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Torcedor que enganou polícia na Copa-2014 faz greve de fome na Argentina

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ALEX SABINO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O técnico Ariel Holan deixava o prédio na Villa Dominico, sede do Independiente, em 19 de outubro deste ano, quando seu carro foi abordado por outro, dirigido por Pablo Álvarez, 44, conhecido como Bebote, um dos mais famosos e temidos barras bravas do futebol argentino. Entrou no veículo do treinador e exigiu o pagamento de US$ 50 mil (R$ 163,3 mil). Dinheiro que, segundo ele, seria usado para financiar a viagem de torcedores para a Copa do Mundo do próximo ano, na Rússia.

Foi um gesto ousado, característico da personalidade do mais midiático torcedor organizado do país. E foi o começo do seu fim.

Denunciado por extorsão, Alvarez passou a ser procurado pela polícia. Por receio de que tivesse viajado para o exterior, a Interpol o colocou na lista de procurados. Sem alternativa, ele se entregou no último dia 27. Por reclamação de maus tratos, está em greve de fome há uma semana. Na última segunda (6) à noite, também parou de consumir líquidos. Reclama ter sido torturado e pediu expressamente não ser transferido para a unidade 29 de Melchor Romero, em La Plata. Teme ser morto.

"É uma denúncia política. Holan disse não ter se sentido pressionado, o que é a base para uma denúncia de extorsão. Ele mesmo afirma que não teve o carro invadido por Pablo e sim, pediu para que entrasse porque aquela era uma via de grande movimento", afirmou à reportagem o advogado de Álverez, Alejandro Pérez.

Bebote teme ser vítima de um assassinato de cunho político. Segundo seu advogado, ele tem uma séria queimadura no braço direito causada por água fervendo, jogada por um policial. Teria sofrido também um golpe violento na cabeça.

"Ingressei no sistema penal e já emagreci 15 quilos. A propósito, os médicos do sistema penitenciário informam de maneira errada a minha situação. O médico está dizendo que eu engordei três quilos, apesar de estar sem comer. Estou com menos de 50 quilos", disse o próprio Bebote, em contato telefônico com o programa "Código de Barras", especializado nos problemas da torcidas organizadas do país, da rádio "LA RZ", de Buenos Aires.

"Com tudo o que ocorre, eu temo pela vida dele", completa Pérez.

Após a prisão, a polícia entrou no apartamento de Bebote, em Berazategui, encontrou 117 mil pesos argentinos (cerca de R$ 22 mil), quatro cheques totalizando 200 mil pesos (R$ 37 mil), US$ 6,9 mil (R$ 22,6 mil) e confiscou telefones celulares do torcedor.

Em outros países, a acusação de que um líder de torcida poderia ser vítima de morte política causaria risos. Não na Argentina, onde os principais barras bravas do país possuem agendas telefônicas recheadas de contatos com algumas das pessoas mais poderosas do país. Rafael Di Zeo, líder histórico da "12", a organizada do Boca Juniors, se gabava de ter telefones de gente que seria capaz de tirá-lo da prisão quando quisesse.

"Quando eles começaram a receber dinheiro de políticos, sindicatos, órgãos públicos e governadores, deixaram de ser um problema de arquibancada. Eles [os barras bravas] manejam mais poder que nós. Quando estava na África do Sul [para a Copa de 2010], vieram me avisar que alguns deles estavam sendo detidos no aeroporto. Eu disse: 'prendam-nos, mandem-nos para casa'. Mas sempre vinha alguém de cima pedir que eu intercedesse por eles", confessou Julio Grondona, que foi presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) entre 1979 e 2014, quando morreu.

Ser barra brava na Argentina é profissão que envolve muito dinheiro. Eles embolsam dinheiro dos clubes para contratar ônibus para jogos fora de casa. Recebem uma cota de ingressos para revenda. Pedem ajuda financeira a jogadores para festas, camisas para serem vendidas... São responsáveis por cuidar do comércio informal fora dos estádios: camisas piratas, guardadores de carros, comidas e bebidas. Não é raro que torcedores de clubes menores sejam líderes de torcida nos grandes. Parte dos barras bravas do Boca Juniors, vem do Almirante Brown, da 2ª divisão. Os do River Plate, do Sportivo Italiano.

Bebote temia a transferência porque preso em La Plata também está Walter Linardi Martinez, outro barra brava do Independiente, rival de Pablo Álvarez.

MIDIÁTICO

A fama de Álvarez existe porque ele tem prazer de enganar as autoridades e mostrar isso nas redes sociais. Foi o que fez na Copa de 2014. Apesar de proibido pelo governo argentino de viajar ao Brasil, ele embarcou mesmo assim e entrou nos jogos da seleção sempre com algum disfarce diferente. Na partida das oitavas de final, no Itaquerão, contra o suíços, conseguiu passar incólume por estar com o rosto pintado com a bandeira suíça. Em Brasília, antes das quartas de final diante da Bélgica, foi preso e deportado.

A ficha criminal de Bebote tem quatro ações penais. Tem tentativas de roubo de automóvel, porte ilegal de arma, atentado, lesões, roubo qualificado e resistência à prisão. À exceção do processo de extorsão contra Holan, os outros foram arquivados ou prescreveram.

Para pressionar e ameaçar os jogadores do Independiente em 2014, cachorros apareceram mortos, enforcados, nas proximidades do estádio de Avellaneda. Chamado para esclarecer o caso na sede do clube e esperado pela imprensa, ele exibiu ossos falsos de cachorro pela janela do carro. Também foi acusado de extorsão pelo ex-presidente da equipe, Javier Cantero.

"Houve extorsão e privação ilegal da liberdade de Holan e mais três pessoas. Estamos tentando contribuir para o fim da máfia no futebol", disse o chefe da Agência de Prevenção à Violência no Esporte, Juan Manuel Lugones.

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