo Campos Pinto, então executivo da TV Globo responsável pela compra de direitos de transmissões esportivas.

Num jantar no Tomo Uno, um restaurante em Buenos Aires, Del Nero teria alertado Burzaco sobre Marin, dizendo que o cartola era muito amigo do brasileiro José Hawilla, dono da Traffic, empresa de marketing esportivo.

Burzaco também voltou a lembrar que naquele mesmo encontro ele discutiu com Marin e Del Nero os detalhes dos pagamentos de propina a ambos atrelados à venda dos direitos de transmissão da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana. Eles receberiam US$ 300 mil cada um, repartindo a cota anual de US$ 600 mil que era destinada a Teixeira.

OBSTRUÇÃO DE JUSTIÇA

Grande parte do último depoimento de Burzaco na corte do Brooklyn também girou em torno da suspeita de uma tentativa de obstrução de justiça depois que o empresário se entregou às autoridades.

O advogado de Marin, James Mitchell, perguntou se o empresário havia apagado os arquivos e mensagens em seu Blackberry e se tinha dado ordens para que empregados destruíssem os computadores da Torneos y Competencias nas sedes da firma em Buenos Aires e Montevidéu.

Burzaco negou ter deletado o conteúdo de seu telefone, dizendo que alguém cancelou o serviço e o aparelho acabou ficando inutilizável.

Também disse que renunciou ao comando da firma no momento em que decidiu se entregar às autoridades, quando ainda estava em Milão, onde se encontrou com um de seus advogados.

Ele reconheceu, no entanto, que havia um plano acordado entre ele, seu sócio, Luis Nofal, e o gerente administrativo, Eladio Rodríguez, que se algo acontecesse era necessário remover arquivos do alcance da polícia argentina, mas não para destruir nada.

Burzaco disse ainda que soube que os arquivos foram eliminados nos escritórios da Torneos quando já estava em prisão domiciliar em Nova York. "Minha responsabilidade acabou quando mandei minha carta de renúncia ao conselho de direção da Torneos", afirmou o empresário.

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